Após 250 mil mortes nos EUA, cresce apoio ao fechamento da produção não-essencial entre os trabalhadores

24 Novembro 2020

Publicado originalmente em 19 de novembro de 2020

Enquanto a pandemia do coronavírus se dissemina fora de controle, a revolta está crescendo nas fábricas e locais de trabalho nos EUA. O número de mortes já ultrapassou 250 mil, e novos casos e hospitalizações estão aumentando rapidamente em quase todos os estados do país. Porém, os trabalhadores estão sendo mantidos no trabalho, forçados a arriscar as suas vidas e as vidas dos seus familiares pelo lucro empresarial.

As preocupações e a oposição dos trabalhadores são em grande parte ignoradas pela mídia corporativa. Entretanto, os artigos publicados no WSWS sobre a propagação do coronavírus nos locais de trabalho estão sendo amplamente lidas pelos trabalhadores e compartilhadas nas mídias sociais.

Um trabalhador da linha de montagem da GM em Flint, no estado de Michigan, escreveu ao WSWS: "Eu acho que cada fábrica deveria testar todos os funcionários e nos mandar para casa para quarentena por duas semanas e cortar todas as horas extras de trabalho até que esse vírus tenha desacelerado!"

Um trabalhador de uma fábrica de peças da Fiat Chrysler em Michigan escreveu: "Não se esqueça de nós aqui na linha de Marysville Axle. Temos dezenas de funcionários e supervisores fora da fábrica devido à Covid e quase nenhum protocolo de segurança, exceto as verificações de temperatura na porta da fábrica. Nenhuma das pessoas aqui sente que as suas vidas são importantes. As autopeças são mais importantes do que as nossas vidas".

Condições semelhantes prevalecem em todo o país e em todas as indústrias. Mike Hull, um educador do Texas e fundador do grupo de Facebook "Teachers against Dying" (Professores contra a morte), disse ao WSWS: "Muitas pessoas estão sendo forçadas a sair [de casa], muitas estão morrendo, e o que é doentio é o quanto isso poderia ser evitado. Tem que haver uma ação urgente".

Os trabalhadores estão exigindo uma ação coletiva. Na Linha de Montagem de Sterling Heights (SHAP), onde pelo menos um trabalhador, Mark Bianchi, morreu recentemente, os trabalhadores estão discutindo "ir para a linha azul", ou seja, parar de operar a linha de montagem e ir para uma área segura afastada da linha. Isso é o que os trabalhadores da SHAP e outros trabalhadores da Fiat Chrysler em Michigan, Ohio, Indiana e Windsor, Canadá, fizeram em meados de março, forçando o fechamento da indústria automobilística na América do Norte e outros lockdowns, o que salvou a vida de dezenas de milhares de pessoas.

Trabalhadores da educação, enfermeiras e outros trabalhadores já estão tomando medidas. Enquanto os hospitais são sobrecarregados com uma enorme entrada de pacientes de COVID-19, 800 enfermeiras da área de Filadélfia no Centro Médico de Saint Mary em Langhorne, Pensilvânia, saíram em protesto na terça-feira para exigir pessoal e equipamento de proteção adequados e salários dignos.

Ao mesmo tempo em que os educadores estão arriscando suas vidas a cada vez que são forçados a entrar em uma escola, os professores no estado de Utah organizaram uma paralisação na semana passada, assim como os educadores em Midland, Texas, onde foi anunciado na terça-feira que o professor John Anthony do colégio de Midland havia morrido de COVID-19. Os professores no estado do Alabama estão organizando um protesto para sexta-feira e buscando o apoio dos trabalhadores automotivos na fábrica da Hyundai em Montgomery. Depois de semanas com aumento de infecções e demandas dos professores para interromper o ensino presencial, as escolas da cidade de Nova York fecharão hoje, apesar dos esforços para mantê-las abertas pelos governos municipal e estadual do Partido Democrata.

Todo o establishment político se opõe à atuação mais básica para salvar vidas: o fechamento imediato de empresas não-essenciais, escolas e universidades até que a pandemia esteja sob controle.

Na semana passada, a mera sugestão do epidemiologista Michael Osterholm, membro da força-tarefa para o coronavírus de Biden, de que deveria haver um lockdown de quatro a seis semanas, com remuneração integral para os afetados, levou a uma enorme venda das ações em Wall Street, ao repúdio imediato da equipe de transição de Biden e à declaração de Trump de que "esta administração não fará lockdown", o que levou a uma recuperação dos valores das ações.

A enorme quantidade de óbitos é o produto de políticas definidas, que atendem a interesses de classe definidos. A administração Trump e o Partido Democrata esconderam inicialmente os perigos da pandemia para proteger o mercado de ações e evitar manifestações amplas dos trabalhadores. Após a aprovação da lei CARES bipartidária no final de março, ambos os partidos iniciaram a campanha de retorno ao trabalho para forçar os trabalhadores a pagar pelo enorme resgate dos super-ricos.

Depois, o congresso americano permitiu deliberadamente que o auxílio federal para o desemprego expirasse em julho, levando a uma queda chocante de meio trilhão de dólares na renda individual. O congresso se recusou a aprovar um novo pacote de estímulo, deixando cerca de 12 milhões de trabalhadores desempregados sob risco de perder o seu auxílio-desemprego até o final de dezembro. O objetivo é fazer os trabalhadores passarem fome para que arrisquem as suas vidas no trabalho.

Os trabalhadores querem agir para impedir a propagação do vírus. Eles sabem que a cada dia que entram no trabalho estão arriscando as suas vidas e as vidas dos seus familiares. Porém, muitos estão perguntando como eles podem sobreviver se não estiverem trabalhando. "Eu realmente não sei o que fazer porque realmente não posso me dar ao luxo de parar de trabalhar", disse um trabalhador automotivo em Flint, Michigan, ao WSWS. "Ainda estou sofrendo financeiramente por conta da paralisação em março. Por outro lado, não quero espalhar essa doença aos meus entes queridos".

A "escolha" que os trabalhadores estão sendo forçados a fazer, entre sacrificar a sua saúde ou o seu bem-estar econômico, é baseada na subordinação da resposta à pandemia aos lucros das corporações e à riqueza da classe dominante.

O Partido Socialista pela Igualdade exige a interrupção de toda a produção não-essencial e o fechamento imediato das escolas e universidades. Embora as máscaras e o distanciamento social sejam necessários, tais medidas não impedirão a propagação do vírus nos locais de trabalho. A possibilidade de uma vacina ser amplamente disponibilizada em algum momento em 2021 torna ainda mais necessário tomar todas as medidas agora para salvar vidas.

Isso deve ser acompanhado por uma compensação integral de todos os trabalhadores afetados pelos fechamentos, incluindo US$ 1 mil por semana para que possam viver, junto à suspensão das mensalidades dos estudantes e de cartões de crédito, aluguel e hipotecas. As pequenas empresas devem ser compensadas, para que possam sobreviver até que a pandemia esteja sob controle.

Uma enorme alocação de recursos é necessária para garantir que as crianças tenham tecnologia de ponta e conexões de internet de alta velocidade para o ensino à distância, os pais tenham os meios para cuidar das crianças, e os problemas psicológicos e sociais associados a um período de isolamento sejam tratados de forma adequada e humana. Um enorme programa de obras públicas deve ser lançado para construir a infra-estrutura necessária para distribuir a vacina quando ela estiver disponível e para fornecer testes regulares, rastreamento de contatos e tratamento médico gratuito para conter e finalmente erradicar a doença.

Os recursos para isso existem. Trilhões de dólares foram entregues aos bancos e corporações para alimentar o aumento recorde das bolsas de valores, em meio à morte em larga escala e à devastação social. A fortuna privada de Jeff Bezos, Elon Musk e do resto dos bilionários dos EUA cresceu em US$ 637 bilhões. Apenas no terceiro trimestre, a GM, a Ford e a FCA acumularam quase US$ 8 bilhões em lucros. As gigantescas redes de hospitais com fins lucrativos, HCA, Tenet e Universal, todas resgatadas com fundos públicos, tiveram um aumento nos lucros no terceiro trimestre.

A luta contra a pandemia não é apenas uma questão médica. É uma luta política. As medidas necessárias para salvar vidas exigem atacar frontalmente a riqueza e o poder da oligarquia empresarial e financeira, que controla ambos os partidos políticos.

Para tomar as medidas necessárias, os trabalhadores precisam de novas organizações de luta, independentes dos sindicatos, para ganhar o apoio para paralisações e uma greve geral para interromper a produção. Ao longo desta crise, os sindicatos têm sido irrelevantes. Onde eles existem, os sindicatos simplesmente promoveram as mentiras dos executivos e políticos corporativos sobre a "reabertura segura" enquanto escondiam informações sobre surtos de COVID-19.

Trabalhadores automotivos, professores e outros trabalhadores estão construindo uma rede de comitês de segurança de base para coordenar esta luta. Estas iniciativas devem ser ampliadas e expandidas para abranger todas as seções da classe trabalhadora e para unir as lutas dos trabalhadores nos EUA com os trabalhadores na Europa, América Latina e em todo o mundo.

A luta em defesa da saúde e da segurança dos trabalhadores deve ser combinada com a construção de um poderoso movimento político da classe trabalhadora nos EUA e internacionalmente, que tem como objetivo estabelecer o poder dos trabalhadores, tomar as fortunas dos super-ricos e reorganizar a vida econômica segundo linhas socialistas, com base nos princípios da solidariedade humana e da igualdade social.

Jerry White