A Teoria Monetária Moderna e a crise do capitalismo

‘The Deficit Myth’, de Stephanie Kelton

Por Nick Beams
16 Novembro 2020

Publicado originalmente em duas partes em 23 e 25 de outubro de 2020

Ao longo da história do capitalismo e de suas recorrentes crises, várias teorias foram apresentadas por teóricos de “esquerda” que sustentam que essas crises e os males sociais que geram podem ser amenizados, se não totalmente eliminados, mudando o sistema monetário sem tocar nos fundamentos da própria produção capitalista.

Embora se apresentem como de “esquerda” e “progressistas”, defendendo a reforma do sistema capitalista, a história mostra que em períodos de grande crise procuram desviar a classe trabalhadora do programa da revolução socialista, ao mesmo tempo em que fornecem os fundamentos ideológicos para forças políticas que defendem uma solução contrarrevolucionária para a crise.

A Teoria Monetária Moderna (MMT, na sigla em inglês), cujos princípios fundamentais são apresentados no livro The Deficit Myth: Modern Monetary Theory and the Birth of the People’s Economy (O Mito do Déficit: Teoria Monetária Moderna e o Nascimento da Economia do Povo) por uma de suas principais defensoras, é a mais recente expressão deste fenômeno.

A luta contra tais tendências remonta às próprias origens da economia política marxista.

Karl Marx

No inverno de 1857-58, em meio a uma crise econômica global, Marx escreveu o rascunho inicial da obra que viria a se tornar O Capital, publicado em 1867. Esse rascunho chegou até nós na forma dos Grundrisse, publicado pela primeira vez em inglês em 1973, que tem uma relevância particular para a compreensão da MMT.

O ponto de partida de Marx foi uma análise do dinheiro e a refutação das teorias do anarquista francês Proudhon, na época considerado um importante teórico socialista. Os Grundrisse começam com uma citação de um dos seguidores de Proudhon, Alfred Darimon:

“A raiz do mal é a predominância que a opinião atribui obstinadamente ao papel dos metais preciosos em circulação e troca.”

Segundo os proudhonistas, os males sociais do capitalismo poderiam ser superados se apenas o ouro e outros metais preciosos fossem retirados de seu status privilegiado como dinheiro e reduzidos ao status de mercadoria comum. Se isso fosse feito, a desigualdade do intercâmbio entre capital e trabalho poderia ser eliminada e a igualdade natural de todas as formas de trabalho poderia ser restaurada.

A essência da refutação de Marx consistia em mostrar que o dinheiro não era algum dispositivo inventado com o objetivo de facilitar as trocas, mas surgiu do próprio sistema de produção de mercadorias, no qual o trabalho dos particulares envolvidos na produção para o mercado, ou seja, a produção social, tem que encontrar alguma medida independente. O dinheiro, insistiu Marx, não surge de uma convenção mais do que o Estado, mas se desenvolve a partir de uma sociedade baseada na troca de mercadorias.

Retrato de Pierre Joseph Proudhon, 1865 (Gustave Courbet/Wikimedia)

O ponto essencial que Marx estabeleceu, através de uma análise detalhada das concepções proudhonistas, foi que o dinheiro não criou os conflitos e contradições da sociedade capitalista, que assumiu formas cada vez mais violentas quando a força de trabalho se tornou uma mercadoria na forma de trabalho assalariado, mas sim “o desenvolvimento dessas contradições é que cria o poder aparentemente transcendental do dinheiro”. [Grundrisse, Penguin Books, 1991, p. 146]

O objetivo dos proudhonistas era acabar com os males sociais do capitalismo, que estavam se tornando cada vez mais claros devido a suas crises recorrentes, alterando as relações de distribuição e circulação, facilitadas pelo dinheiro, sem tocar nas relações sociais subjacentes da produção, baseadas na produção de mercadorias.

Aqui Marx levantou o que ele chamou de questão fundamental: “Podem as relações existentes de produção e as relações de distribuição correspondentes sofrer uma revolução por uma mudança no instrumento de circulação, na organização da circulação?” E, ainda, “pode tal transformação da circulação ser empreendida sem tocar nas relações de produção existentes e nas relações sociais que nelas repousam?” [Grundrisse, p. 122]

O esquema proudhonista, que se baseava na continuação da produção de mercadorias, a base da economia capitalista, era uma utopia. Era, como Marx o caracterizava, o mesmo que abolir o Papa sem acabar com a Igreja Católica.

As teorias proudhonistas da década de 1850, que buscavam resolver as crises do capitalismo através do que Marx chamou de “truques de circulação”, foram repetidas de várias maneiras desde então.

Em meio ao sofrimento social que afligia os trabalhadores e pequenos agricultores nos EUA durante a década de 1890, resultado de uma severa crise econômica que viu o desemprego aumentar para cerca de 25% em 1893, William Jennings Bryan tornou-se o candidato presidencial do Partido Democrata em 1896 prometendo remover a “cruz de ouro” da humanidade.

Acreditava-se que o padrão-ouro tinha sido a causa da deflação, e o sistema monetário deveria ser alterado de maneira que passasse a ser lastreado também em prata, o que promoveria um retorno à prosperidade econômica.

O aprofundamento da crise econômica do capitalismo global após a Primeira Guerra Mundial levou ao desenvolvimento de uma série de teorias que afirmavam que a crise poderia ser aliviada através de mudanças nas formas de distribuição econômica e no sistema monetário.

Nos anos 1920, C. H. Douglas apresentou a teoria do crédito social. Contrastando a diferença entre o valor da produção da fábrica e os pagamentos feitos sob a forma de ordenados, salários e dividendos, ele propôs o pagamento de um dividendo nacional para compensar esse déficit. A teoria do crédito social de Douglas e sua noção de demanda insuficiente encontraram expressão na visão de Keynes, que sustentou que os problemas da economia capitalista resultavam de uma demanda efetiva insuficiente, uma lacuna que deveria ser preenchida pelos gastos governamentais.

Durante a década de 1920, as principais moedas ainda estavam lastreadas em ouro – uma situação que passou a ser vista por alguns críticos como responsável pela continuação de condições econômicas de crise.

Em 1924, o economista alemão Georg Friedrich Knapp elaborou uma nova teoria do dinheiro. Ele sustentou que o dinheiro não surgiu da produção de mercadorias e não tinha nenhum valor intrínseco. Era um símbolo (“token”) criado pelos governos como meio de pagamento das obrigações fiscais que impunham. Essa teoria, conhecida como cartalismo (derivada da palavra latina charta, que significa símbolo), é a base da MMT.

Todas essas teorias, desde a de Proudhon, passando pela de Keynes até a MMT, têm uma perspectiva política muito definida. Tendo surgidas em períodos de crise econômica e social, elas se baseiam na posição de que estas crises não surgem das contradições inerentes ao capitalismo, enraizadas na produção de mercadorias e na transformação da força de trabalho em uma mercadoria e sua exploração, mas podem ser superadas através de uma mudança nas políticas governamentais e do desenvolvimento de um novo sistema monetário e de crédito.

O objetivo delas é desviar a classe trabalhadora da tarefa que lhe é imposta por essas crises – a de derrubar o modo capitalista de produção e empreender a reconstrução da economia em bases socialistas. Ao contrário, segundo esses teóricos, a tarefa do dia é convencer os poderes que devem abandonar suas teorias incorretas e adotar as soluções que propõem, que fornecerão uma base para a expansão capitalista e evitarão a necessidade de uma revolução social. Esse é o tema essencial do livro de Kelton e da MMT.

Capa do livro The Deficit Myth

Desde o início, Kelton escreve com lirismo sobre o poder da MMT, afirmando que desafia o status quo com uma economia sólida e “nos dá o poder de imaginar uma nova política e uma nova economia”, nos permitindo ver que “outro tipo de mundo é possível, um mundo em que podemos investir em cuidados de saúde, educação e infraestrutura duradoura”. [The Deficit Myth, pp. 12-13]

Não há dúvida de que tais coisas são materialmente possíveis, devido ao vasto desenvolvimento das forças produtivas, criadas pelo trabalho de milhões de trabalhadores, que seriam utilizadas para satisfazer as necessidades humanas numa economia socialista planejada. Mas são impossíveis de alcançar sob o capitalismo devido às relações sociais em que se baseia – relações que a MMT ignora completamente, tratando a economia capitalista não como um sistema social, com divisões de classe irreconciliáveis, mas como uma espécie de máquina.

De acordo com Kelton, os males sociais criados pelo capitalismo são o resultado não de suas contradições objetivas, mas de um pensamento incorreto. Ela sustenta que políticas econômicas que priorizam a necessidade humana e o interesse público são possíveis dentro do capitalismo apenas se “nossas restrições autoimpostas” forem abandonadas.

Essas restrições, sustenta, surgem da forma como os gastos do governo são vistos e comparados com os gastos domésticos. Uma família tem que adquirir dinheiro para financiar suas despesas e deve equilibrar seu orçamento. Ou seja, é usuária de dinheiro. O governo, por outro lado, é emissor de dinheiro e não está sujeito a tais restrições, argumenta.

Uma família não pode criar dólares para financiar suas despesas, mas o governo pode. Isso significa que os limites de gastos que se aplicam a uma família não se aplicam a um governo soberano que emite sua própria moeda. Ele pode sempre financiar seus gastos simplesmente imprimindo mais dinheiro, ou apenas criando dinheiro apertando um botão de computador no Federal Reserve que transfere dinheiro do banco central para outra conta bancária.

“A distinção entre os usuários de moeda e o emissor de moeda está no coração da MMT” [p. 18], escreve.

A MMT não sustenta, entretanto, que não há limites para tais gastos, mas que eles não são determinados por restrições financeiras. Eles surgem somente quando todos os recursos disponíveis da economia real são plenamente utilizados e outras demandas sobre eles, resultantes dos gastos do governo, vão além da capacidade da economia, levando assim à inflação. Mas até esse momento, há muitos problemas sociais, econômicos e até ecológicos, como a mudança climática, que podem ser resolvidos.

O primeiro ponto a ser observado é que esta não é apenas uma agenda “EUA em primeiro lugar”, mas uma agenda “Somente os EUA”.

O Tesouro americano tem uma capacidade aparentemente ilimitada de criar mais dólares devido ao papel do dólar como moeda global.

Entretanto, Kelton afirma que outros países, como emissores de sua própria moeda, incluindo países como o Reino Unido, Austrália e Canadá, podem fazer a mesma coisa, e a MMT “oferece perspectivas” para países com pouca ou nenhuma soberania monetária, como Panamá, Tunísia, Grécia, Venezuela e muitos outros. [p. 19]

Mesmo um exame preliminar demonstra a falsidade dessa concepção. As moedas de outros países não gozam da mesma posição que o dólar americano. Se, por exemplo, o Reino Unido ou a Austrália, para não falar de países como a Argentina ou a Venezuela, simplesmente criassem reservas ilimitadas de dinheiro e as utilizassem para atender às necessidades sociais, rapidamente descobririam que o valor de sua moeda entrou em colapso nos mercados mundiais, dando origem à inflação e minando sua capacidade de pagar dívidas contraídas em dólares americanos.

Mas não obstante o papel privilegiado do dólar americano, existem também limites inerentes à criação de dólares pelo Fed dos EUA, que derivam da própria natureza do dinheiro.

A produção de mercadorias, a base da economia capitalista, é realizada por entidades privadas, empresas e indivíduos. Mas, ao mesmo tempo, é uma produção social. Toda sociedade tem que resolver a questão de como o trabalho social disponível é alocado, como os recursos de mão de obra disponíveis são distribuídos, a fim de continuar a funcionar.

Em uma sociedade socialista, essa tarefa será realizada através de um plano consciente e de uma organização democrática. Na sociedade capitalista, ela é realizada através do mercado. Isso significa equiparar os diferentes tipos de mão de obra necessários para o funcionamento da sociedade. Em uma sociedade produtora de mercadorias, onde o trabalho é ao mesmo tempo social, mas realizado de forma privada, essa alocação é realizada através do sistema de valor.

O valor de cada mercadoria é determinado pela quantidade de mão de obra socialmente necessária para produzi-la. Mas esse valor deve adquirir uma forma material independente, e essa forma é o dinheiro. Como disse Marx: “O dinheiro é tempo de trabalho na forma de um objeto geral, ou a objetivação do tempo de trabalho geral, tempo de trabalho como uma mercadoria geral”. [Grundrisse, p. 168]

É através do dinheiro que se expressa o vínculo social objetivo que realmente existe entre os produtores privados individuais. Os economistas, escreveu Marx, dizem que as pessoas depositam confiança em uma coisa, o dinheiro, porque não depositam fé umas nas outras. “Mas por que eles têm fé na coisa? Obviamente porque essa coisa é uma relação objetivada entre pessoas; porque é uma relação objetivada de valor de troca e o valor de troca nada mais é do que a relação entre as atividades produtivas das pessoas”. [Grundrisse, p. 160]

Historicamente, o ouro emergiu como a matéria-prima do dinheiro. Ao longo do século passado, o dinheiro fiduciário emitido pelo Estado substituiu o ouro no funcionamento diário da economia capitalista e, acima de tudo, de seu sistema financeiro e de crédito, particularmente após a remoção do lastro em ouro do dólar americano em agosto de 1971. Sob essas condições, se desenvolveu a concepção que o dinheiro é meramente uma convenção e deixou de ter uma base material.

Essa é a base da Teoria Monetária Moderna e da promoção de suas ilusões de que o capitalismo pode de alguma forma funcionar de acordo com a satisfação da necessidade social. “Livres das restrições que nos prendem em um mundo de padrão-ouro”, escreve Kelton, “os EUA agora desfrutam da flexibilidade para operar seu orçamento, não como uma família, mas para o verdadeiro serviço de seu povo”. [The Deficit Myth, p. 37]

Ela insiste que “merecemos saber a verdade” de que um governo emissor de moeda “pode se dar ao luxo de comprar o que estiver à venda em sua própria unidade monetária”, e que “os bolsos do Tio Sam nunca estão vazios”. [p. 256]

Stephanie Kelton

Ela até mesmo espera o apoio do ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, citando o seu depoimento ao Congresso em 2005, no qual disse que não havia “nada que impedisse o governo federal de criar tanto dinheiro quanto ele quer e pagá-lo a alguém”. [p. 182]

É certamente verdade que o Fed pode emitir grandes quantidades de dinheiro sem limite. Mas ele não pode criar o valor que este dinheiro supostamente representa. Ele não pode determinar quanto desse dinheiro precisa ser usado para comprar mercadorias. Além disso, ao emitir dinheiro em papel, não pode expandir a massa de mais-valia adicional extraída da classe trabalhadora no processo de produção, que forma a base e a força motriz da economia capitalista.

Ou seja, ao separar o dinheiro do sistema de valor, a MMT simplesmente coloca de lado as relações sociais subjacentes da economia capitalista. O dinheiro pode ser criado em quantidades ilimitadas. Mas, no limite, seja na forma de ouro ou papel-moeda, ele deve funcionar como o representante material do valor.

Eventos recentes reforçam esse aspecto. A expansão maciça de dinheiro pelo Fed dos Estados Unidos desde o início da pandemia de COVID-19 desencadeou uma crise financeira, viu o valor do dólar cair drasticamente, enquanto o preço do ouro atingiu recordes em meio a preocupações sobre por quanto tempo o dólar pode continuar a funcionar como moeda mundial.

Ao abordar essa questão em um artigo no New York Times no auge da crise de março, o historiador econômico Adam Tooze observou que enquanto a economia americana era fraca, o dólar ainda era o meio de pagamento mais universalmente aceito e uma reserva de valor. Seu argumento era essencialmente circular: o dólar é aceito como meio de pagamento porque é uma reserva de valor e é uma reserva de valor porque é aceito como meio de pagamento.

É impossível dizer quanto tempo isso poderá durar e se a crise atual leva imediatamente a uma crise de confiança no dólar e em todas as moedas fiduciárias e a uma virada para o ouro. Mas há limites inerentes à criação de infinitas quantidades de dinheiro e crédito.

A produção capitalista, com o desenvolvimento do sistema de crédito, Marx observou, “esforça-se constantemente para superar esta barreira metálica, que é tanto uma barreira material quanto imaginária à riqueza, ao mesmo tempo em que volta sempre a bater a cabeça contra ela”. O dinheiro em forma de metal precioso, insistiu ele, continua sendo a base a partir da qual o sistema de crédito “nunca poderá se libertar”. [Marx, Capital Volume III, p. 708, p. 741]

Keynes pode ter descartado o ouro como uma “relíquia bárbara”, mas os bancos centrais continuam a possuí-lo. O Bundesbank alemão, por exemplo, descreve o ouro como um “tipo de reserva de emergência que também pode ser usada em situações de crise quando as moedas estão sob pressão”, e o Banco da Inglaterra descreve-o como “a última reserva de valor, cobertura de inflação e meio de troca”.

Kelton sustenta que a análise da MMT é apartidária e seu poder explicativo “descreve como nosso sistema monetário realmente funciona”. Isso é falso porque deixa de fora as relações sociais e de classe nas quais a economia capitalista se baseia – a propriedade privada dos meios de produção, a produção de mercadorias para o mercado, a transformação da força de trabalho em mercadoria e a extração de mais-valia com base nessas relações sociais, que é a fonte da acumulação de capital.

Essa separação, que está no coração da teoria do dinheiro da MMT, torna-se ainda mais clara quando Kelton se volta para alguns dos principais problemas sociais e econômicos dos dias atuais e para as propostas apresentadas pela MMT para resolvê-los.

Uma de suas principais diretrizes políticas é a criação de empregos pelo governo federal. Isso significaria a garantia de emprego para todos que quisessem um emprego de US$ 15 por hora, que funcionaria como um estabilizador da economia em períodos de retração econômica. Quando ocorresse uma recuperação, o emprego federal seria reduzido à medida que os trabalhadores retornassem ao setor privado.

É desnecessário dizer que não há explicação para a existência do desemprego, sem mencionar as crises recorrentes e cada vez maiores do sistema capitalista que o produz. Mas a MMT propõe que as crises podem ao menos ser amenizadas através de projetos de trabalho financiados pelo Fed apertando um botão de computador para criar mais dinheiro.

A análise da MMT baseia-se na concepção de que a função da economia é atender às necessidades da sociedade através da produção de bens e serviços, enquanto fornece à população, através do sistema de salários, os recursos para comprá-los e se sustentar.

Essa é uma descrição completamente fictícia. A força motriz da economia capitalista não é a oferta de meios de vida. Sua base é a expansão de valor através da extração de valor excedente, ou mais-valia, do trabalho da classe trabalhadora.

A origem da mais-valia – a base, no limite, do lucro industrial, do aluguel, do pagamento de juros e do retorno ao ativo financeiro – é a diferença entre o valor da mercadoria força de trabalho, adquirida pelo capital através do pagamento de um salário, e o valor criado pelo trabalhador no decorrer do dia de trabalho.

O desemprego não surge de algum infeliz mau funcionamento da economia, mas é parte integrante do processo de acumulação de mais-valia.

Cada setor do capital está em constante luta para apropriar-se de sua parcela da mais-valia total extraída da classe trabalhadora reduzindo seus custos de produção. Uma das principais maneiras de se fazer isso é baixando os salários através da criação do que Marx chamou de “exército de reserva” de mão de obra – os desempregados.

Essa tendência se manifesta continuamente, sobretudo nos períodos supostamente melhores de expansão econômica. À medida que os salários aumentam sob condições de tal expansão, cada setor do capital é impulsionado pela luta competitiva para introduzir novas medidas para reduzir a força de trabalho e intensificar a exploração dos trabalhadores a fim de aumentar os lucros.

Os interesses da classe capitalista como um todo são garantidos pelo Fed, juntamente com outros bancos centrais, que elevam as taxas de juros para suprimir a produção econômica a fim de manter a pressão descendente sobre os salários. No início dos anos 1980, a chamada “reestruturação” da economia americana foi realizada pelo Fed sob a presidência de Paul Volcker, que elevou as taxas de juros a níveis recordes para fechar setores inteiros da indústria e criar desemprego em massa.

O desemprego não é uma característica infeliz ou acidental, mas é parte integrante de um sistema socioeconômico baseado na mercantilização da força de trabalho. Escrevendo contra os proudhonistas e seus “truques de circulação”, Marx observou: “Uma forma de trabalho assalariado pode corrigir os abusos de outra, mas nenhuma forma de trabalho assalariado pode corrigir o abuso do próprio trabalho assalariado”. [Grundrisse, p.123]

A mesma questão – o fato de a MMT passar por cima das relações sociais da economia capitalista – se coloca quando Kelton considera o oferecimento de saúde e outros serviços e infraestruturas sociais vitais.

Contrariando as contínuas alegações de que o Medicare é insustentável, ela escreve: “Todos esses argumentos são mal orientados porque todos estão fundamentados no mito do déficit. Enquanto tivermos prestadores e infraestruturas de saúde para atender à demanda, o Medicare será sustentável nos únicos termos que importam – os verdadeiros recursos produtivos de nossa nação”. [p. 173]

É perfeitamente verdade que todos os recursos existem não apenas para sustentar o Medicare, mas para expandi-lo, juntamente com muitos outros serviços sociais. Mas isso não acontece por causa das formas mal orientadas de pensar dos formuladores de políticas ou dos mitos que acreditam.

Isso acontece porque a estrutura da economia capitalista é baseada na acumulação de mais-valia. Os serviços sociais prestados pelo Estado não produzem mais-valia. Ao contrário, eles são financiados pela redução da massa total de mais-valia disponível para apropriação pelo capital. É por isso que toda crise econômica que ameaça a acumulação de lucro é acompanhada pelo impulso para cortar os serviços sociais.

Segundo Kelton, porém, esses ataques não estão enraizados em relações sociais e econômicas objetivas, mas surgem de formas de pensamento ultrapassadas, ou seja, que o governo deve equilibrar seu orçamento.

Como um pregador religioso, a MMT anuncia: “Eu sou a sabedoria e a luz. Abandonem seus velhos modos de pensar e a sociedade pode avançar se não para o céu, pelo menos para um lugar melhor”.

Kelton apresenta exemplos do que ela chama de “mito do déficit”, alguns deles decorrentes de sua participação na equipe econômica que assessorou o Senador Bernie Sanders em 2015.

Mas se, como afirma, a MMT é uma explicação de como o sistema monetário realmente funciona, então qual é a razão para a persistência da mitologia diante da perspectiva que a MMT oferece? Se um mito persiste, então ele deve ter raízes sociais objetivas. Ele deve servir a forças de classe definidas. Ele não pode ser atribuído à ignorância, assim como a persistência da religião não pode ser explicada.

Essa questão pode ser investigada e a razão dos ataques à saúde e outros serviços pode ser revelada considerando a situação que existiria se os formuladores de políticas fornecessem uma explicação objetiva para suas medidas.

O que aconteceria se eles dissessem ao Congresso que a razão pela qual os gastos com serviços sociais devem ser cortados e que não há “dinheiro” para financiá-los é que tais gastos são uma redução da mais-valia extraída da população trabalhadora necessária para manter e aumentar os lucros de Wall Street?

Se tal explicação científica, derivada do funcionamento real da economia capitalista, fosse apresentada em meio a crescentes tensões de classe, impulsionaria uma crise política que levaria ao crescimento do sentimento anticapitalista e socialista.

Não estamos de forma alguma sugerindo que os membros do Congresso estejam cientes do funcionamento real da economia capitalista, assim como Kelton não está. Mas o fato deles invocarem a necessidade do governo de cortar gastos a fim de equilibrar seu orçamento, como uma família, desempenha um papel político definido, que está enraizado na estrutura de classe do capitalismo. É a cobertura ideológica para os serviços que prestam a Wall Street.

A MMT desempenha seu papel encobrindo esse sistema ao desviar a atenção dos processos objetivos subjacentes no trabalho, e concentrando-se nas concepções dos políticos e dos formuladores de políticas.

Ela defende a perspectiva de que a ordem econômica e política capitalista, que permite o vasto acúmulo de riqueza nas mãos de uma oligarquia financeira à custa da sociedade, pode ser milagrosamente transformada para beneficiar o povo se apenas os formuladores de políticas puderem ver a luz que supostamente proporciona.

Na apresentação de Kelton, a MMT não só pode eliminar os conflitos de classe e as contradições dentro dos Estados Unidos, como é capaz de transformar o imperialismo americano de um poder predatório, voltando-se cada vez mais para o militarismo para manter seu domínio global e ameaçando desencadear outra guerra mundial, em um benfeitor para o povo do mundo.

É preciso reconhecer, escreve, “que o governo americano pode fornecer todos os dólares de que nosso setor privado doméstico precisa para atingir o pleno emprego, e pode fornecer todos os dólares que o resto do mundo precisa para construir suas reservas e proteger seus fluxos comerciais. Em vez de usar seu status hegemônico de moeda para mobilizar reservas de ouro atendendo a seus próprios limitados interesses, os EUA poderiam liderar o esforço para mobilizar recursos para um Green New Deal global, mantendo as taxas de juros baixas e estáveis para promover a tranquilidade econômica global”. [p. 151]

É dito que não há realmente nada de novo sob o sol, e a MMT, como defendida por Kelton, é muito vinho velho em garrafas novas. É a versão moderna das teorias que foram apresentadas em períodos anteriores de crise capitalista para desviar os trabalhadores das tarefas reais em jogo. Não surpreende que tenha sido aproveitada por setores da pseudoesquerda, como a deputada dos Socialistas Democráticos dos EUA (DSA) Alexandra Ocasio-Cortez, que afirma que a MMT deve “fazer parte de nossos debates”.

O caminho a seguir não é a falsa perspectiva de alguma reforma do sistema capitalista através de “truques de circulação”, mas sua derrubada pela classe trabalhadora para estabelecer um governo operário a fim de abrir caminho para o estabelecimento de uma economia socialista democraticamente controlada e organizada na qual as vastas forças produtivas são utilizadas para atender às necessidades humanas.

 

Os autores também recomendam:

Marxism and the political economy of Paul Sweezy
[8 Abril 2004]

A superficial analysis of global capitalism—Part 1
[27 Fevereiro 2008]

The fraud of “progressive capitalism”
[26 Abril 2019]