O último ano de Trotsky

Parte cinco

Por David North
30 Outubro 2020

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Publicado originalmente em 2 de setembro de 2020

Em suas discussões com James P. Cannon e Farrell Dobbs durante a visita da delegação do Socialist Workers Party (SWP, Partido Socialista dos Trabalhadores) a Coyoacán em junho de 1940, Trotsky havia expressado preocupação com a abordagem excessivamente sindicalista do partido em relação ao seu trabalho nos sindicatos. Não havia atenção suficiente à política, ou seja, à estratégia socialista revolucionária. Isso se manifestava na adaptação do SWP aos sindicalistas pró-Roosevelt, que Trotsky descreveu como "um perigo terrível". [1] Ele sentiu a necessidade de lembrar aos líderes que "as políticas bolcheviques começam fora dos sindicatos". [2]

É evidente que Trotsky pretendia continuar e aprofundar a discussão das questões que tinham surgido durante a visita dos líderes do SWP. Após sua saída do México, Trotsky começou a trabalhar em um artigo dedicado a uma análise dos sindicatos. O rascunho foi encontrado na mesa de Trotsky após seu assassinato e foi publicado postumamente na edição de fevereiro de 1941 da revista teórica Fourth International. Foi intitulado Sindicatos na época da decadência imperialista.

Leon Trotsky e sua esposa, Natalia Sedova

Como é característico dos escritos de Trotsky, ele procurou situar sua análise dos sindicatos no contexto histórico e internacional apropriado, e identificar os processos essenciais que determinaram, além das motivações pessoais e racionalizações dos líderes individuais, as políticas dessas organizações. Somente com base neste objetivo foi possível desenvolver uma abordagem marxista, ou seja, genuinamente revolucionária, para atuar nos sindicatos. O artigo de Trotsky inicia com uma identificação concisa da posição dos sindicatos na ordem capitalista mundial:

Há uma característica comum no desenvolvimento, ou, para sermos mais exatos, na degeneração das modernas organizações sindicais no mundo inteiro: sua aproximação e seu crescimento vinculado ao poder estatal. Esse processo é igualmente característico dos sindicatos neutros, socialdemocratas, comunistas e "anarquistas". Somente este fato demonstra que a tendência de "crescer juntos” [Estado e sindicatos] não é própria dessa ou daquela doutrina, mas provém de condições sociais comuns a todos os sindicatos.

O capitalismo monopolista não se apoia na concorrência e na livre iniciativa privada, mas num comando centralizado. As camarilhas capitalistas que encabeçam poderosos trustes, monopólios, bancos, etc., veem a vida econômica da mesma perspectiva que o poder estatal; e exigem, a cada passo, a sua colaboração. Por sua vez, os sindicatos dos ramos mais importantes da indústria se veem privados da possibilidade de aproveitar a concorrência entre as diferentes empresas. Eles têm que enfrentar um adversário capitalista centralizado, intimamente ligado ao poder do Estado. [3]

Partindo dessa característica universal do desenvolvimento capitalista moderno, Trotsky argumentou que os sindicatos – na medida em que aceitam a estrutura capitalista – não podem manter uma posição independente. Os governantes dos sindicatos – a burocracia – procuraram puxar o Estado para seu lado, o que só poderiam conseguir se não demonstrassem ter interesses independentes, e muito menos hostis, ao Estado capitalista. Para deixar clara a extensão e as implicações dessa subordinação, Trotsky escreveu: "Ao transformar os sindicatos em órgãos do Estado, o fascismo não inventa nada de novo; ele apenas leva às últimas consequências as tendências inerentes ao imperialismo". [4] Trotsky enfatizou que o desenvolvimento do imperialismo moderno exigia a extinção de qualquer aparência de democracia dentro dos antigos sindicatos. No México, ele observou que os sindicatos "assumiram, por isso, um caráter semitotalitário". [5]

Trotsky insistiu que era necessário que os revolucionários continuassem a conduzir o trabalho dentro dos sindicatos, porque as massas de trabalhadores continuavam organizadas dentro deles. Por essa mesma razão, e somente por isso, os revolucionários não podiam, insistiu Trotsky, "renunciar à luta dentro das organizações de trabalho compulsório criadas pelo fascismo". [6] Claramente, Trotsky não acreditava que os sindicatos fascistas fossem "organizações de trabalhadores", no sentido de que eles representavam os interesses da classe trabalhadora. O trabalho dentro dos sindicatos, uma necessidade tática, não significava a reconciliação com a burocracia, muito menos um voto de confiança nessa camada social reacionária. O objetivo das intervenções dos marxistas dentro dos sindicatos em todas as condições era "mobilizar as massas não somente contra a burguesia, mas também contra o regime totalitário dentro dos próprios sindicatos e contra os dirigentes que fazem cumprir este regime". [7]

Trotsky propôs dois slogans sobre os quais a luta contra os agentes burocráticos do imperialismo deveria se basear. O primeiro era a "independência completa e incondicional dos sindicatos em relação ao Estado capitalista". Este slogan pressupunha "uma luta para transformar os sindicatos em órgãos das grandes massas exploradas e não em órgãos de uma aristocracia operária". [8] Mas essa tarefa ligava-se inseparavelmente à conquista das massas de trabalhadores para o partido revolucionário e para o programa socialista.

Comentando a situação nos Estados Unidos, Trotsky viu o repentino surgimento de sindicatos industriais como um grande avanço. O CIO [Congresso das Organizações Industriais], escreveu, "é uma evidência incontestável das tendências revolucionárias dentro das massas trabalhadoras". [9] Mas a fraqueza dos novos sindicatos já era evidente.

No entanto, é revelador e extremamente significativo o fato de que a nova organização sindical "esquerdista", nem bem se fundou, já caiu no férreo abraço do Estado imperialista. A luta nas altas esferas entre a velha e nova federação reduz-se, em grande medida, à luta pela simpatia e o apoio de Roosevelt e seu gabinete. [10]

A intensificação da crise mundial do capitalismo e a radicalização das tensões sociais geraram no interior dos sindicatos, nos Estados Unidos e internacionalmente, uma virada brusca para a direita, ou seja, para um controle ainda mais forte dos sindicatos sobre a resistência da classe trabalhadora ao capitalismo. "Os dirigentes do movimento sindical", explicou Trotsky, "sentiram ou entenderam, ou os fizeram entender, que não é o momento de brincar com a oposição". A burocracia sindical não era uma espectadora inocente na consolidação das formas mais repressivas de governo burguês. "A característica básica, a guinada para o regime totalitário", disse Trotsky sem rodeios, "atravessa o movimento sindical do mundo inteiro". [11]

Uma vez que o SWP alimentava até as menores ilusões na possibilidade de relações amigáveis com os dirigentes sindicalistas "progressistas", não reconheceu o papel histórico das burocracias trabalhistas na época do imperialismo. Como o alerta de Trotsky à corajosa, mas surpreendentemente ingênua, camarada Antoinette Konikow, da delegação do SWP: "Lewis [o famoso líder do United Mine Workers (sindicato dos mineiros)] nos mataria de maneira muito eficiente..." [12]

O último parágrafo de seu ensaio resumia a situação histórica enfrentada pelos sindicatos:

Os sindicatos democráticos, no velho sentido do termo – de organismos no âmbito dos quais lutavam no seio da mesma organização de massas, mais ou menos livremente, diferentes tendências –, já não podem mais existir. Do mesmo modo que não se pode voltar ao Estado democrático burguês, tampouco é possível voltar à velha democracia operária. O destino de uma reflete o da outra. Na realidade, a independência de classe dos sindicatos quanto às suas relações com o Estado burguês, só pode, nas condições atuais, ser garantida por uma direção absolutamente revolucionária, ou seja, a direção da Quarta Internacional. Naturalmente, essa direção pode e deve ser racional e assegurar aos sindicatos o máximo de democracia concebível sob as condições concretas atuais. Mas sem a direção política da Quarta Internacional, a independência dos sindicatos é impossível. [13]

Essas palavras foram escritas há 80 anos. A análise de Trotsky sobre a degeneração dos sindicatos – sua integração ao poder estatal e à gestão corporativa – foi extraordinariamente visionária. A tendência para o "crescimento conjunto" dos sindicatos, do Estado e das corporações capitalistas permaneceu durante todo o período pós-Segunda Guerra Mundial. Além disso, o processo de integração econômica global e a produção transnacional privou os sindicatos de uma estrutura nacional em que eles pudessem exercer pressão para reformas sociais limitadas. Não restou um único espaço para que os sindicatos recorressem, mesmo que moderadamente, aos métodos de luta de classes por ganhos mínimos. Os sindicatos, em vez de extrair concessões das corporações, foram transformados em coadjuvantes do Estado e das corporações, que servem para extrair concessões dos trabalhadores.

Consequentemente, nenhum traço de "democracia operária" permanece nas estruturas burocrático-corporativas chamadas de sindicatos. A antiga terminologia sobrevive. Organizações corporativas como a AFL-CIO e suas afiliadas ainda são chamadas de "sindicatos". Mas a prática atual dessas organizações não tem nenhuma relação com a função socioeconômica tradicionalmente associada à palavra "sindicato". A prática do partido revolucionário não pode se apoiar no uso acrítico de uma terminologia que não corresponde à evolução do fenômeno que ele supostamente define. A degeneração das velhas organizações não pode ser superada simplesmente definindo-as como "sindicatos". Como Trotsky havia insistido em setembro de 1939, no estágio inicial da sua luta contra Shachtman e Burnham, "Devemos tomar os fatos como eles são. Devemos construir nossa política tomando como ponto de partida as verdadeiras relações e contradições". [14]

A luta pela democracia operária e a completa independência das organizações da classe trabalhadora continuam sendo elementos cruciais do programa revolucionário contemporâneo. Mas esta perspectiva não se concretizará pela renovação das velhas organizações. O processo de degeneração corporativista durante um período de oitenta anos impede, em todas as circunstâncias, exceto nas mais excepcionais, a ressuscitação dos antigos sindicatos. O caminho estratégico alternativo, levantado por Trotsky em 1938 noPrograma de Transição, é a política que está de acordo com as condições atuais; ou seja, "criar em todas as instâncias possíveis organizações combativas independentes que correspondam mais precisamente às tarefas da luta das massas contra a sociedade burguesa e não hesitar, se for necessário, nem mesmo diante de uma ruptura direta com o aparato conservador dos sindicatos". [15]

* * * * *

Em 7 de agosto de 1940, exatamente duas semanas antes de sua morte, Trotsky participou de uma discussão sobre "Problemas americanos". Respondendo a uma pergunta sobre o assunto, Trotsky insistiu que os membros do partido não deveriam fugir do alistamento. Mantê-los fora do exército, nas condições em que sua geração estava sendo mobilizada, seria um erro. O SWP não podia evitar a realidade da guerra:

Devemos entender que a vida desta sociedade, a política, tudo, será determinado pela guerra, portanto o programa revolucionário também deve se basear na guerra. Não podemos nos opor à realidade da guerra com uma ilusão; com um pacifismo piedoso. Devemos nos posicionar na arena criada por esta sociedade. A arena é terrível – é guerra – mas na medida em que somos fracos e incapazes de tomar o destino da sociedade em nossas mãos; na medida em que a classe dominante é suficientemente forte para nos impor esta guerra, somos obrigados a aceitar esta condição para nossa atuação. [16]

Trotsky reconheceu que existia um ódio profundo e legítimo a Hitler e ao nazismo entre as massas trabalhadoras. O partido teve que adequar sua agitação e suas formulações políticas aos humores patrióticos politicamente confusos sem fazer qualquer concessão ao chauvinismo nacional.

Não podemos fugir da militarização, mas dentro da máquina podemos seguir a linha de classe. Os trabalhadores americanos não querem ser conquistados por Hitler, e àqueles que dizem: "Que tenhamos um programa de paz", o trabalhador responderá: "Mas Hitler não quer um programa de paz". Portanto, nós dizemos: vamos defender os Estados Unidos com um exército operário, com oficiais operários, com um governo operário, etc. Se não somos pacifistas, que aguardam por um futuro melhor, e se somos revolucionários ativos, nosso trabalho é penetrar em toda a máquina militar…

Devemos usar o exemplo da França até o fim. Devemos dizer: "Aviso-vos, trabalhadores, que eles (a burguesia) vos trairão! Vejam Petain [o general francês que liderou o regime de Vichy e governou o país em nome de Hitler], que é um amigo de Hitler. Será que teremos a mesma situação neste país? Devemos criar nossa própria máquina, sob o controle dos trabalhadores". Devemos ter cuidado para não nos identificarmos com os chauvinistas, nem com os sentimentos confusos de autopreservação, mas devemos compreender seus sentimentos, adequarmo-nos a eles criticamente e preparar as massas uma compreensão melhor da situação, caso contrário seguiremos como uma seita, da qual a casta pacifista é a mais miserável. [17]

Perguntaram a Trotsky como o atraso político do trabalhador americano afetaria a capacidade de resistir à propagação do fascismo. Sua resposta alertou para uma avaliação simplista e unilateral da classe trabalhadora. "O atraso da classe trabalhadora dos Estados Unidos é apenas um termo relativo. Em muitos aspectos importantes, é a classe trabalhadora mais progressista do mundo: tecnicamente, e em seu padrão de vida". [18] De qualquer forma, desenvolvimentos objetivos dariam um poderoso ímpeto para o desenvolvimento da consciência de classe. Trotsky enfatizou as contradições no desenvolvimento da classe trabalhadora americana:

O trabalhador americano é muito combativo, como vimos durante as greves. Eles tiveram as greves mais rebeldes do mundo. O que o trabalhador americano sente falta é de um espírito de generalização, ou análise, de sua posição de classe na sociedade como um todo. Essa falta de pensamento social tem sua origem em toda a história do país – o Far West, com a perspectiva de possibilidades ilimitadas para que todos se tornem ricos, etc. Agora tudo isso se foi, mas a mente permanece no passado. Os idealistas pensam que a mentalidade humana é progressista, mas na realidade ela é o elemento mais conservador da sociedade. Sua técnica é progressista, mas a mentalidade do trabalhador está muito atrasada. Seu atraso consiste em sua incapacidade de generalizar seu problema; eles avaliam tudo numa lógica pessoal. [19]

Entretanto, apesar de todas as dificuldades e problemas objetivos no desenvolvimento da consciência geral, Trotsky se opôs à visão de que os Estados Unidos estavam à beira do fascismo. "As próximas ondas históricas nos Estados Unidos", ele previu, "serão ondas de radicalismo das massas; não de fascismo". Uma condição essencial para a vitória do fascismo era a desmoralização política da classe trabalhadora. Essa condição não existia nos Estados Unidos. Portanto, Trotsky afirmou aos entrevistadores de maneira confiante: "Tenho certeza que vocês terão muitas possibilidades de conquistar o poder nos Estados Unidos antes que os fascistas possam se tornar uma força dominante". [20]

A análise de Trotsky do fascismo foi dialética e ativa, não mecânica e passiva. O perigo representado pelo fascismo não podia ser determinado apenas com base em medidas quantitativas. A vitória do fascismo não foi meramente o resultado do crescimento numérico de seus adeptos, complementado pela simpatia aberta e oculta e o apoio das elites capitalistas e do aparato estatal burguês. Após a discussão de 7 de agosto, Trotsky ditou outro artigo, publicado postumamente, sob o título “Bonapartism, Fascism, and War” (“Bonapartismo, fascismo e guerra”), na edição de outubro de 1940 da Fourth International.

Dwight Macdonald

O propósito deste artigo não era apenas esclarecer questões surgidas na discussão de 7 de agosto, mas também para responder a um ensaio de Dwight Macdonald, um apoiador do grupo minoritário Shachtman-Burnham. Publicado na edição de julho-agosto de 1940 da revista de esquerda Partisan Review, o ensaio de Macdonald expressou o ceticismo desmoralizado dos intelectuais pequeno-burgueses que estavam rompendo com o marxismo e se desviando para a direita. Ciente dos sucessos militares de Hitler, Macdonald proclamou o regime nazista "um novo tipo de sociedade", cuja durabilidade havia sido subestimada por Trotsky. [21]

Macdonald aplicou ao Terceiro Reich o mesmo impressionismo superficial que havia motivado os improvisos teóricos da minoria pequeno-burguesa em relação à União Soviética. Ele bradou que a economia alemã, sob Hitler, "passou a ser organizada com base na produção e não no lucro", uma frase vazia que não explicava nada. [22] Macdonald afirmou que "esses regimes totalitários modernos não são acontecimentos temporários: eles já mudaram a base da estrutura econômica e social, não apenas manipulando as formas antigas, mas também destruindo sua vitalidade interior". [23]

Macdonald afirmou que "os nazistas venceram porque estavam travando um novo tipo de guerra que, tão visivelmente quanto as inovações militares de Napoleão, expressava um novo tipo de sociedade", ultrapassando os velhos sistemas capitalistas de seus adversários. [24] A idealização ignorante de Macdonald sobre o sistema econômico nazista pouco tinha a ver com a realidade. No final da década de 1930, o estado da economia capitalista alemã estava à beira do desastre. Entre 1933 e 1939, a dívida nacional havia triplicado, e o regime estava lutando para cumprir com o pagamento de juros. É amplamente reconhecido que a decisão de Hitler pela guerra foi, em grande parte, impulsionada pelo medo de um colapso econômico. Como explicou o historiador Tim Mason:

Para esse regime das tensões e crises estruturais geradas pela ditadura e pelo rearmamento, a única "solução" que se abria era mais ditadura e mais rearmamento, depois expansão, depois guerra e terror, depois saque e escravidão. A alternativa desoladora, sempre latente, era o colapso e o caos, e assim todas as soluções eram temporárias, caóticas, se davam de forma precária, improvisos cada vez mais bárbaros em torno de um mote brutal... Uma guerra pelo saque de mão de obra e materiais se enquadrava na terrível lógica do desenvolvimento econômico alemão sob o domínio nacional-socialista. [25]

Trotsky descreveu o artigo de Macdonald como "muito pretensioso, muito confuso e estúpido". [26] Ele não viu necessidade de dedicar tempo para refutar a análise de Macdonald sobre a sociedade nazista. Mas Trotsky respondeu à incapacidade de Macdonald, típica dos intelectuais desmoralizados, de examinar a dinâmica política subjacente ao avanço do fascismo. Sua vitória foi o resultado, acima de tudo, de um fracasso catastrófico da direção dos partidos e organizações de massas da classe trabalhadora. O fascismo é imposto à classe trabalhadora como uma punição por ela ter desperdiçado oportunidades de derrubar o sistema capitalista. Por que o fascismo triunfou? Trotsky explicou:

Tanto a análise teórica quanto a rica experiência histórica do último quarto de século demonstraram com o mesmo vigor que o fascismo é em todo caso o elo final de um ciclo político específico composto do seguinte: a mais grave crise da sociedade capitalista; o crescimento da radicalização da classe trabalhadora; o crescimento da simpatia para com a classe trabalhadora e o anseio de mudança por parte da pequena burguesia rural e urbana; a extrema confusão da grande burguesia; suas manobras covardes e traiçoeiras com o objetivo de evitar o clímax revolucionário; o esgotamento do proletariado; a crescente confusão e indiferença; o agravamento da crise social; o desespero da pequena burguesia, sua ânsia de mudança; a neurose coletiva da pequena burguesia, sua disposição para acreditar em milagres; sua disposição por medidas violentas; o crescimento da hostilidade em relação ao proletariado que se iludiu com suas expectativas. Estas são as premissas para uma rápida formação de um partido fascista e sua vitória. [27]

No ciclo de acontecimentos americanos, Trotsky sustentou, a situação ainda não era propícia para os fascistas. "É bastante evidente que a radicalização da classe trabalhadora nos Estados Unidos passou apenas por suas fases iniciais, quase exclusivamente na esfera do movimento sindical (o CIO)". [28] Os fascistas tinham assumido uma posição defensiva. Contrariando as dúvidas de todos aqueles que se perguntavam, enquanto se sentavam em volta, se a vitória era possível, escreveu Trotsky:

Não há tarefa mais indigna do que especular se vamos ou não conseguir criar um poderoso e revolucionário partido-dirigente. A perspectiva é favorável, fornecendo toda a justificativa para o ativismo revolucionário. É necessário utilizar as oportunidades que estão se abrindo e construir o partido revolucionário…

A reação exerce hoje um poder como talvez jamais tenha exercido na história moderna da humanidade. Mas seria um erro imperdoável ver apenas a reação. O processo histórico é um processo contraditório. Com o amparo da reação do governo, processos profundos estão ocorrendo entre as massas que estão acumulando experiência e tornando-se receptivas a novas perspectivas políticas. A velha tradição conservadora do Estado democrático, tão poderosa mesmo durante a era da última guerra imperialista, existe hoje apenas na forma de uma sobrevivência extremamente instável. Na véspera da última guerra, os trabalhadores europeus tinham partidos numericamente poderosos. Mas foram colocadas na ordem do dia as reformas, conquistas parciais, e não a conquista do poder.

A classe trabalhadora americana ainda hoje continua sem um partido de trabalhadores de massa. Mas a situação concreta e a experiência acumulada pelos trabalhadores americanos podem, em um período muito curto, colocar na ordem do dia a questão da conquista do poder. Esta perspectiva deve ser a base de nossa agitação. Não se trata apenas de um posicionamento em relação ao militarismo capitalista e de renunciar à defesa do Estado burguês, mas de preparar diretamente a conquista do poder e a defesa da pátria proletária. [29]

Macdonald representava o rápido crescimento da camada de intelectuais pequeno-burgueses desmoralizados que viram na vitória do fascismo a refutação decisiva do marxismo e de toda a perspectiva socialista. A situação era, para todos os efeitos, sem esperança. Ele escreveu:

A classe trabalhadora não está, em todo lugar, onde até agora escapou do jugo fascista, em pleno recuo? E mesmo que os trabalhadores mais tarde mostrem alguns sinais de revolta, onde eles encontrarão sua direção? Dos corruptos e desacreditados da Segunda e Terceira Internacionais? Dos pequenos e isolados grupos revolucionários, divididos por disputas sectárias? E finalmente, a autoridade do marxismo em si, a própria fonte de toda a ciência revolucionária, não foi abalada pela incapacidade de seus discípulos de dar respostas adequadas, na prática e na compreensão teórica, aos desenvolvimentos históricos das últimas duas décadas?

Devo dizer que estas perguntas são, no mínimo, legítimas. O tipo de "otimismo revolucionário" defendido em certos setores – um otimismo que, quanto pior a situação, é mais obstinado e irracional – me parece não prestar nenhum serviço à causa do socialismo. Devemos enfrentar o fato de que o movimento revolucionário sofreu uma série ininterrupta de grandes desastres nos últimos 20 anos, e devemos examinar novamente, com um olhar frio e cético, as premissas mais básicas do marxismo. [30]

Macdonald intitulou sua marcha fúnebre de "O caso a favor do socialismo". Na verdade, acabou sendo o caso de repúdio ao socialismo.

Os céticos desmoralizados, observou Trotsky, proclamaram o fracasso do marxismo porque "apareceu o fascismo no lugar do socialismo". Mas, além da desmoralização pessoal, os céticos revelaram em suas críticas uma concepção mecânica e passiva da história. Marx não prometeu a vitória do socialismo; ele revelou apenas as contradições objetivas na sociedade capitalista que tornaram o socialismo possível. Mas ele nunca afirmou que isso seria alcançado automaticamente. Na verdade, Marx, Engels e Lenin travaram uma luta incessante contra todas as tendências políticas, oportunistas e anarquistas, que minaram a luta pelo socialismo. Eles estavam conscientes de que uma má direção que sucumbisse à influência da classe dominante "poderia obstruir, retardar, tornar mais difícil, adiar o cumprimento da tarefa revolucionária do proletariado". [31]

A situação atual foi criada, em grande parte, pelos erros da direção da classe trabalhadora.

De maneira nenhuma o fascismo apareceu “no lugar” do socialismo. O fascismo é a continuação do capitalismo, uma tentativa de perpetuar sua existência por meio das medidas mais bestiais e monstruosas. O capitalismo obteve uma oportunidade de recorrer ao fascismo somente porque o proletariado não realizou a revolução socialista a tempo. O proletariado seguia sua tarefa quando foi paralisado pelos partidos oportunistas. A única coisa que se pode dizer é que houve mais obstáculos, mais dificuldades, mais etapas no caminho do desenvolvimento revolucionário do proletariado do que era previsto pelos fundadores do socialismo científico. O fascismo e a sequência de guerras imperialistas constituem a terrível escola onde o proletariado deve se libertar das tradições e superstições pequeno-burguesas, deve se livrar dos partidos oportunistas, democráticos e aventureiros, deve reiterar e treinar a vanguarda revolucionária, e assim se preparar para concluir a tarefa fora da qual não há e não pode haver nenhuma salvação para o desenvolvimento da humanidade. [32]

Continua...

[1] Writings of Leon Trotsky 1939-40 (New York: 1973), p. 273 [Traduzido a partir da citação na versão inglesa deste artigo]

[2] Ibid

[3] “Trade unions in the epoch of imperialist decay”. Marxism and the Trade Unions (New York: 1973), p. 9-10

[4] Ibid, p. 10

[5] Ibid, p. 11

[6] Ibid, p. 11

[7] Ibid, p. 12

[8] Ibid, p. 12

[9] Ibid, p. 16

[10] Ibid, p. 16

[11] Ibid, p. 16-17

[12] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p. 267

[13] Marxism and the Trade Unions, p. 18

[14] “The USSR in War,” In Defence of Marxism (London: 1971), p. 24

[15] “The Death Agony of Capitalism and the Tasks of the Fourth International,” (New York, 1981), p. 8

[16] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p. 331

[17] Ibid, p. 333-34

[18] Ibid, p. 335

[19] Ibid, pp. 335-37

[20] Ibid, p. 33-38

[21] “Socialism and National Defense,” Partisan Review (July-August 1940), p. 252

[22] Ibid, p. 254

[23] Ibid, p. 256

[24] Ibid, p. 252

[25] Tim Mason, Nazism, Fascism, and the Working Class (Cambridge, 1995), p. 51

[26] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p. 410

[27] Ibid, p. 412

[28] Ibid, p. 412-413

[29] Ibid, p. 413-14

[30] Partisan Review, op.cit., p. 266

[31] Writings of Leon Trotsky 1939-40, p. 416

[32] Ibid, p. 416-17