New York Times e Nikole Hannah-Jones abandonam afirmações decisivas do Projeto 1619

Por Tom Mackaman e David North
30 Setembro 2020

Publicado originalmente em 22 de setembro de 2020

O New York Times abandonou sem anúncio ou explicação a reivindicação central do Projeto 1619: de que a "verdadeira fundação" dos Estados Unidos aconteceu em 1619 - o ano em que os primeiros escravos foram trazidos para a Colônia da Virgínia - e não 1776.

A introdução ao projeto, quando ele foi lançado em agosto de 2019, declarava que

O Projeto 1619 é uma iniciativa importante do New York Times que comemora o 400º aniversário do início da escravidão estadunidense. Ele tem como objetivo reformular a história do país, entendendo 1619 como a nossa verdadeira fundação e colocando as conseqüências da escravidão e as contribuições dos negros estadunidenses no centro da história que contamos a nós mesmos sobre quem somos.

O texto revisado diz agora que:

O Projeto 1619 é uma iniciativa atual da The New York Times Magazine, que começou em agosto de 2019, o 400º aniversário do início da escravidão estadunidense. Ele tem como objetivo reestruturar a história do país, colocando as conseqüências da escravidão e as contribuições dos negros estadunidenses no centro da nossa narrativa nacional.

Uma mudança semelhante foi feita na versão impressa do Projeto 1619, que foi enviada a milhões de crianças em idade escolar em todos os estados. A versão original dizia:

Em agosto de 1619, um navio apareceu no horizonte, perto de Point Comfort, um porto costeiro na colônia britânica da Virgínia. Ele transportava mais de 20 africanos escravizados, que foram vendidos aos colonos. Os Estados Unidos ainda não eram os Estados Unidos, mas este foi o momento do seu início. Nenhum aspecto do país que seria formado nesse momento deixou de ser afetado nos 250 anos de escravidão que se seguiram.

Na versão do site, essa reivindicação decisiva foi removida. Agora, ela diz:

Em agosto de 1619, um navio apareceu no horizonte, perto de Point Comfort, um porto costeiro na colônia britânica da Virgínia. Ele transportava mais de 20 africanos escravizados, que foram vendidos aos colonos. Nenhum aspecto do país que seria formado nesse momento deixou de ser afetado pelos anos de escravidão que se seguiram.

Não está claro quando o Times removeu a sua afirmação de "verdadeira fundação", mas um exame das versões antigas do texto do Projeto 1619 armazenadas indica que isso ocorreu provavelmente em 18 de dezembro de 2019.

Essas exclusões não são apenas mudanças de redação. A reivindicação da "verdadeira fundação" é o elemento central da afirmação do Projeto 1619, de que toda a história dos EUA possui origem e é definida pelo ódio racial branco pelos negros. De acordo com essa narrativa, defendida pela criadora do projeto, Nikole Hannah-Jones, a Revolução Americana foi uma contrarrevolução racial preventiva conduzida pelos brancos na América do Norte para defender a escravidão contra os planos britânicos para aboli-la. O fato de não existirem evidências históricas para apoiar essa afirmação não impediu que o Times e Hannah-Jones declarassem como mitos a identificação histórica de 1776 com a criação de uma nova nação, assim como a afirmação de que a Guerra Civil era uma luta progressista com o objetivo de destruir a escravidão. De acordo com o New York Times e Hannah-Jones, a luta contra a escravidão e todas as formas de opressão foram lutas que os negros estadunidenses sempre travaram sozinhos.

O "desaparecimento" realizado pelo Times do seu argumento central, sem qualquer explicação ou anúncio, é um ato impressionante de desonestidade intelectual e fraude. Quando lançou o Projeto 1619 em agosto de 2019, o Times proclamou que o seu objetivo era mudar radicalmente o que e como os estudantes eram ensinados sobre a história dos EUA. Com o objetivo de criar um novo currículo baseado no Projeto 1619, centenas de milhares de cópias da versão original da narrativa, conforme publicada na New York Times Magazine, foram impressas e distribuídas para escolas, museus e bibliotecas em todo os Estados Unidos. Um grande número de escolas declarou que alinhariam os seus currículos de acordo com a narrativa fornecida pelo Times.

A remoção da afirmação de que 1619 foi a "verdadeira fundação" se mostrou nesta última sexta-feira, 18 de setembro. Hannah-Jones foi entrevistada no canal de televisão, CNN, e pediram que ela desse uma resposta à denúncia fascista de Donald Trump do Projeto 1619. Hannah-Jones declarou que a afirmação de "verdadeira fundação", "é claro", não era verdadeira. Além disso, ela fez a afirmação espantosa, e comprovadamente falsa, de que o Times nunca havia apresentado tal argumento.

A conversação se deu da seguinte forma:

CNN: A ordem executiva de Trump fala sobre uma concepção equivocada que eu sei que você tentou abordar sobre o que é o Projeto 1619, que não é um esforço para reescrever a história de quando esta nação foi fundada.

Hannah-Jones: É claro, sabemos que 1776 foi a fundação deste país. O projeto não argumenta que 1776 não foi a fundação do país.

Isso é uma mentira. Hannah-Jones tem feito repetidamente a afirmação de "verdadeira fundação" em inúmeros tuites, entrevistas e palestras, que estão em artigos de notícias e videoclipes prontamente disponíveis na internet. A própria conta no Twitter de Hannah-Jones incluía uma imagem sua com 1619 no fundo e com o ano de 1776 riscado ao lado.

Hannah-Jones, presa em uma mentira, responde com mentiras novas e ainda maiores. A jornalista célebre do Times não apenas nega o argumento central do seu projeto. De forma contraditória, ela também diz que a afirmação da "verdadeira fundação" foi apenas um acessório retórico. Ela disse à CNN que o Projeto 1619 era apenas um esforço para colocar o estudo da escravidão na vanguarda da história dos EUA.

Se tudo o que o Times buscava era chamar mais a atenção para a história da escravidão nos anos em que ela existiu na América do Norte britânica (1619-1776) e nos Estados Unidos (1776-1865), como Hannah-Jones afirma agora, então nunca teria havido uma controvérsia. O WSWS e os estudiosos entrevistados pelo site — James McPherson, Gordon Wood, Victoria Bynum, James Oakes, Clayborne Carson, Richard Carwardine, Dolores Janiewski, e Adolph Reed, Jr. — jamais questionaram a importância da escravidão no desenvolvimento histórico dos Estados Unidos. Dezenas de milhares de livros e artigos acadêmicos têm sido dedicados ao estudo da escravidão e do seu impacto sobre o desenvolvimento histórico dos Estados Unidos.

Em sua resposta inicial ao Projeto 1619, publicado no início de setembro de 2019, o WSWS explicou:

A escravidão estadunidense é um assunto colossal, com ampla e duradoura importância histórica e política. Os eventos de 1619 fazem parte dessa história. Porém, o que ocorreu em Point Comfort é um episódio na história da escravidão mundial, que remonta ao mundo antigo, e das origens e desenvolvimento do sistema capitalista mundial.

A refutação do Times apresentada pelo WSWS forneceu um relato sobre o surgimento da escravidão no Ocidente, o seu papel central na formação do capitalismo, e a sua destruição revolucionária na Guerra Civil. Hannah-Jones respondeu à intervenção do WSWS denunciando os seus escritores como "racistas anti-negros" no Twitter.

Quando Wood, McPherson, Bynum e Oakes, acompanhados por Sean Wilentz de Princeton, escreveram uma carta aberta ao Times em dezembro solicitando correções específicas para esclarecer erros factuais, eles enfatizaram que a sua objeção não era por conta da importância da escravidão. Os cinco historiadores expressaram a sua consternação "com alguns dos erros factuais no projeto e no processo fechado por trás dele".

O editor da New York Times Magazine, Jake Silverstein, publicou uma resposta arrogantee desdenhosa, na qual ele rejeitou categoricamente as críticas dos historiadores:

Embora respeitemos o trabalho dos signatários, compreendamos que eles são motivados pela preocupação acadêmica e aplaudamos os esforços que fizeram em suas próprias escritas para esclarecer o passado da nação, discordamos da sua afirmação de que o nosso projeto contém erros factuais significativos e seja conduzido mais pela ideologia do que pela compreensão histórica. Apesar de acolhermos críticas, não acreditamos que o pedido de correções do Projeto 1619 seja justificado.

A carta vergonhosa de Silverstein surgiu em 20 de dezembro. Naquele momento, ele sabia que o Projeto 1619 do Times possuía falhas críticas, e sabia que o jornal havia feito secretamente uma alteração fundamental no texto online do artigo que havia sido questionado pelos importantes historiadores. O comportamento de Silverstein demonstrou uma completa falta de ética profissional e de integridade intelectual.

O Times deve agora emitir uma declaração pública reconhecendo a sua distorção da história e a tentativa desonesta de encobrir o seu erro. O jornal deve emitir um pedido de desculpas público aos professores Gordon Wood, James McPherson, Sean Wilentz, Victoria Bynum, James Oakes e todos os outros estudiosos que procurou desacreditar por terem criticado o Projeto 1619. Para ser completamente franco, Silverstein e os seus co-conspiradores no conselho editorial do Times deveriam ser demitidos de seus cargos.

Além disso, o Prêmio Pulitzer de Melhor Comentário entregue a Hannah-Jones neste ano por seu artigo principal, no qual as falsas alegações sobre a "verdadeira fundação" e a Revolução Americana foram feitas, deveria ser anulado.

O Projeto 1619 nunca foi sobre esclarecimento histórico. Conforme o WSWS advertiu em setembro de 2019, o "Projeto 1619 é um componente do esforço deliberado para injetar a política racial no centro das eleições de 2020 e fomentar divisões dentro da classe trabalhadora". Como revelado em um vazamento sobre uma reunião com a equipe do Times, o editor executivo, Dean Baquet, acreditava que mudar o foco após a fracassada campanha contra a Rússia auxiliaria o Partido Democrata. Baquet disse:

A raça e o entendimento de raça deveriam fazer parte de como cobrimos a história dos EUA ... uma razão pela qual todos nós assinamos o Projeto 1619 e o tornamos tão ambicioso e amplo foi para ensinar os nossos leitores a pensar um pouco mais assim. A raça no próximo ano - e eu acho que isto é, para ser franco, o que eu espero que vocês tirem desta discussão - será uma grande parte da história dos EUA.

A fraude perpetrada pelo Times já teve sérias conseqüências políticas. Conforme o WSWS advertiu, o Projeto 1619 foi um enorme presente para Donald Trump. Em 17 de setembro, Dia da Constituição, Trump deu um discurso no Museu do Arquivo Nacional no qual ele se posicionou obscenamente como defensor da Declaração da Independência e da Constituição contra a "esquerda radical", fazendo referência especificamente ao Projeto 1619. Em sua forma tipicamente ameaçadora, Trump advertiu que ele "restauraria a educação patriótica" e que "nossa juventude será ensinada a amar os EUA".

A entrevista de Hannah-Jones na CNN foi feita em resposta aos ataques de Trump. Ela observou que Trump está tentando "trazer o Projeto 1619 para as guerras culturais". Ela acrescentou: "Ele está claramente disputando em uma campanha nacionalista que está tentando incitar divisões raciais, e ele vê isso como uma ferramenta nesse arsenal".

Isso é verdade. Porém, Hannah-Jones é uma das principais "incitadoras" das divisões raciais; e foi o New York Times que trouxe "o Projeto 1619 para as guerras culturais", atacando ferozmente todos os críticos de uma narrativa histórica que faz do ódio racial a força motriz da história dos Estados Unidos.

A falsificação da história sempre serve aos interesses das forças políticas reacionárias. Ao repudiar e denegrir a Revolução Americana e a Guerra Civil, o New York Times proporcionou uma oportunidade para Trump se posicionar fraudulentamente como um defensor do grande legado democrático das revoluções americanas no interesse da sua política neofascista.

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