O acordo de Trump para o Oriente Médio e o beco sem saída do nacionalismo burguês

22 Setembro 2020

Publicado originalmente em 18 de setembro de 2020

O espetáculo obsceno encenado pela administração Trump no Jardim Sul da Casa Branca na terça-feira, reunindo duas ditaduras árabes monárquicas, os Emirados Árabes Unidos e Bahrein, com Israel para a assinatura do que pretensiosamente foi chamado de “Acordos de Abraão”, representa a última de uma série de traições realizadas pela burguesia árabe.

Os “Acordos de Abraão”, com um total de cinco parágrafos, conseguem repetir o nome “Donald J. Trump” quatro vezes para que ninguém esqueça quem é o campeão da paz no Oriente Médio em meio à sua campanha de reeleição, que ameaça levar o próprio EUA à beira de uma guerra civil.

Para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, a viagem a Washington serviu para desviar uma cada vez maior crise em Israel, que é dominada pelo aumento das infecções por coronavírus, uma crise econômica cada vez mais profunda e protestos em massa, enquanto ele mesmo está prestes a ser julgado por fraude e suborno.

Quanto aos signatários árabes reais, a reverência diante de Trump era um preço que eles estavam mais do que dispostos a pagar pelo aumento da ajuda de segurança dos EUA e a chance de comprar equipamentos militares avançados, incluindo os caças F-35.

Os “Acordos” proclamam que “iniciarão um novo capítulo de paz” no Oriente Médio. Que farsa! A formalização das relações entre os reinados do petróleo do Golfo Sunita e Israel faz parte da estratégia de Washington de estabelecer um eixo anti-Irã em preparação para uma guerra potencialmente catastrófica e mundial com o objetivo de mudança de regime em Teerã e o recuo da influência chinesa e russa na região.

A tentativa de paz de no Oriente Médio tem se baseado, pelo menos formalmente, na resolução da situação dos palestinos, incluindo os 4,75 milhões que vivem sob ocupação israelense, os quase dois milhões que vivem como cidadãos de segunda classe em Israel e os milhões mais espalhados entre os campos de refugiados nos países árabes vizinhos e em uma diáspora mais ampla.

O que o acordo entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein deixou claro é que para o imperialismo mundial e os regimes burgueses árabes, a questão palestina não é mais considerada um problema. O acordo eliminou a ficção, expressa no chamado Plano Árabe de Paz elaborado pela Arábia Saudita, de que a “normalização” das relações entre os estados árabes e Tel Aviv dependia da retirada de Israel dos territórios que ocupava na guerra de 1967 e de permitir a formação de um Estado palestino: a chamada “solução de dois Estados”. De fato, quando representantes palestinos propuseram que a Liga Árabe adotasse uma resolução condenando o acordo dos EAU com Israel, eles foram dispensados imediatamente.

Esse processo de “normalização” tem uma longa e amarga história. A farsa da “paz” de Trump, na terça-feira, foi concebida para evocar os acordos anteriores, incluindo os Acordos de Camp David de setembro de 1978, assinados pelo presidente egípcio Anwar al-Sadat e pelo primeiro-ministro israelense Menachem Begin, que asseguraram a Israel a neutralidade e a colaboração direta da maior nação do mundo árabe em seus conflitos com os palestinos.

Quinze anos depois, no jardim da Casa Branca, foram assinados os Acordos de Oslo entre o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin. Nesses acordos, fechados em setembro de 1993, Arafat concordou em reconhecer Israel e garantir sua segurança, enquanto renunciava à luta armada pela libertação palestina com a qual a OLP havia sido identificada há muito tempo.

Com isso, foi inaugurado “processo de paz” de quase três décadas, que serviu como cobertura para a vasta expansão dos assentamentos israelenses e o roubo de terras palestinas na Cisjordânia e sucessivas guerras sangrentas e um bloqueio punitivo contra os 1,8 milhão de palestinos presos na prisão a céu aberto de Gaza.

Sob os Acordos de Oslo, a OLP assumiu a monstruosidade política conhecida como Autoridade Palestina (AP) em um processo que envolveu a morte inexplicável de Arafat em 2004. Seu sucessor, Mahmoud Abbas, tem servido como presidente não eleito da AP por 15 anos, administrando um regime que serve para enriquecer uma pequena camada da burguesia palestina, enquanto fornece uma força policial auxiliar vital para reprimir a população da Cisjordânia segundo o interesse de Israel e do imperialismo.

Essa transformação da OLP, o mais radical dos movimentos nacionalistas burgueses, que alistou dezenas de milhares de palestinos no combate desigual com Israel, enfrentou inúmeros sacrifícios, teve seus líderes assassinados e inspirou massas de oprimidos em todo o Oriente Médio, fez parte de um processo universal.

Todos os movimentos nacionais que ganharam destaque desde os anos 1950 até os anos 1970 – do nasserismo e baathismo no Oriente Médio, passando pelo Pan-Africanismo até o peronismo, castrismo e sandinismo na América Latina – defendendo a libertação nacional como alguma etapa separada de desenvolvimento, alcançável através da supressão de qualquer intervenção revolucionária independente da classe trabalhadora pelo socialismo, se mostraram fracassados. O mesmo aconteceu com os stalinistas, maoístas e revisionistas pablistas defensores de movimentos de libertação nacional baseados na pequena burguesia e no campesinato como um substituto para resolver a crise da direção revolucionária da classe trabalhadora.

A capitulação e a transformação da OLP foram preparadas durante um longo período de traições sangrentas produzidas pelas barganhas de Fausto estabelecidas por sua liderança com vários regimes burgueses árabes e com a burocracia stalinista de Moscou. Seu apoio limitado e altamente desconfiado foi condicionado ao fato de a OLP ter renunciado a qualquer apelo revolucionário às massas de trabalhadores e oprimidos do mundo árabe.

O resultado foi uma sucessão interminável de facadas nas costas pelas mãos dos patronos e “irmãos” árabes dos palestinos. Isso aconteceu desde o massacre dos palestinos no “Setembro Negro” de 1970 pela monarquia jordaniana, passando pelo apoio sírio ao massacre dos palestinos falangistas libaneses nos campos de Karantina e Tel al-Zaatar em 1975 até a cumplicidade da Síria e de todos os regimes árabes em permitir que a invasão israelense de 1982, apoiada pelos EUA, expulsasse a OLP do Líbano.

As tentativas da OLP de basear sua sobrevivência em manobras entre os diferentes regimes árabes e explorando os conflitos da Guerra Fria entre Washington e a burocracia stalinista de Moscou foram fatalmente minadas pelas profundas mudanças no capitalismo mundial que coincidiram com sua derrota militar.

A invasão do Líbano em 1982 fez parte de uma contraofensiva global tornada possível pelas traições e derrotas das lutas de massas de todo o mundo nos anos 1960 e 1970. A crescente integração global da produção capitalista, entretanto, eliminou a relação de forças da qual a OLP havia dependido. A política de restauração capitalista da burocracia stalinista e a liquidação final da União Soviética foi acompanhada pela brusca guinada dos regimes árabes supostamente nacionalistas para uma colaboração cada vez mais estreita com o imperialismo, que se consumou no apoio dado por muitos deles à guerra dos EUA contra o Iraque em 1991.

Esse processo foi acompanhado pela eclosão da primeira intifada, uma rebelião espontânea de trabalhadores e jovens nos territórios ocupados. A revolta se desenvolveu independentemente e por cima da oposição da liderança da OLP, que temia que tal luta vinda de baixo minasse fatalmente seu projeto de estabelecer um Estado burguês independente em colaboração com o imperialismo.

Esse projeto nacionalista burguês chegou a um completo beco sem saída. Desde a assinatura dos Acordos de Oslo, os “fatos no chão” israelenses incluem um crescimento implacável de assentamentos nos territórios ocupados, a divisão do que pouco restava da Cisjordânia fora do controle direto israelense por muros, estradas de segurança e inúmeros postos de controle e sua separação de Gaza e Jerusalém. A concepção de que a criação de um estado “independente” ao estilo de Bantustão melhorará as condições desesperadas das massas de palestinos é hoje claramente absurda.

Em julho de 1939, pouco mais de um ano antes de sua morte por um assassino stalinista, o grande revolucionário russo Leon Trotsky escreveu sobre o primeiro movimento nacionalista, o Partido do Congresso da Índia (do qual o Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela, na África do Sul, se inspiraria):

A burguesia indiana é incapaz de liderar uma luta revolucionária. Eles estão intimamente ligados e dependentes do capitalismo britânico. Eles tremem por seus próprios bens. Eles têm medo das massas. Buscam compromissos com o imperialismo britânico, não importa o preço, e acalmam as massas indianas com esperanças de reformas vindas de cima. O líder e profeta desta burguesia é Gandhi. Um falso líder e um falso profeta.

Essa característica dos movimentos nacionalistas burgueses nos países coloniais denunciada por Trotsky na década de 1930 foi plenamente confirmada pelos desenvolvimentos posteriores, e em muitos casos trágicos, no Oriente Médio, Ásia, África e América Latina.

A experiência histórica – incluindo as últimas traições da burguesia árabe – proporcionou a irrefutável confirmação da teoria da revolução permanente de Trotsky, que guiou a Revolução Russa de outubro de 1917. Ela estabeleceu que nos países oprimidos e naqueles com um desenvolvimento capitalista tardio, as tarefas democráticas e nacionais que em uma época histórica anterior estavam associadas à ascensão da burguesia podem, na época do imperialismo, ser alcançadas somente através da mobilização revolucionária independente da classe trabalhadora, baseada em uma perspectiva socialista e internacionalista.

A libertação do povo palestino e o fim das guerras imperialistas que mataram e mutilaram milhões no Oriente Médio jamais serão alcançados através de negociações de “paz” mediadas pelo imperialismo ou da fantasia de uma “solução de dois estados”. A única maneira de avançar é a mobilização e unificação independente dos trabalhadores árabes, judeus e iranianos em uma luta comum por uma Federação Socialista do Oriente Médio como parte da luta para colocar um fim ao capitalismo em todo o mundo.

O autor também recomenda:

Permanent Revolution and the National Question Today
[16 de maio de 1998]

Bill Van Auken