Forças de segurança colombianas massacram 10 jovens protestando contra assassinato policial

Por Andrea Lobo
15 Setembro 2020

Publicado originalmente em 11 de setembro de 2020

Na noite de quarta-feira, a polícia colombiana assassinou pelo menos 10 pessoas que protestavam contra a morte de Javier Ordóñez, um advogado e taxista de 43 anos, na noite anterior, na capital Bogotá.

Um vídeo publicado nas redes sociais mostrou Ordóñez sendo agredido e torturado repetidamente com uma pistola taser por policiais, que o detiveram por suposta violação da quarentena imposta pela pandemia de COVID-19. As cenas, com Ordóñez implorando por sua vida, dizendo “estou sufocado”, e testemunhas pedindo aos policiais que parassem, foram muito comparadas com aquelas do assassinato policial de George Floyd nos Estados Unidos.

Policiais motorizados em Bogotá

Ao empregar força letal contra manifestantes, o governo colombiano do presidente de extrema direita Iván Duque está seguindo o exemplo de seu patrono imperialista em Washington, a administração Trump, que usou as forças federais para sequestrar manifestantes em vans sem identificação em Portland, Oregon, e assassinar um manifestante.

O massacre em Bogotá aumentou ainda mais a raiva da população. Vários protestos estão sendo planejados para o resto da semana em Bogotá, Medellín e Barranquilla, marcando o ressurgimento dos protestos em massa contra a desigualdade social que estouraram por toda a América Latina no ano passado. A própria Colômbia testemunhou uma onda inicial de protestos nos campi universitários e greves no setor público.

Desde o início da tarde de quarta-feira, quando o vídeo do assassinato de Ordoñez viralizou, os protestos liderados pela juventude começaram a se espalhar por bairros predominantemente operários na região metropolitana de Bogotá e em outras cidades do país. Centrando sua raiva contra a polícia, os manifestantes, segundo as informações policiais, incendiaram 22 delegacias locais e danificaram outras 49.

Depois de inicialmente utilizar gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral para dispersar os manifestantes, após o anoitecer, a Polícia Nacional começou a utilizar munição letal em várias partes da cidade, de forma claramente coordenada e sistemática contra manifestantes desarmados.

Segundo as autoridades de Bogotá, sete civis foram mortos e 248 ficaram feridos, 66 deles por tiros. Na cidade operária de Soacha, que pertence à região metropolitana de Bogotá, o prefeito confirmou que mais três manifestantes foram mortos. Pelo menos três dos feridos ainda se encontram na UTI.

O assassinato policial de Javier Ordóñez

Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram grupos de policiais utilizando suas armas de fogo para impor um toque de recolher não declarado. Outros são vistos perseguindo manifestantes sozinhos e executando-os. Mesmo sem haver nenhum perigo potencial nas proximidades, policiais fardados e à paisana atiraram indiscriminadamente em pelo menos três locais diferentes, como confirmado pela revista Semana. A polícia também foi filmada danificando alguns negócios para incriminar os manifestantes.

Em uma entrevista de rádio, a companheira da vítima mais jovem, Jaider Fonseca, de 17 anos, descreveu o incidente: “A polícia começou a atirar para cima e depois contra as pessoas que protestavam com pedras. [Jaider] correu assim que os tiros começaram; sua única defesa era uma porta, ele se escondeu, mas ainda assim foi atingido com quatro tiros; ele ficou cheio de balas.”

“Eles não estavam matando ninguém, não estavam roubando, estavam exigindo seus direitos”, concluiu.

O regime de Duque e as autoridades policiais iniciaram sem hesitação uma intensificação da repressão, incluindo o envio de mais 300 soldados para Bogotá para ajudar a polícia na repressão.

O próprio Duque não demonstrou absolutamente nenhum remorso. Ao invés disso, ele ameaçou qualquer um que ousasse chamar a polícia de “assassinos” e denunciou “a violência, o vandalismo e o ódio ... qualquer incentivo para passar por cima da lei.”

Apesar do caráter unilateral e criminoso da investida ter ficado claro em vídeos amplamente compartilhados, o comandante da Polícia Nacional, Gustavo Alberto Moreno, defendeu de forma ameaçadora o papel da polícia, declarando: “Esta polícia, com humildade, reconhece seus erros, mas também celebra o trabalho heroico de milhares de policiais”. Moreno recebeu treinamento do Serviço Secreto dos EUA e do FBI e trabalhou como adido policial em Washington D.C.

Javier Ordóñez com seus dois filhos

O Ministro da Defesa, Carlos Holmes Trujillo, que supervisiona as operações militares do aliado mais próximo do Pentágono na região, ameaçou os manifestantes com novas medidas de estado policial. “Em relação àqueles que participaram ontem dos atos violentos e do vandalismo, identificamos perfis nas redes sociais que fizeram publicações contra a polícia... todas elas visando desacreditar o desempenho e o serviço da Polícia Nacional”.

Em seguida, ele ofereceu uma recompensa de US$ 13.500 por informações que ajudem a “encontrar e identificar” aqueles que estavam protestando.

A prefeita de Bogotá, Claudia López, da Aliança Verde, reconheceu que estava comandando as operações repressivas na quarta-feira da sede da polícia, mas afirmou no Twitter que nenhuma ordem foi dada para empregar armas de fogo. Em meio a confrontos entre a polícia fortemente armada e a juventude desarmada, no entanto, López denunciou continuamente o “vandalismo” e a “violência” dos manifestantes.

Mais tarde na quinta-feira, López procurou afastar qualquer responsabilidade de si ao culpar “o comandante da Polícia Nacional, ou seja, o Presidente da República”, acrescentando: “temos provas sérias e sólidas do uso indiscriminado de armas de fogo por membros da polícia”.

Essas respostas do establishment político confirmam que a classe dominante está caminhando para formas ditatoriais de governo. Quaisquer apelos para que haja punições administrativas visam desviar a enorme raiva social, confiando na mídia corporativa, nos políticos da “oposição” e nos sindicatos para levar adiante uma “reforma policial”.

Isso já aconteceu no início deste ano, quando um punhado de suspensões e “inquéritos” internos foram usados para acalmar um escândalo envolvendo uma operação da inteligência militar de levantamento de perfil e de espionagem contra mais de 100 jornalistas, ativistas e políticos.

A classe dominante colombiana está bem ciente de que está sobre um barril de pólvora social. O governo Duque recentemente estendeu até junho de 2021 uma bolsa mensal de US$ 43 por família, o que tem evitado que cerca de 2,6 milhões das famílias mais pobres morram de fome durante a crise desencadeada pela pandemia.

As entidades patronais saudaram esse programa, que possui um pequeno orçamento de US$ 2 bilhões, como um meio de evitar enormes transtornos. Entretanto, esta quantia miserável pouco ou nada fez para proteger as camadas crescentes de trabalhadores empobrecidos e desempregados contra o vírus e o desespero econômico.

De acordo com o Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE), 90,3% das mortes confirmadas por coronavírus correspondem aos três níveis mais pobres da população, que se beneficiam de subsídios de serviços públicos, enquanto o sexto nível mais rico responde por apenas 1% das mortes por COVID-19.

Juan Daniel Oviedo, diretor da DANE, disse ao jornal El Tiempo: “As famílias pobres, com idosos e adultos menos instruídos, incapazes de cumprir as regras de isolamento devido à necessidade de buscar seu sustento, estavam mais expostas à pandemia, o que se reflete em sua maior mortalidade”.

A Colômbia tem o sexto maior número de casos confirmados de COVID-19 no mundo (686.851) e o 11º maior número de mortes confirmadas (22.053). O DANE, no entanto, informou que, em 23 de agosto, havia 7.257 mortes suspeitas por COVID-19 que não foram testadas, e mais de 10.000 mortes em excesso. Bogotá é o epicentro da pandemia no país com um terço dos casos.

Enquanto isso, a riqueza dos bilionários colombianos listados pela Forbes só aumentou durante a pandemia, atingindo mais de US$ 13,7 bilhões. Agora, a oligarquia colombiana, em parceria com seus apoiadores financeiros e corporativos em Wall Street e na Europa, está se movendo para intensificar enormemente a exploração da classe trabalhadora e dos recursos naturais da Colômbia.

O governo Duque suspendeu a maioria das medidas de isolamento em 1º de setembro, exceto para escolas, eventos sociais e entretenimento em lugares fechados.

O massacre dos manifestantes em Bogotá indica a determinação da classe dominante colombiana em recorrer à violência letal e a um regime autoritário para esmagar a oposição de baixo contra a sua resposta criminosa à pandemia. Ela já demonstrou sua indiferença em relação à vida dos trabalhadores mortos por COVID-19.

A guinada ao autoritarismo dos governos capitalistas na Colômbia e internacionalmente decorre dos esforços da classe capitalista para defender sua enorme riqueza em meio a níveis recordes de desigualdade e devastação social generalizada.

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[15 de agosto de 2020]