Ex-Primeiro Ministro australiano: cuidado com os “canhões de agosto” na Ásia

Por Peter Symonds
22 Agosto 2020

Publicado originalmente em 8 de agosto de 2020

Escrevendo esta semana na prestigiosa revista Foreign Affairs, sediada nos EUA, o ex-primeiro ministro australiano Kevin Rudd advertiu que o perigo de conflito armado entre os Estados Unidos e a China é maior do que em qualquer outro momento desde os anos 50. Seu artigo, intitulado "Beware the Guns of August-in Asia: How to keep US-Chinese tensions from sparking a war" (Cuidado com os canhões de agosto - na Ásia: como prevenir que as tensões entre EUA e China desencadeiem uma guerra), lembra a extremas tensões geopolíticas em agosto de 1914, quando o mundo foi levado à catástrofe de uma guerra mundial.

Rudd, além disso, não está alertando para um perigo distante. Depois de passar em revista as intensas pressões políticas sobre os líderes tanto em Washington quanto em Pequim e trazer os pontos que considera mais perigosos, ele argumenta que "os riscos serão especialmente altos nos próximos meses até as eleições presidenciais americanas de novembro".

O ex-primeiro ministro, que é presidente do Asia Society Policy Institute em Nova York, tem acesso privilegiado aos círculos políticos e estratégicos americanos. Rudd explica que não é o único que teme o agravamento das tensões entre as duas potências nucleares.

Kevin Rudd (esquerda) modera uma sessão na Reunião Anual de 2016 do Fórum Econômica Mundial em Davos, na Suíça, em 20 de janeiro de 2016 [crédito: WORLD ECONOMIC FORUM/swiss-image.ch/Foto Jolanda Flubacher]

"A pergunta que está sendo feita agora, de maneira silenciosa mas tensa, em capitais de todo o mundo é: onde isso vai acabar? O que era antes impensável - um conflito armado entre os Estados Unidos e a China - agora parece ser algo possível pela primeira vez desde o fim da Guerra da Coreia. Em outras palavras, estamos vendo a possibilidade não apenas de uma nova Guerra Fria, mas também de uma guerra quente", escreve ele.

Como um defensor incondicional da aliança militar australiana com os EUA, Rudd encobre o papel do imperialismo americano no aumento deliberado das tensões com a China durante a última década, embora ele mesmo também tenha sido vítima da piora das relações. Ele foi destituído como primeiro-ministro em 2010, em um golpe interno do partido, envolvendo "fontes protegidas" da embaixada dos EUA em Camberra. Rudd foi afastado por não se alinhar completamente com o agressivo "giro para a Ásia" da administração Obama, que visava o enfraquecimento econômico e estratégico da China.

Rudd argumenta em seu ensaio que o presidente chinês Xi procurou se aproveitar do declínio histórico dos EUA com "uma estratégia muito mais assertiva no exterior, tanto regional quanto globalmente", à qual Washington tem respondido "com níveis crescentes de agressão". Na realidade, o "giro" agressivo de Obama envolveu um enorme investimento militar na região indo-pacífica, além de esforços para isolar a China economicamente, levando Pequim a responder a tais medidas. A base do "giro" foi o reconhecimento em Washington de que, em seu declínio histórico, a principal ameaça ao domínio global dos EUA vinha da China.

O que começou sob o governo Obama foi ainda mais acelerado sob Trump com sua guerra comercial e econômica, suas provocações através das operações navais no Mar do Sul da China, o aumento das vendas de armas para Taiwan e a corrida armamentista na Ásia. Enfrentando um agravamento da crise política doméstica como resultado do tratamento criminoso dado à pandemia da COVID-19, Trump nos últimos seis meses se voltou com mais força contra Pequim, culpando-a pelo "vírus chinês", acusando-a de espionagem e roubo de propriedade intelectual, bem como de abusos dos "direitos humanos" em Hong Kong e Xinjiang.

Rudd observa que os EUA "deixaram claro que 35 anos de engajamento estratégico terminaram" - em outras palavras, que a reaproximação entre os dois países que começou com a visita do presidente americano Richard Nixon a Beijing em 1972 está sendo substituída por uma "era de competição estratégica”. Ele também reconhece que a “caótica” presidência de Trump acabou despindo a relação EUA-China das “proteções políticas, econômicas e diplomáticas cuidadosamente cultivadas ao longo do último meio século, reduzindo-a à sua forma mais crua: uma luta sem restrições pelo domínio bilateral, regional e global".

Rudd ressalta que a campanha agressiva anti-China é bipartidária, escrevendo: "Enquanto isso, o oponente de Trump, o ex-vice-presidente Joe Biden, está determinado a não ser superado por Trump no quesito China, o que certamente vai criar um ambiente político excepcionalmente explosivo".

Rudd, que fala mandarim e se considera um observador astuto da política chinesa, também identifica os desafios enfrentados pelo presidente chinês Xi.

"Na China, uma economia já em desaceleração, o impacto contínuo da guerra comercial e agora a crise da COVID-19 colocaram a liderança de Xi sob sua maior pressão interna até agora", observa ele. Xi fez inimigos de alto nível através de "sua brutal campanha anticorrupção", ao fazer “uma imensa reorganização militar" e ao fazer “grandes mudanças nos cargos... na inteligência, segurança e hierarquias militares do partido".

Enquanto ele conclui que Xi lidará com inimigos e rivais internos do partido através de uma "campanha de retificação partidária" lançada em julho, Rudd não presta atenção às graves tensões sociais na China produzidas pelo crescente desemprego e pelo enorme abismo entre ricos e pobres que foram agravados pela pandemia.

Assim como a administração Trump está tentando projetar as tensões internas no exterior, fazendo da China o bode expiatório da crise nos EUA, também o regime do Partido Comunista Chinês sempre recorreu à demagogia nacionalista para se desviar de suas crises internas. Encurralada por Washington, Pequim será forçada a reagir.

Como escreve Rudd: "Tudo isso cria um coquetel político e estratégico perigoso: um Trump enfraquecido, um Biden intransigente e um Xi sob pressão pronto para puxar a alavanca nacionalista". Embora não sejam de forma alguma os únicos potenciais desencadeadores de conflitos armados, ele identifica três pontos como particularmente perigosos: Hong Kong, Taiwan e o Mar do Sul da China.

Sobre Hong Kong, Rudd conclui que o atual confronto dos EUA com a China sobre a imposição de uma nova lei de segurança nacional em seu território é "não deve resultar em uma crise total". Seu argumento é fraco. Ele se baseia no fato de que a Grã-Bretanha, não os EUA, é "o poder externo de maior influência ", por ter devolvido Hong Kong à China em 1997, e que "não haveria base jurídica internacional para qualquer forma de intervenção dos EUA". Trump, no entanto, tem demonstrado repetidamente seu total desprezo pelo direito e pelas instituições internacionais.

Sobre Taiwan, uma "questão central" para a China, Trump tem colocado cada vez mais em questão a política de "Uma China", pela qual Washington reconhece Pequim como a governante legítima de toda a China, incluindo Taiwan. Rudd sugere que qualquer crise sobre Taiwan desencadeada por um impulso militar chinês seria "mais provável de acontecer ao final dos anos 2020, quando Pequim considera que a situação militar terá se deslocado ainda mais a seu favor".

Rudd, entretanto, não descarta o que é muito mais provável a curto prazo, ou seja, uma provocação dos EUA. "No atual ambiente político, a administração Trump poderia optar por intensificar as provocações - por exemplo, permitindo o envio de navios dos EUA a um porto taiwanês. O efeito incendiário de tal ação seria politicamente impossível de ser ignorado pela liderança chinesa", escreve ele.

Rudd considera a escalada das tensões militares no Mar do Sul da China como o ponto de conflito mais perigoso. A administração Trump deliberadamente aumentou suas mobilizações navais agressivas na área, incluindo intrusões deliberadas de belonaves americanas em águas territoriais reclamadas pela China. No mês passado, em uma demonstração de força deliberadamente provocativa, a Marinha dos EUA encenou jogos de guerra envolvendo dois grupos de ataque liderados por porta-aviões no Mar do Sul da China próximos e adjacentes a importantes bases navais chinesas no sul da China.

Rudd escreve: "O Mar do Sul da China tornou-se assim um teatro tenso, volátil e potencialmente explosivo, em uma época em que uma série de fatores levaram a relação política bilateral subjacente ao seu ponto mais baixo em meio século. A enorme quantidade de equipamentos navais e da força aérea utilizados por ambos os lados torna um conflito não intencional (ou mesmo intencional) cada vez mais provável".

Ao considerar o que aconteceria no caso da derrubada de uma aeronave ou do afundamento de um navio de guerra por qualquer um dos lados, Rudd conclui que há um perigo real de um agravamento que pode acabar em guerra total.

Como ele afirma: "As circunstâncias políticas internas prevalecentes em Pequim e Washington poderiam facilmente levar os dois lados a uma escalada militar. Os conselheiros políticos poderiam argumentar que uma escalada militar localizada poderia ser 'contida' dentro de parâmetros definidos. No entanto, dado o sentimento público altamente carregado em ambos os países e os altos riscos políticos em jogo para o líder de cada país, há poucos motivos para ser otimista com as possibilidades de contenção".

O aspecto mais revelador do ensaio de Rudd é que, tendo delineado com algum detalhe os perigos da guerra entre duas potências nucleares que necessariamente envolveria o mundo todo, não nos próximos anos, mas nos próximos três meses, suas propostas para evitar conflitos são totalmente banais. Ele conclama os líderes americanos e chineses a estudar as lições da história, de quando "um incidente relativamente menor" - o assassinato de um arquiduque austríaco em junho de 1914 - levou o mundo para uma guerra apenas algumas semanas depois. Ele conclui com um patético apelo aos líderes de ambos os lados para que nos próximos meses evitem entrar em conflito.

A falta de qualquer resposta coerente e convincente ao impulso de guerra dentro dos círculos governantes é um aviso nítido para a classe trabalhadora e para os jovens que inevitavelmente serão obrigados a arcar com todos os fardos de uma guerra. Rudd sugere indiretamente que há meios para evitar a guerra, sugerindo que os líderes se lembrem "que o chauvinismo nacionalista tende a ficar mais silencioso após o início de um conflito". Ou seja, sendo mais direto, a Primeira Guerra Mundial gerou uma oposição revolucionária dentro da classe trabalhadora que rejeitou as justificativas nacionalistas chauvinistas em favor da guerra e encontrou sua mais alta expressão na Revolução Russa de 1917.

O mesmo desafio está diante da classe operária internacional hoje, nos EUA, na China e em todo o mundo. Ou seja, construir um movimento antiguerra unificado com base em uma perspectiva socialista com o objetivo de pôr um fim ao capitalismo global e a seu sistema de Estados-nação ultrapassado e falido, que é a causa fundamental das guerras.