”A alfabetização é uma janela para o mundo...”

Os cem anos da criação da Comissão Extraordinária para a Erradicação do Analfabetismo

Por Patrick O’Connor
10 Agosto 2020

Publicado originalmente em 8 de julho de 2020

Em 19 de junho de 1920, o governo soviético liderado por Vladimir Lenin e Leon Trotsky criou a Comissão Extraordinária da Rússia para a Erradicação do Analfabetismo (Cheka Likbez).

A organização desempenhou um papel importante na liderança da campanha para erradicar o analfabetismo dentro da União Soviética, eliminando um dos legados mais prejudiciais do atraso e da pobreza czaristas. A campanha de alfabetização soviética continua sendo a maior e a mais bem-sucedida da história mundial. O historiador Ben Eklof disse: "Há boas razões para concluir que a União Soviética havia conseguido realizar em 22 anos (1917-39) o que levou pelo menos cem anos para o Reino Unido, a França e a Alemanha realizarem" [1].

A campanha de alfabetização soviética é uma demonstração duradoura das possibilidades extraordinárias trazidas pela reorganização planejada e socialista da sociedade, defendendo os interesses da classe trabalhadora.

“Se você não ler livros, logo você esquecerá como ler e escrever”

As realizações da campanha contrastam fortemente com o analfabetismo global que continua assolando a humanidade sob o capitalismo no século XXI. Os dados da UNESCO apontam que pelo menos 750 milhões de pessoas são analfabetas, sendo que 100 milhões dessas possuem entre 5 e 24 anos de idade. A maioria está nas antigas regiões coloniais da África Subsaariana e do Sul da Ásia. Além disso, dentro dos países capitalistas avançados, o acesso à oportunidade de uma alfabetização adequada está sob ameaça, pois as medidas de austeridade as privatizações restringem o acesso a uma educação pública financiada adequadamente. Nos Estados Unidos, várias ações judiciais têm procurado estabelecer o direito constitucional à alfabetização, que ainda não é reconhecido.

Em 1917, quando o Partido Bolchevique derrubou o governo provisório burguês e estabeleceu o primeiro estado operário do mundo, o governo revolucionário confrontou o analfabetismo em massa em todo o antigo império czarista. Um censo de 1897 mostra que apenas 21% dos adultos sabiam ler, embora esse número fosse provavelmente exagerado, dado que qualquer pessoa que conseguisse escrever seu nome e afirmasse saber ler era considerado alfabetizado [2]. Nas últimas duas décadas do regime czarista, a taxa de alfabetização foi levemente elevada, paralelamente ao aumento da população urbana. Porém, em 1917, a grande maioria das 150 milhões de pessoas do país continuava analfabeta.

As autoridades czaristas viam o crescimento da alfabetização com desconfiança e medo. No início do século XIX, o ministro de instrução do czar Alexandre I declarou: "O conhecimento só é útil quando, como o sal, é utilizado e oferecido em pequenas quantidades de acordo com as circunstâncias do povo e as suas necessidades. Ensinar as massas, ou mesmo a maioria delas, a ler trará mais mal do que bem" [3].

A concepção oposta foi promovida pelo governo revolucionário liderado pelo Partido Bolchevique.

Vladimir Lenin

A eliminação do analfabetismo foi entendida como o pré-requisito essencial para a assimilação da cultura e do conhecimento que era exigida pela classe trabalhadora para começar a construir uma sociedade socialista. Lenin, em seu trabalho clássico escrito na véspera da insurreição de outubro, O Estado e a Revolução, explica que a grande maioria das funções administrativas do Estado poderiam ser desempenhadas por "qualquer pessoa alfabetizada" (nossa ênfase). Portanto, a alfabetização universal é um pré-requisito básico para um Estado operário no qual "a porta será aberta para a transição da primeira fase da sociedade comunista para a sua fase mais elevada e, com ela, para o completo desaparecimento do Estado" [4].

Após a Revolução de Outubro, Lenin enfatizou: "A pessoa analfabeta está fora da política. Primeiro é necessário ensiná-la o alfabeto. Sem ele só há rumores, contos de fadas e preconceitos - mas não política".

A rápida aquisição da alfabetização universal era uma prioridade educacional imediata para o governo soviético. Apenas três dias após a conclusão da insurreição bolchevique, em 29 de outubro de 1917 (11 de novembro no calendário novo), o recém-nomeado comissário para a educação, Anatoly Lunacharsky, publicou "Um discurso para os cidadãos da Rússia" que explicava:

Qualquer autoridade verdadeiramente democrática na esfera educacional de um país onde o analfabetismo e a ignorância são abundantes deve ter como sua primeira tarefa a de combater esta atmosfera de desânimo. Ela deve, no mais curto espaço de tempo, tentar alcançar a alfabetização universal organizando uma rede de escolas que satisfaçam as exigências da educação contemporânea e introduzindo uma educação universal, obrigatória e gratuita. A luta contra o analfabetismo e a ignorância não pode se limitar à mera organização do ensino escolar adequado para crianças, adolescentes e jovens. Os adultos também vão querer ser resgatados da humilhação de não saber ler ou escrever. As escolas para adultos devem ocupar um lugar de destaque no plano geral da educação [5].

Em dezembro de 1919, Lenin assinou um decreto de nove pontos intitulado "A eliminação do analfabetismo na população da República Soviética Russa".

Centenas de milhares de cópias do decreto foram distribuídas por todo o país, que explicava: "com o objetivo de dar a toda a população da República a oportunidade de participação consciente na vida política do país", o governo soviético estava tornando obrigatório que todos entre 8 e 50 anos de idade aprendessem a ler e escrever em russo ou em sua língua nativa, de acordo com sua escolha.

O Comissariado da Educação recebeu o poder "de recrutar, para ensinar os analfabetos, toda a população alfabetizada do país que não foi convocada para a guerra, como uma responsabilidade trabalhista". Tornou-se um crime uma pessoa alfabetizada não ensinar pelo menos um analfabeto a ler (embora ninguém jamais tenha sido acusado). Os trabalhadores analfabetos recebiam duas horas de folga por dia, com salário integral, para estudar.

A formação de junho de 1920 da Comissão Extraordinária para a Erradicação do Analfabetismo tinha como objetivo promover a implementação prática do decreto de 1919.

Um historiador resumiu o seu papel da seguinte forma:

Esse era um mecanismo organizacional que lidaria com a coordenação e colaboração com todos os outros órgãos do governo e do Partido [Comunista], bem como com organizações públicas e associações voluntárias. A comissão incluía representantes de várias organizações estatais e públicas e possuía amplos poderes e funções; esses incluíam trabalho motivacional entre a população, registro de analfabetos, elaboração de métodos de instrução e produção de cartilhas e outros livros didáticos, e recrutamento de professores e supervisores para implementar o programa [6].

As decisões da organização eram obrigatórias para todas as instituições governamentais e funcionários públicos. Ela era conhecida de forma abreviada como Cheka Likbez, indicando sua importância para a revolução pela similaridade com o nome da Comissão Extraordinária de Combate à Contrarrevolução e à Sabotagem (Cheka), a agência de segurança organizada para derrotar os esforços contrarrevolucionários para derrubar o governo soviético.

A Comissão Extraordinária para a Erradicação do Analfabetismo foi organizada sob a Administração Principal para a Educação Política do Comissariado da Educação (Glavpolitprosvet), dirigida por Nadezhda Krupskaya. Algumas vezes descartada pelos historiadores burgueses como nada mais que a esposa de Lenin, Krupskaya era na verdade uma importante revolucionária. Antes da revolução, ela havia trabalhado como professora e havia feito um extenso estudo sobre teóricos da educação. Seus escritos educacionais compõem vários volumes, dos quais apenas uma pequena fração foi traduzida para o inglês.

Colaborando estreitamente com Lenin e Lunacharsky, Krupskaya nos anos 1920 desenvolveu muitas das extraordinárias iniciativas na educação escolar e na educação de adultos que se tornaram renomadas internacionalmente entre os educadores.

Campanhas de alfabetização do Exército Vermelho

A Comissão Extraordinária para a Erradicação do Analfabetismo não iniciou seu trabalho em 1920 sem experiências prévias. Os primeiros esforços bolcheviques para erradicar o analfabetismo foram levados adiante em meio a condições de guerra civil, após as forças contrarrevolucionárias atacarem o governo soviético apoiadas pelos Estados imperialistas europeus e estadunidense. A campanha foi centrada no Exército Vermelho, que, sob a liderança de Trotsky, mobilizou milhões de trabalhadores e camponeses entre 1918 e 1921 em defesa da revolução.

Leon Trotsky

"A alfabetização está longe de ser tudo, a alfabetização é apenas uma janela limpa para o mundo, a possibilidade de ver, compreender, saber", explicou Trotsky em um discurso de 1922 no Soviete de Moscou. "Devemos dar essa possibilidade a eles [soldados do Exército Vermelho], e antes de tudo".

Ele continuou:

A nossa preparação é, acima de tudo, a preparação, no soldado, do cidadão revolucionário. Nós temos que elevar nossos jovens no exército a um nível superior e, antes de tudo, livrá-los de maneira decisiva e final da vergonhosa mancha do analfabetismo. ... Vocês, os soviéticos de Moscou, vocês, as brigadas e escolas distritais - o Exército Vermelho lhes pede, o Exército Vermelho espera de vocês, que não deixem ninguém permanecer analfabeto entre seus "filhos" na grande família que vocês adotaram. Vocês darão a eles professores, e vocês irão ajudar a dominar os meios técnicos elementares pelos quais um homem pode se tornar um cidadão consciente [7].

Poucos detalhes da campanha de alfabetização dentro do Exército Vermelho escaparam da atenção de Trotsky. No início de 1919, por exemplo, em meio a algumas das mais duras campanhas da guerra civil, ele dedicou tempo para escrever uma revisão dura de uma compilação de literatura e material político. "A seção de educação geral anexa ao departamento militar do Comitê Executivo Central emitiu um Livro para Iniciantes para ser utilizado pelos soldados", escreveu ele. "Não sei quem compilou esse livro, mas posso ver claramente que foi alguém que, em primeiro lugar, não conhecia as pessoas para quem o estava compilando; em segundo lugar, tinha uma compreensão pobre dos assuntos sobre os quais estava escrevendo; e, em terceiro lugar, não estava bem familiarizado com a língua russa. E essas qualidades não são suficientes para a compilação de um Livro para Iniciantes para os nossos soldados" [8].

O ensino obrigatório foi introduzido para todas as fileiras em abril de 1918 [9]. Os professores que se voluntariaram para a campanha de alfabetização na frente de batalha descobriram rapidamente que precisavam abandonar os métodos de ensino pré-revolucionários. Krupskaya escreveu sobre a experiência de uma professora, Dora El'kina, uma ex-revolucionária socialista que se juntou aos bolcheviques após a revolução: "El'kina começou a ensiná-los, como era costume, a partir de livros-textos escritos com base no método analítico-sintético [fônico]: 'Masha comeu kasha. Masha lavou a janela’. ‘De que maneira você está nos ensinando?' protestaram os homens do Exército Vermelho. 'O que é isso sobre o kasha? Quem é essa Masha? Nós não queremos ler isso'" [10].

El'kina inicialmente tentou continuar discutindo por que os soldados não podiam estar com suas Mashas e por que havia uma escassez de kasha. Porém, depois ela escreveu uma nova frase própria, que foi posteriormente publicada como a linha de abertura de um novo livro de alfabetização, tornando-se conhecida na Rússia soviética como as primeiras palavras lidas por milhões de trabalhadores e camponeses recém alfabetizados - "Não somos escravos; escravos não somos".

El'kina e os co-autores de seu livro, intitulado Abaixo o analfabetismo, explicaram em seu prefácio a conexão entre a aquisição da capacidade de leitura e o desenvolvimento da consciência socialista: "Sabemos que o trabalho político não se limita a esclarecer slogans, assim como o ensino não se limita à instrução da leitura e da escrita. Porém, este livro nos permite introduzir o aluno a ambos. Consideramos que a obtenção da alfabetização política e o aprendizado da leitura são objetivos entrelaçados. Os alunos não só devem ser ensinados a ter habilidades educacionais, mas também devemos despertar seu interesse pela vida pública. Os estudantes não só devem assumir seu lugar na sociedade como pessoas educadas, mas também devem se juntar às fileiras dos lutadores e construtores da Rússia soviética" [11].

Outras das primeiras iniciativas de alfabetização incluíram o recrutamento de artistas e escritores, incluindo Vladimir Mayakovsky, para que desenvolvessem livros simples e interessantes sobre o alfabeto e para iniciantes.

Apesar das dificuldades crônicas para a obtenção de papel, tinta e meios de publicação, o governo soviético dedicou recursos significativos, incluindo preciosas reservas de moeda estrangeira, ao fornecimento de materiais de leitura com o objetivo de desenvolver as capacidades de alfabetização de milhões de combatentes do Exército Vermelho. De acordo com uma pesquisa do trabalho do Exército Vermelho, em 1920, os soldados haviam recebido 20 milhões de panfletos, folhetos e cartazes, 5,6 milhões de livros, e entre 300 mil e 400 mil exemplares de jornais por dia [12].

Eliminando o analfabetismo na classe trabalhadora e no campesinato

A Comissão Extraordinária para a Erradicação do Analfabetismo desenvolveu uma série de iniciativas nas fábricas e locais de trabalho para garantir que todos os trabalhadores, incluindo aqueles que haviam acabado de chegar do campo, pudessem ler.

Centros de alfabetização e escolas (likpunkty, ou "centros de erradicação") foram estabelecidos em toda a União Soviética na década de 1920. As grandes fábricas e locais de trabalho tinham seus próprios centros de alfabetização e bibliotecas. Em novembro de 1920, a Comissão Extraordinária já havia estabelecido 12.067 centros de alfabetização, ensinando 278.637 alunos [13]. Entre 1920 e 1928, um total de 8,2 milhões de pessoas freqüentavam escolas de alfabetização [14].

De acordo com a diretiva do decreto de Lenin de 1919, os trabalhadores incapazes de ler e escrever recebiam turnos reduzidos integralmente remunerados para o estudo diário. Os trabalhadores também eram encorajados a assistir às aulas ministradas por voluntários no domingo. Os cursos de alfabetização freqüentemente culminavam em comemorações públicas com datas escolhidas para coincidir com aniversários revolucionários - alguns cursos para trabalhadores concluíam no primeiro semestre em 21 de janeiro (data da morte de Lenin em 1924) e no segundo semestre em 1º de maio (Dia do Trabalhador) [15].

“Livros, (Por favor)! De todos os ramos do conhecimento”, cartaz para editoras do governo (Alexander Rodchenko, 1924)

Os cursos de alfabetização possuíam grandes expectativas em relação aos trabalhadores matriculados. Longe do antigo padrão czarista de uma pessoa alfabetizada ser alguém que pudesse assinar seu nome, a Comissão Extraordinária para a Erradicação do Analfabetismo explicou que um curso de 3-4 meses de alfabetização em centro de alfabetização fornecia apenas uma "chave" para a alfabetização. Um trabalhador que participava de tal curso por duas horas a cada dia de trabalho era considerado apenas "semi-alfabetizado". Um curso mais longo, de 6-8 meses, envolvendo pelo menos 6-8 horas de estudo a cada semana, era pré-condição para a alfabetização genuína [16].

Em 1923, o trabalho da Comissão Extraordinária foi ampliado através da formação da sociedade Abaixo o analfabetismo, uma organização de massas liderada pelo Partido Comunista. Em outubro de 1924, 1,6 milhões de cidadãos soviéticos haviam aderido[17]. A sociedade organizou professores voluntários de alfabetização, distribuiu cartazes de campanha contra o analfabetismo e arrecadou dinheiro para a publicação e distribuição de panfletos e livros. A sociedade também organizou festivais e campanhas regulares de alfabetização. Uma campanha de três dias, iniciada no Dia do Trabalhador de 1925, envolveu a organização de peças de teatro públicas, filmes e outras artes públicas, graduações em massa dos cursos dos centros de alfabetização, e a organização de "carros de agitação", distribuindo folhetos e popularizando slogans de Lenin ("Temos três tarefas: primeiro, estudar, segundo, estudar, e terceiro, estudar") e Trotsky ("Vamos criar uma densa rede de escolas em todos os lugares no território russo. Não haverá analfabetos. Não haverá trabalhadores ignorantes") [18].

Os resultados variaram em diferentes indústrias durante a década de 1920. O analfabetismo persistiu nos locais de trabalho que absorveram os antigos camponeses que se mudaram para as cidades, especialmente as mulheres, como a indústria têxtil. Em outros setores ele foi erradicado, inclusive entre os trabalhadores metalúrgicos, de impressão e ferroviários. No final de 1924, as taxas de alfabetização entre os trabalhadores ferroviários chegaram a 99%, com todos os demais analfabetos matriculados nos cursos dos centros de alfabetização. Em 1928, o sindicato dos trabalhadores ferroviários desenvolveu planos para eliminar o analfabetismo entre os estimados 93 mil cônjuges e membros familiares de seus trabalhadores [19].

Dentro do campesinato, a campanha pela alfabetização universal foi mais longa e difícil. A servidão havia sido abolida na Rússia apenas 56 anos antes da Revolução de Outubro e a superstição religiosa e diferentes tipos de atraso ainda afligiam o campesinato. As mulheres eram especialmente afetadas, e eram significativamente menos alfabetizadas do que os homens em todo o antigo império czarista. Nas aldeias, os meninos eram tipicamente educados antes das meninas. "Aqui temos plena igualdade entre homens e mulheres", observou Trotsky em 1924. "Porém, para que uma mulher tenha as verdadeiras oportunidades que um homem tem, mesmo agora em nossa pobreza, as mulheres devem ser iguais aos homens na alfabetização". O 'problema da mulher' nesse caso, então, significa antes de tudo a luta contra o analfabetismo da mulher" [20].

Um impulso inicial para a campanha surgiu com a desmobilização do Exército Vermelho no final da guerra civil, com a redução no número de tropas de 5,5 milhões para 800 mil. Milhões de camponeses recém alfabetizados retornaram às suas aldeias e ensinaram seus familiares a ler [21].

“Que a escuridão desapareça, vida longa ao Sol!”

Em todo o vasto campo russo nos anos 1920, o governo soviético estabeleceu uma rede de salas de leitura nas aldeias (“izba-chital'nia”, ou, literalmente, "cabana de leitura"). Durante a guerra civil, foram estabelecidas mais de 20 mil salas de leitura, aproximadamente uma para cada cinco vilarejos. O número inicialmente diminuiu quando a Nova Política Econômica forçou cortes nos gastos do governo. Os recursos limitados afetaram todos os aspectos da luta contra o analfabetismo. Uma sala de leitura estabelecida no município de Tambov em 1923, por exemplo, tinha material de leitura composto apenas pelo jornal regional, um panfleto sobre economia política e o “ABC do comunismo” de Nikolai Bukharin e Yevgeni Preobrazhensky [22]. Também houveram dificuldades prolongadas para garantir trabalhadores suficientemente instruídos na direção das salas de leitura.

"O objetivo das salas de leitura é tornar a leitura do jornal uma grande necessidade para cada camponês pobre e médio", explicou Krupskaya. "Eles devem ser atraídos para o jornal como o bêbado é atraído para o vinho". Se a sala de leitura conseguir fazer isso, terá feito algo importante" [23].

No entanto, as salas fizeram mais do que simplesmente disponibilizar jornais. Elas se desenvolveram como veículos de alfabetização e cultura, quebrando o isolamento e o atraso da vida camponesa tradicional. Uma pesquisa de dezembro de 1925 mostrou que 6.392 "círculos sócio-políticos" se reuniam em salas de leitura, com 123 mil membros. Maiores ainda eram os "grupos agro-econômicos" (7 mil grupos com 136 mil membros) e "grupos dramatúrgicos/teatrais" (9.400 grupos com 185 mil membros) [24].

Novas tecnologias foram utilizadas para promover o valor de aprender a ler e escrever. Onde os rádios podiam ser adquiridos para a sala de leitura do vilarejo, o comparecimento aumentou acentuadamente e, em algumas regiões, teve que ser restrito para diferentes grupos de pessoas em dias diferentes [25]. Além disso, até abril de 1926, 976 grupos de exibições itinerantes de cinema visitavam cada um 20 vilarejos por mês. Um historiador explicou: "Camponeses alfabetizados introduziam os filmes e os utilizavam como estímulo para criar uma demanda por mais informações através de livros" [26].

A alfabetização infantil

A campanha de alfabetização soviética foi sempre afetada por recursos financeiros limitados. Os bolcheviques haviam estabelecido um governo de trabalhadores em outubro de 1917 com a perspectiva de que este seria o primeiro impulso na revolução mundial. A propagação da revolução para os países capitalistas avançados, começando na Alemanha e nos outros centros europeus, era avidamente esperada, sobretudo devido à perspectiva de aliviar o atraso econômico da Rússia através do compartilhamento de recursos financeiros e técnicas industriais. Na Alemanha, entretanto, em 1918-1919 e novamente em 1923, os levantes revolucionários terminaram na contrarrevolução burguesa, assim como as revoltas da classe trabalhadora em outros países europeus.

Anatoly Lunacharsky

O imenso atraso econômico da Rússia foi agravado pelo impacto da guerra civil e da investida imperialista. Em 1921, a Comissão Extraordinária para a Erradicação do Analfabetismo emitiu um panfleto delineando cursos de alfabetização de curto prazo, que apresentava um capítulo intitulado "Como sobreviver sem papel, lápis ou caneta"[27].

A pobreza e a escassez afetaram especialmente o desenvolvimento do sistema escolar soviético neste período. Um educador estadunidense que visitou a URSS em 1925 descreveu a situação:

Seria difícil encontrar equipamentos piores do que aqueles de muitas das instituições soviéticas. Os edifícios são antigos. Os bancos estão desgastados. Faltam lousas e livros. Os professores e os outros trabalhadores da educação são mal pagos - às vezes, deixam de receber salário por meses. Há vagas para receber apenas cerca de metade das crianças em idade escolar nas escolas na União Soviética. Lunacharsky, Comissário do Povo para a Educação, estima que a União está com uma falta de 25 mil professores. Mesmo que possuíssem esses professores, não haveria salas para colocá-los. Provavelmente não há nenhum país importante na Europa onde as condições educacionais estejam fisicamente piores do que na União Soviética [28].

Apesar desses imensos desafios, a União Soviética desenvolveu as abordagens mais inovadoras e progressistas do mundo para o ensino e a aprendizagem.

A Lei da Educação de outubro de 1918 aboliu o antigo sistema administrativo de educação, dominado pela Igreja, que estava voltado para a elite czarista, e promoveu o princípio da educação secular, de livre acesso, desde o nível primário até o ensino superior, desenvolvido como uma "Escola de Trabalhadores Unida". Um historiador explicou que essa lei refletia um consenso dentro do Comissariado da Educação, a favor de "um sistema escolar com as seguintes características: um único tipo de escola, a Escola de Trabalhadores Unida, fornecendo nove anos de educação politécnica, bem como sapatos, roupas, cafés da manhã quentes, cuidados médicos e materiais de ensino gratuitos para todas as crianças, independentemente do gênero e da origem social; pouco ou nenhum dever de casa; nenhum livro didático padrão, promoção, exames de graduação ou notas; exercícios socialmente úteis como parte do currículo padrão (cuidado com parques públicos, campanhas contra os diversos males desde o analfabetismo até religião e o álcool); o estudo e a prática do trabalho, desde a modelagem nas primeiras séries até o trabalho em uma oficina ou fazenda escolar em séries posteriores, talvez até mesmo um estágio numa fábrica para alunos mais velhos; e a autodireção para ensinar numa escola na qual o público, os pais e os alunos desempenhariam um papel vital.” [29]

Embora nem todos esses compromissos tenham sido cumpridos imediatamente por conta da escassez material, a União Soviética se tornou um laboratório de experimentação pedagógica.

"Nosso país socialista está lutando pela reconciliação do trabalho físico e mental, que é a única coisa que pode levar ao desenvolvimento harmonioso do homem", explicou Trotsky em um discurso de 1924, "Poucas Palavras sobre Como Elevar um Ser Humano". Ele continuou: "Este é o nosso programa". O programa dá apenas orientações gerais para isto: ele aponta com a mão, dizendo: "Aqui está a direção geral do seu caminho! Porém, o programa não diz como alcançar essa união na prática. ... Nesse campo, como em muitos outros, iremos e já estamos indo por meio da experiência, pesquisas e experimentos, conhecendo apenas a direção geral do caminho para alcançar o objetivo: uma combinação de trabalho físico e mental o mais correta possível" [30].

A alfabetização infantil mudou significativamente em muitas escolas após a revolução. O sistema czarista, para a minoria das crianças que tinham acesso a ele, apresentava métodos autoritários, de aprendizado por repetição, com gramática e outros aspectos dos processos de leitura e escrita ensinados sem qualquer conexão com outros aspectos do currículo, muito menos com o ambiente e os interesses da criança.

As escolas soviéticas, por outro lado, encorajavam a adoção de um currículo integrado e o ensino da leitura e da escrita através do engajamento e descoberta da sociedade e do mundo natural. Krupskaya incorporou as abordagens desenvolvidas por educadores estadunidenses progressistas no final do século XIX e início do século XX, desenvolvendo-as com base numa compreensão marxista da sociedade humana e do processo produtivo. Isto ficou conhecido como o "método complexo", com professores planejando a alfabetização e a aprendizagem numérica das crianças dentro da estrutura de três "complexos" - natureza, trabalho e sociedade. As conexões mais próximas foram encorajadas entre as escolas e suas comunidades, com freqüentes excursões e projetos de pesquisa em fábricas ou fazendas vizinhas.

Krupskaya explicou: "A primeira etapa [da escola] visa dar às crianças as habilidades e conhecimentos mais necessários para a atividade profissional e a vida cultural e para despertar seu interesse pelo ambiente que as rodeia. ... Não pode ser esquecido que a linguagem e a matemática devem desempenhar um papel puramente funcional nessa primeira etapa. Seu estudo como ramos separados de conhecimento na primeira etapa é prematuro. O estudo de sua língua materna e da matemática deve, portanto, ter um caráter moderno, intimamente ligado às observações e atividades de uma criança"[31].

Nadezhda Krupskaya (fotos da polícia czarista, 1896)

Escrevendo sobre o desenvolvimento da educação soviética nos anos 1920, o jornalista estadunidense, William Henry Chamberlin, relatou:

As experiências educacionais mais marcantes e inovadoras podem ser encontradas nas escolas soviéticas de nível básico e médio. ... Métodos de ensino antiquados, com cada disciplina colocada em um compartimento estanque e ensinada separadamente, foram completamente descartados. ... Testemunhei uma aplicação prática deste método [complexo] em uma escola de Moscou, com o nome do presidente Kalinin. O tema dado foi "A Cidade de Moscou". A lição de história foi baseada em eventos passados na vida da cidade. Algumas idéias geográficas foram transmitidas levando as crianças ao rio Moscou e mostrando-lhes o que são ilhas, costas e penínsulas, etc. A aritmética teve sua vez quando as crianças apareceram em grupo para medir a quadra mais próxima da escola e fazer vários cálculos a respeito da sua relação com a cidade como um todo. ... De tempos em tempos eles visitavam fábricas, museus e monumentos históricos. O método puramente escolar é anátema na pedagogia soviética. Todo esforço é feito para dar aos alunos alguma representação concreta e visível das coisas que eles estão estudando [32].

Os anos 1930 e o impacto do stalinismo

O isolamento do Estado soviético, conseqüência das derrotas sofridas pela classe trabalhadora na Europa ocidental e central nos anos após a Primeira Guerra Mundial, em conjunto com a enorme pobreza e desigualdade social do país, deu origem a uma nova casta burocrática. No início da década de 1920, essa camada social privilegiada tornou-se cada vez mais satisfeita consigo mesma e conservadora, e se alinhou a Joseph Stalin depois que ele revelou em 1924 a perspectiva nacionalista do "socialismo em um país".

Isso contrariava diretamente a teoria da revolução permanente, que Trotsky desenvolveu em meio às revoltas revolucionárias de 1905 na Rússia, e baseou a tomada do poder pelo Partido Bolchevique em 1917. Trotsky analisou que as tarefas da revolução democrática na Rússia - incluindo a eliminação do czarismo e de todos os resquícios do atraso feudal - só poderiam ser realizadas através do avanço da revolução socialista, liderada pela classe trabalhadora. Conforme Trotsky previu corretamente, os trabalhadores liderariam a revolução e, uma vez no poder, seriam obrigados a assumir o comando da economia, colocando-o sob propriedade pública, e a instituir medidas socialistas, incluindo o planejamento estatal. Entretanto, dado o imenso atraso econômico da Rússia, a vitória da revolução acabou dependendo de seu desenvolvimento internacional, sobretudo nos países capitalistas avançados.

A burocracia passou a identificar a teoria da revolução permanente e a luta pela revolução socialista mundial como uma ameaça para os seus interesses. Trotsky disse em sua autobiografia: "O sentimento de 'Nem tudo pela revolução, mas algo para si próprio também', foi traduzido como 'Abaixo a revolução permanente'. A revolta contra as duras exigências teóricas do marxismo e as duras exigências políticas da revolução gradualmente assumiu, aos olhos do povo, a forma de uma luta contra o 'trotskismo'" [33].

Trotsky e a Oposição de Esquerda travaram uma campanha determinada e de princípios em defesa da revolução e sua perspectiva internacionalista. A burocracia stalinista respondeu com uma agressiva campanha de mentiras, falsificações históricas, manobras fracionais e violenta repressão do Estado. Krupskaya, que se juntou brevemente à Oposição antes de capitular a Stalin, observou em 1926 que, se Lenin estivesse vivo, teria sido preso pelo novo regime. A Oposição de Esquerda organizou manifestações dentro dos comícios oficiais em 1927 para o 10º aniversário da Revolução de Outubro em Moscou e Leningrado, levantando bandeiras em defesa da democracia soviética e do internacionalismo. Depois disso, os stalinistas expulsaram Trotsky e outros oposicionistas do Partido Comunista e os enviaram para o exíliointerno. Trotsky foi expulso da URSS em 1929, e assassinado no México em 1940, dois anos após ter criado a Quarta Internacional.

A contrarrevolução stalinista teve um impacto devastador sobre a educação e a pedagogia, como aconteceu em todas as outras áreas da cultura.

Lunacharsky foi forçado a sair do Comissariado da Educação em 1929. O Instituto Marx-Engels de Pedagogia Marxista foi dissolvido em 1932. Também naquele ano, Stanislav Shatsky foi afastado de seu cargo de chefe da "Primeira Estação Experimental", uma rede de centros educacionais progressistas para crianças e adultos que também serviu como um centro de formação de professores. Shatsky havia colaborado estreitamente com Krupskaya nos anos 1920, e sua rede escolar havia sido visitada por vários educadores ocidentais, incluindo o filósofo e pedagogo estadunidense, John Dewey. O regime stalinista dos anos 1930 elevou Anton Makarenko a chefe de educação nacional, um anteriormente obscuro administrador de "colônias" da polícia secreta da GPU para crianças órfãs e desabrigadas. Essas colônias eram administradas como acampamentos de treinamento ao estilo militar, com os estudantes passando tanto tempo trabalhando em linhas de montagem produzindo furadeiras e câmeras quanto aprendendo em salas de aula.

No início da década de 1930, uma série de resoluções do Comitê Central e decretos do governo condenaram a "experimentação" educacional, proibiram o método complexo, efetivamente impediram qualquer compromisso com o politecnismo, aboliram a democracia estudantil em favor da autoridade do diretor e do professor, impuseram uniformes escolares obrigatórios e feriram a autonomia da escola em favor do controle centralizado do Estado [34]. Os professores foram recompensados por aumentar as notas dos testes individuais de seus alunos, ao mesmo tempo em que os exames foram introduzidos para os alunos que ingressavam em cada nível do ano. O autoritarismo saturou todos os aspectos do sistema educacional. Um documento de "Regras de Conduta" foi emitido para cada escola primária e secundária - elas incluíam comandos para os alunos "obedecerem as instruções do administrador da escola e dos professores sem questionamento", "levantarem-se quando o professor ou diretor entrar ou sair da sala", e "ficarem de pé quando responderem ao professor; sentar-se apenas com a permissão do professor; levantar a mão se quiser responder a uma pergunta".

Em 1937, em sua análise na obra-prima, A Revolução Traída, Trotsky apontou que a nova geração na União Soviética estava emergindo "sob uma opressão intolerável e crescente". Ele acrescentou: "Na fábrica, na fazenda coletiva, no quartel, na universidade, na sala de aula, e mesmo no jardim de infância, se não na creche, a principal glória do homem é declarada: lealdade pessoal e obediência incondicional ao líder. Muitas frases pedagógicas e máximas de tempos recentes poderiam ter sido copiadas de Goebbels, se o próprio não as tivesse copiado em boa parte dos colaboradores de Stalin" [35].

A campanha pela alfabetização universal foi inevitavelmente afetada de maneira adversa pela contrarrevolução stalinista.

No mesmo momento em que a União Soviética estava prestes a erradicar o analfabetismo, o regime stalinista propagou incessantemente mentiras e falsificações históricas. A "grande mentira" do stalinismo - que Stalin representava a continuidade da liderança de Lenin do Partido Bolchevique, e que Trotsky e a teoria da revolução permanente eram inimigos da classe trabalhadora - assumiram proporções monstruosas durante os expurgos e julgamentos de 1936-1938. Praticamente todos os camaradas de Lenin e Trotsky, com exceção de Stalin, foram acusados de espionagem, de ser um fascista ou um provocador. A falsificação histórica foi institucionalizada nas escolas, universidades e instituições de educação do partido, e qualquer professor ou estudante que se opusesse às mentiras grosseiras do regime estava sujeito à prisão ou à execução.

Em tais condições, o desenvolvimento da alfabetização verdadeira — entendida como mais do que a simples capacidade de ler palavras em uma página, envolvendo ao invés disso um compromisso crítico com os textos — era praticamente impossível.

Um historiador observou que as campanhas dos anos 1930 "produziram um forte aumento na taxa de alfabetização nacional, mas às custas da verdadeira educação como Lenin a havia entendido". O objetivo principal era econômico e não cultural, para fornecer uma força de trabalho em massa mal alfabetizada o mais rápido possível para o emprego nos planos quinquenais" [36].

Krupskaya, apesar de sua acomodação ao regime stalinista, reconheceu que o trabalho da campanha de alfabetização no final dos anos 1920 e início dos anos 1930 tinha "ajudado milhões de pessoas a ler e escrever, mas o conhecimento adquirido era do tipo mais elementar" [37]. Uma pesquisa indicou uma diminuição significativa no tempo que os trabalhadores passaram a ler nos anos 1930. Entre 1923 e 1939, o tempo médio que os trabalhadores da cidade dedicavam à leitura de jornais a cada semana diminuiu de 2,3 para 1,8 horas, e o tempo gasto na leitura de livros e periódicos de 2,1 para 1,0 horas [38].

O stalinismo também afetou o trabalho de campanha de alfabetização entre as nacionalidades não-russas, que compreendia cerca da metade da população da União Soviética. Algumas das nacionalidades eram sociedades pré-alfabéticas na época da Revolução de Outubro e, em outras, as taxas de alfabetização eram muito baixas. Nos anos 1920, a fim de permitir que as pessoas se tornassem alfabetizadas em sua língua nativa, os lingüistas soviéticos, como descreve um relato, criaram "alfabetos diagramados e codificados, gramáticas e vocabulários para todos os povos do norte do Cáucaso, túrquicos e fino-úgricos". Além disso, o "Narkompros [o Comissariado da Educação] reequipou dezenas de institutos acadêmicos e criou novos (o Instituto Central de Línguas Vivas Orientais, o Instituto de Orientologia, a Associação de Orientologia da União, a Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente) a fim de preparar estudos lingüísticos, alfabetos, dicionários, textos escolares e pessoas para o trabalho com línguas nativas no Oriente"[39].

A promoção de Stalin do chauvinismo grão-russo dificultou essas iniciativas - nos anos 1930, a escrita em cirílico foi imposta às nacionalidades que haviam desenvolvido anteriormente o uso do alfabeto latino. Alguns trabalhadores e camponeses recém-alfabetizados tiveram que reaprender a ler sua própria língua em cirílico. Além disso, aprender a língua russa se tornou obrigatório na escola a partir de 1938.

Apesar desses obstáculos stalinistas na campanha de alfabetização, o número de pessoas que sabiam ler e escrever aumentou significativamente na década de 1930. Como Trotsky analisou, a casta burocrática usurpou o poder político da classe trabalhadora na União Soviética, mas manteve o monopólio estatal do comércio exterior e a propriedade pública dos meios de produção. A URSS continuou sendo um Estado operário, embora severamente degenerado. Como tal, o Estado era capaz de planejar e distribuir vastos recursos como parte da campanha de alfabetização.

Garantir que números muito maiores de trabalhadores e camponeses pudessem ler e escrever era um requisito essencial da campanha de industrialização. A industrialização de Stalin e a coletivização forçada do campesinato - condenada duramente por Trotsky e pela Oposição de Esquerda pelo seu caráter desnecessariamente violento e imprudente - provocou um forte aumento da população urbana da União Soviética. A coletivização forçada, apesar de seu impacto econômico devastador, permitiu o ensino da alfabetização dentro de uma população camponesa mais concentrada. O Komsomol, organização comunista de jovens, foi mobilizado para ajudar na campanha de alfabetização no campo. Entre 1931 e 1933, 50 mil membros do Komsomol ensinaram nas escolas, embora a maioria desses e de outros jovens professores não possuíssem qualquer qualificação formal [40].

As matrículas de trabalhadores nos cursos dos centros de alfabetização aumentaram. Na década de 1930 recursos significativos foram dedicados para garantir a escolaridade universal das crianças. Entre 1927 e 1932, o número de professores na escola dobrou, aumentando em 230 mil. O número de alunos para as séries 1 a 7 aumentou de 11 milhões em 1927-1928 para 21 milhões em 1932-1933, sendo que oito milhões desse aumento eram matriculados em escolas rurais nos primeiros anos de ensino. Um historiador observou que esse "aumento de 8 milhões nas escolas rurais excedia toda a matrícula na escola primária do Império Russo em 1914" [41].

Conclusão

Um censo da URSS de 1939 mostra que, apenas 22 anos após a Revolução de Outubro, o analfabetismo estava caminho de ser erradicado. Para aqueles entre 9 e 49 anos de idade, 87,4% eram alfabetizados. A taxa de alfabetização permaneceu mais alta nas cidades do que no campo, e mais alta entre os homens do que entre as mulheres. A taxa de alfabetização urbana masculina era 97,1%, e a taxa urbana feminina era 90,7% [42]. Alguns dos mais extraordinários ganhos em alfabetização foram alcançados nas repúblicas soviéticas não russas. Na região da Ásia Central da Turcomênia, por exemplo, as taxas de alfabetização haviam aumentado de menos de 8%, registradas no censo de 1897, para 78% em 1939 [43].

“Se você não ler livros, logo você esquecerá como ler e escrever”

A campanha de alfabetização criou as bases para o caráter profundamente culto da sociedade soviética. Apesar da censura e repressão do regime stalinista, a população soviética reverenciava a literatura, a poesia e as artes. Mais imediatamente, a campanha de alfabetização também desempenhou, sem dúvida, um papel na campanha militar contra a Alemanha nazista entre 1941-1945, na qual se estima que 27 milhões de cidadãos soviéticos perderam suas vidas. As dezenas de milhões de soviéticos recrutados para o exército entre 1941 e 1945 e os homens e mulheres que trabalhavam nas fábricas de armamentos eram capazes de seguir e emitir instruções por escrito. A mobilização em massa de toda a população para a luta contra o fascismo teria sido provavelmente ainda mais custosa se não houvesse uma alfabetização quase universal.

Da perspectiva de hoje, a campanha de alfabetização soviética continua sendo uma conquista extraordinária. A crise mundial do capitalismo traz com ela um ataque acelerado à educação pública e à capacidade da classe trabalhadora de ter acesso à cultura. Nos Estados Unidos e em outros países, a pandemia do coronavírus está sendo utilizada como o pretexto para cortar os gastos com a educação pública. A falta crônica de recursos nas escolas públicas em todo o mundo, incluindo nos países capitalistas avançados - em conjunto com péssimas condições de trabalho para os professores e os métodos pedagógicos regressivos obrigatórios - ameaça negar à geração mais jovem o seu direito de adquirir uma alfabetização genuína, crítica. Sem dúvida, entre os oligarcas financeiros e seus representantes políticos existe uma mentalidade semelhante àquela expressa pelo ministro da instrução czarista do século XIX, que tratava a alfabetização e o aprendizado para a juventude da classe trabalhadora como uma coisa perigosa, que seria melhor restrita.

A defesa da alfabetização universal e de alta qualidade, assim como a defesa de todos os outros aspectos da cultura humana, recai novamente sobre o movimento socialista.

Referências:

[1] Ben Eklof, “Russian Literacy Campaigns 1861-1939,” in R.F. Arnove and H.J. Graff (eds.) National Literacy Campaigns: Historical and Comparative Perspectives (p. 141). Springer, 1987.

[2] Roger Pethybridge, The Social Prelude to Stalinism. Palgrave Macmillan, 1974, p. 134.

[3] Citado em Theresa Bach, Educational Changes in Russia. US Government Printing Office, 1919, p. 4.

[4] Vladimir Lenin, The State and Revolution: the Marxist Theory of the State and the Tasks of the Proletariat in the Revolution (p. 479), em Collected Works (vol. 25). Progress Publishers, 1974.

[5] Cited in K. Nozhko et al., Educational Planning in the USSR. UNESCO, 1968, p. 26.

[6] H.S. Bhola, Campaigning for Literacy: Eight National Experiences of the Twentieth Century. UNESCO, 1984, pp. 44-45.

[7] Leon Trotsky, “Listen and Get Ready, Red Army!,” em How the Revolution Armed: The Military Writings and Speeches of Leon Trotsky (vol. 5). New Park Publishers, 1979.

[8] Leon Trotsky, “First Reading Book—Is it Worth Reading?,” em How the Revolution Armed: The Military Writings and Speeches of Leon Trotsky (vol. 2). New Park Publishers, 1979.

[9] Pethybridge, The Social Prelude to Stalinism, op. cit., p. 110.

[10] Citado em V. Protsenko, “Lenin’s Decrees on Public Education.” Soviet Education, vol. 3 no. 3, 1961, p. 59.

[11] Citado em I.V. Glushchenko, “The Soviet Educational Project: The Eradication of Adult Illiteracy in the 1920s–1930s.” Russian Social Science Review, vol. 57 no. 5, September–October 2016, p. 389.

[12] Jeffrey Brooks, “Studies of the Reader in the 1920s.” Russian History, vol. 9 nos. 2/3, 1982, p. 189.

[13] Peter Kenez, The Birth of the Propaganda State: Soviet Methods of Mass Mobilisation, 1917-1929. Cambridge University Press, 1985, p. 82.

[14] Ibid., p. 157.

[15] Charles E. Clark, “Literacy and Labour: The Russian Literacy Campaign within the Trade Unions, 1923-27.” Europe-Asia Studies, vol. 47 no. 8, December 1995, p. 1,332.

[16] Ibid., p. 1,328.

[17] Kenez, The Birth of the Propaganda State, op. cit., p. 154.

[18] Ibid., p. 161.

[19] Clark, “Literacy and Labour,” op. cit., p. 1,330.

[20] Leon Trotsky, “Leninism and Library Work,” in Problems of Everyday Life. Pathfinder Press, 1973, p.153

[21] Eklof, “Russian Literacy Campaigns 1861-1939,” op. cit., p. 133.

[22] Alexandre Sumpf, “Confronting the Countryside: The Training of Political Educators in 1920s Russia.” History of Education, vol. 35 nos. 4-5, p. 479.

[23] Citado em Bradley Owen Jordan, Subject(s) to Change: Revolution as Pedagogy, or Representations of Education and the Formation of the Russian Revolutionary. PhD thesis, University of Pennsylvania, 1993, p. 211.

[24] Charles E. Clark, “Uprooting Otherness—Bolshevik Attempts to Refashion Rural Russia via the Reading Rooms of the 1920s.” Canadian Slavonic Papers, vol. 38 nos. 3/4, September-December 1996, p. 328.

[25] Ibid., p. 324.

[26] Pethybridge, The Social Prelude to Stalinism, op. cit., p. 159.

[27] Eklof, “Russian Literacy Campaigns 1861-1939,” op. cit., p. 133.

[28] Scott Nearing, Education in Soviet Russia. International Publishers, 1926, p. 13.

[29] Larry E. Holmes, “Soviet Schools: Policy Pursues Practice, 1921-1928.” Slavic Review, vol. 48 no. 2, Summer 1989, p. 235.

[30] Leon Trotsky, “A Few Words on How to Raise a Human Being,” em Problems of Everyday Life. Pathfinder Press, 1973, pp. 136-137.

[31] Citado em John T. Zepper, “N. K. Krupskaya on Complex Themes in Soviet Education.” Comparative Education Review, vol. 9 no. 1, February 1965, p. 34.

[32] William Henry Chamberlin, Soviet Russia: A Living Record and a History. 1930, disponível em <https://www.marxists.org/archive/chamberlin-william/1929/soviet-russia/ch12.htm>.

[33] Leon Trotsky, My Life: An Attempt at an Autobiography. Charles Scribner’s Sons, 1931, p. 505.

[34] Jon Lauglo, “Soviet Education Policy 1917-1935: From Ideology to Bureaucratic Control.” Oxford Review of Education, vol. 14 no. 3, 1988, pp. 294-295.

[35] Leon Trotsky,The Revolution Betrayed: What is the Soviet Union and Where is it Going. Labor Publications, 1991, p. 137.

[36] Citado em Pethybridge, The Social Prelude to Stalinism, op. cit., p. 176.

[37] Ibid.

[38] Eklof, “Russian Literacy Campaigns 1861-1939,” op. cit., p. 143.

[39] Michael G. Smith, Language and Power in the Creation of the USSR, 1917-1953. Mouton de Gruyter, 1998, p. 71.

[40] Sheila Fitzpatrick, Education and Social Mobility in the Soviet Union 1921-1934. Cambridge University Press, 1979, p. 174.

[41] Eklof, “Russian Literacy Campaigns 1861-1939,” op. cit., p. 142.

[42] Ibid.

[43] John Dunstan, Soviet Schooling in the Second World War. Macmillan Press, 1997, p. 19.

 

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