O United Auto Workers: uma conspiração criminosa contra a classe trabalhadora

8 Agosto 2020

Publicado originalmente em 7 de agosto de 2020

Na segunda-feira, a General Motors apresentou documentos à justiça mostrando que a Fiat Chrysler pagou a funcionários do United Auto Workers (Sindicato dos Trabalhadores Automotivos – UAW) dezenas de milhões de dólares em subornos, até então desconhecidos, parte de uma gigantesca operação criminosa.

Investigadores privados trabalhando para a GM encontraram provas da existência de contas bancárias offshore na Suíça, Panamá, Singapura, Lichtenstein e Ilhas Caimã, criadas para beneficiar altos funcionários do UAW, incluindo quatro dos últimos cinco presidentes do UAW. As contas secretas faziam parte de um esquema sofisticado da Fiat Chrysler para canalizar milhões de dólares em pagamentos ilegais aos funcionários do sindicato por seus serviços de traição aos trabalhadores.

Essas revelações apontam para uma escala e extensão da corrupção dentro do UAW ainda maior do que as descobertas pela investigação federal de subornos e propinas. Até o momento, essa investigação levou à condenação de mais de uma dúzia de pessoas, em sua maioria funcionários do UAW e da administração da Fiat Chrysler.

A lista de funcionários do UAW que cumprem pena de prisão neste momento inclui o ex-presidente do UAW Gary Jones e os ex-vice presidentes do UAW Joe Ashton e Norwood Jewell. O presidente interino do UAW, Rory Gamble, também está sob investigação federal por recebimento de propina.

A investigação foi promovida pela GM como parte de uma tentativa de reabrir sua ação judicial contra a FCA, alegando que os pagamentos ao UAW deram a sua rival uma vantagem injusta nas negociações de contratos coletivos. Se a GM sentiu que devia de recorrer à justiça, foi porque a corrupção do UAW cresceu a tal ponto que passou a ameaçar seus próprios interesses corporativos.

Os novos processos judiciais incluem provas de que Ashton atuou como agente direto da FCA no Conselho Administrativo da GM, como parte de um esquema secretamente nomeado de Operação Cilindro, voltado a forçar a GM a realizar uma fusão com a FCA.

Entretanto, a verdadeira vítima desta conspiração não foi a GM, mas a classe trabalhadora, que sofreu concessões e cortes de empregos devastadores.

Esses documentos revelam o fato de que o UAW é mais do que um agente empresarial na exploração dos trabalhadores, é um participante e beneficiário direto dessa exploração.

O esquema de suborno ocorreu em larga escala, com milhões de dólares sendo movidos através de um sofisticado sistema de transações ocultas. As pessoas que fizeram isso não eram amadores. Para uma operação com este tamanho e sofisticação, corrupção é um termo inadequado.

Esses documentos expõem o UAW como um sindicato criminoso. Se eles são capazes de realizar crimes nesta escala, quem sabe do que mais eles são capazes? Basta dizer que em 2018, um trabalhador de 21 anos chamado Jacoby Hennings entrou em um escritório do UAW para fazer uma reclamação e não saiu vivo da fábrica.

A criminalidade emerge do próprio ser social desta organização. Esses subornos não foram um acidente, uma mancha sobre uma organização que de outra forma seria saudável. Todo um sistema de opressão e exploração encontra expressão nesses crimes.

Já em 1984, a Liga dos Trabalhadores, precursora do Partido Socialista pela Igualdade (EUA), apontava para o desenvolvimento do corporativismo no UAW, alertando para um paralelo com os sindicatos trabalhistas de Mussolini na Itália fascista. Naquela época, o UAW abraçou abertamente o princípio da colaboração entre sindicato e empresa.

Isto levou à criação de vários programas conjuntos e centros de treinamento conjuntos, desde meados até o final dos anos 1980, que serviram como plataformas para a canalização de dinheiro corporativo para os cofres do UAW, na escala de centenas de milhões de dólares.

O corporativismo se desenvolveu naturalmente a partir do programa nacionalista e pró-capitalista dos sindicatos. Em condições em que a produção assumia um caráter cada vez mais globalmente integrado, a estratégia nacionalista da busca por reformas mostrou-se ineficaz. Em resposta, o UAW impulsionou uma demagogia racista e xenofóbica combinada ao apoio desenfreado ao capitalismo americano. O UAW sufocou as greves e quaisquer formas de resistência dos trabalhadores ao aumento da exploração.

Durante a década de 1980, o UAW e outros sindicatos – o Sindicato dos Metalúrgicos, Sindicato dos Mineiros, Sindicato dos Caminhoneiros, Sindicato dos Comerciários – isolaram e traíram uma greve após a outra e aceitaram contratos envolvendo concessões massivas. No início dos anos 1990, ficou claro que ocorrera uma mudança qualitativa na relação dos sindicatos com a classe trabalhadora.

A Liga dos Trabalhadores concluiu que os sindicatos não podiam mais ser chamados de "organizações de trabalhadores". O líder revolucionário russo Leon Trotsky, escrevendo nos anos 1930, disse em relação aos líderes da antiga Federação Americana do Trabalho: "Se estes senhores ... passassem a defender a renda da burguesia dos ataques dos trabalhadores; se passassem a promover uma luta contra as greves, contra o aumento dos salários, contra o apoio aos desempregados [em outras palavras, o que o UAW e todos os sindicatos fazem hoje] então teríamos uma organização de fura-greves, e não um sindicato".

Este é precisamente o papel do UAW e dos sindicatos como um todo nos dias de hoje. Eles são no sentido mais verdadeiro "uma organização de fura-greves".

Por expor esta realidade, o World Socialist Web Site e o Partido Socialista pela Igualdade têm sido alvo de ataques intermináveis de todos os grupos pseudoesquerdistas de classe média, como os Socialistas Democráticos da América (DSA), a Revista Jacobin e o Labor Notes.

Aqueles que falam do UAW e outros sindicatos como organizações da classe trabalhadora não apenas se mostram completamente afastados da realidade, mas também demonstram sua indiferença à situação dos trabalhadores, oprimidos por esses gângsteres.

A corrupção dos sindicatos expõe todos os apologistas pequeno burgueses dos sindicatos. Eles possuem suas próprias relações corrompidas com esse sistema de exploração. Objetivamente falando, eles servem a seus interesses.

As novas denúncias confirmam ainda mais a urgente necessidade de construir comitês independentes nas fábricas e locais de trabalho sob o controle democrático dos trabalhadores.

O UAW está colaborando com as empresas automotivas para sufocar a oposição ao retorno total da produção nas fábricas americanas em meio a uma pandemia mortal, mesmo com as gestões tendo abandonado completamente os mínimos protocolos de segurança. Isto já levou a centenas de contaminações, com os números reais sendo encobertos pelas gestões e pelo UAW. Mais de duas dúzias de trabalhadores morreram nas fábricas geridas pelas montadoras de Detroit.

Os trabalhadores devem se lembrar de que a suspensão temporária da produção de automóveis na América do Norte no último mês de março só ocorreu devido às ações independentes dos trabalhadores nos EUA, Canadá e México, enfrentando os sindicatos.

A luta pela construção de comitês de segurança independentes nas fábricas e locais de trabalho deve ser ampliada. Os trabalhadores devem seguir a iniciativa tomada pelos operários automotivos na região de Detroit nas montadoras da Fiat Chrysler em Jefferson North, Sterling Heights, e na Jeep de Toledo e na fábrica de caminhões da Ford em Dearborn, onde os comitês de segurança já foram formados.

Uma rede nacional e mundial destes comitês deve ser erguida unificando os trabalhadores da indústria automobilística com os trabalhadores da logística, trabalhadores do transporte, professores, trabalhadores de serviços e todas os setores da classe trabalhadora para preparar uma greve geral por condições seguras nos locais de trabalho e pela suspensão da produção não essencial até que a pandemia seja contida.

A luta contra a política homicida da classe dominante em relação à pandemia requer uma luta contra o capitalismo. Isso significa confrontar o governo Trump e todo o sistema político bipartidário americano sustentado pelas empresas.

Nesta luta, os trabalhadores têm nos gângsteres do UAW seus inimigos mais implacáveis.

Shannon Jones