Brasil ultrapassa 2 milhões de casos de coronavírus e prossegue com reabertura

Por Tomas Castanheira
18 Julho 2020

O Brasil ultrapassou o marco de 2 milhões de casos confirmados de COVID-19, após serem registradas 43.829 novas infecções na quinta-feira. O país se aproxima das 77.000 mortes pela doença, com 1.299 notificações somente na quinta-feira, o mais elevado índice de mortes diárias do mundo.

Esses números assombrosos, que subestimam a realidade, na ausência generalizada de testes, expressam o resultado da política de “volta ao trabalho” sendo promovida pelo conjunto dos partidos políticos da classe dominante brasileira.

Entre o início de maio e a terceira semana de junho, mais de 5 milhões dos 16,6 milhões afastados do trabalho em decorrência da pandemia retornaram a suas atividades, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Trabalhadores do cemitério carregam o caixão de Bruno Correia, cuja família diz ter morrido de COVID-19, no cemitério Campo da Esperanca, no bairro de Taguatinga, Brasil, 17 de julho de 2020 [AP Photo/Eraldo Peres]

Quando os partidos impulsionaram suspenção de todas medidas de contenção do vírus, no início de maio, o Brasil estava ainda nos 100.000 casos confirmados e pouco mais de 6.000 mortes. Os meses seguintes testemunharam uma escalada mortal da doença, com mais de 500.000 casos, 25% do total, tendo sido registrados somente no mês inacabado de julho. A média de mortes por coronavírus cresceu nesta semana em dez estados brasileiros.

Ao invés de reconhecer as consequências catastróficas de suas medidas, o establishment político brasileiro, capitaneado pelo presidente fascistóide Jair Bolsonaro, está prosseguindo com seus planos de reabertura, liberando o funcionamento de cada vez mais atividades.

Em São Paulo, o estado mais atingido pelo vírus, o governador direitista João Doria do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB) declarou a chegada do estado a um suposto “platô” da doença e promoveu a maior flexibilização das medidas de contenção social desde o início da pandemia. É hora de “retorno à normalidade”, ele afirmou.

O “platô” do vírus em São Paulo se resume à “explosão de um Boeing 747 por dia”, nas palavras de Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan e membro do Centro de Contingência de Coronavírus do estado. Na quinta-feira, São Paulo registrou 398 novas mortes. “Pode ser que isso se prolongue até o ano que vem”, declarou Covas.

Na quinta-feira, a capital do Rio Janeiro, o segundo estado mais afetado, entrou na “fase 4” de sua reabertura econômica, com ampliação da capacidade de academias e shoppings, e liberação de esportes coletivos nas praias. No mesmo dia, o estado registrou 133 mortes e mais de 1.600 novos casos. O prefeito Marcelo Crivella, do direitista Republicanos, pretendia já reabrir pré-escolas, mas recuou frente à oposição massiva de pais e educadores.

Contudo, para Bolsonaro, as medidas dos governadores e prefeitos são ainda tímidas. Desde que testou positivo para a COVID-19, na semana passada, ele vem promovendo uma campanha para acelerar a retomada geral das atividades no país.

No mesmo dia em que o Brasil atingia os 2 milhões de casos, Bolsonaro afirmou em sua costumeira live: “Não podemos continuar sufocando a economia. Dá pra entender que a falta de salário, a falta de emprego mata, e mata mais que o próprio vírus? Será que tá difícil?”.

Bolsonaro acredita que suas posições sociopatas foram completamente confirmadas do ponto de vista dos interesses de lucro da classe dominante do Brasil. Desde os primeiros casos de COVID-19 no país, ele se opôs a qualquer medida que atingisse a produção capitalista, ameaçando os trabalhadores de que passariam fome caso fossem afastados do trabalho para se proteger do vírus.

“Agora começa a imprensa a mostrar aquilo que eu falava lá atrás”, ele afirmou nesta quinta-feira. “Só que quando se falava lá atrás não estava na onda, não estava no politicamente correto. Ser sozinho contra a maré não é fácil. O pessoal dizia também, ele está sozinho, o único líder mundial que fala sobre isso”.

Bolsonaro enalteceu o grande volume de exportações pelo agronegócio que, segundo ele, “está sendo muito bom para o Brasil”. “Não teve desemprego, o pessoal trabalhou no campo, diferentemente da cidade, onde muitos governadores e prefeitos resolveram partir para o lockdown.”

A manutenção do funcionamento das atividades do agronegócio em meio à pandemia, especialmente os frigoríficos, garantiu um crescimento substancial das exportações, com aumento de 17,5% nos primeiros quatro meses de 2020. Ao mesmo tempo, foi o principal responsável por disseminar o vírus pelo país fora das grandes cidades.

Cidades brasileiras inteiras foram contaminadas por surtos em unidades frigoríficas, que operam sob condições altamente inseguras e propícias à transmissão da doença. Um estudo feito em junho em Taquari, cidade da indústria frigorífica no Rio Grande do Sul, apontou que seu índice de contaminação era 14 vezes superior ao resto do estado.

Desde então, as infecções entre trabalhadores de frigoríficos no Rio Grande do Sul aumentou 40%, chegando a mais de 6 mil casos confirmados. Nos outros estados sulistas, Santa Catarina e Paraná, há 3.132 e 3.246 trabalhadores de frigoríficos infectados, respectivamente. Nas últimas duas semanas, a média de mortes aumentou 98,5% no Rio Grande do Sul, 95,8% no Paraná e 47,7% em Santa Catarina.

Os números reais são certamente muito maiores e, segundo a procuradora do Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Sul, Priscila Schvarcz, estão sendo ocultados pelas empresas frigoríficas. Em entrevista à Folha de São Paulo, Schvarcz afirmou: “Quando falam em 20 casos, na verdade, tem de 200 a 300. É no mínimo dez [vezes] mais do que se fala inicialmente.”

Schvarcz denunciou, particularmente, a recusa da corporação transnacional JBS, de origem brasileira, em assinar qualquer acordo de regulamentação de suas operações, como utilização de máscaras, ou protocolos de transporte dos trabalhadores.

Na prática, tais empresas não possuem nenhum impedimento à continuidade normal de suas atividades, independente dos riscos mortais que ofereçam aos trabalhadores e à saúde pública das cidades onde estão localizadas.

No Paraná, em meio à devasta,cial Democrático (PSD) retirou,ileiros.he time trabalhoer sobre a economia e a sociedadee virulentamente Bolsonaro. Nção, o governo de Ratinho Júnior do Partido Social Democrático (PSD) retirou nesta semana uma regulamentação “mais dura” sobre os frigoríficos, que determinava o distanciamento de dois metros entre os trabalhadores e o afastamento de funcionários do “grupo de risco” sem perda de remuneração. Isso ocorreu logo após uma reunião do governo com a JBS, que anunciou um investimento de 800 milhões de reais (cerca de US$148 milhões) no estado, com massiva redução de impostos à empresa.

Apesar das tentativas dos governos e empresas, a situação catastrófica nos frigoríficos não pode ser totalmente encoberta. A China, cuja retomada da economia tem impulsionado as perspectivas de alta lucratividade das empresas frigoríficas, passou a rejeitar os produtos de uma série de unidades frigoríficas brasileiras, alegando o alto risco de contaminação por coronavírus.

Em defesa das empresas, a Ministra da Agricultura Tereza Cristina solicitou a retirada das restrições, argumentando que “não há comprovação científica de que a COVID-19 possa ser transmitida por meio dos alimentos”. Ela afirmou, ainda, que os frigoríficos estão “cumprindo todos os protocolos”, o problema é que “estão testando muitas pessoas… Se não testassem talvez não houvesse toda essa reverberação negativa em cima do setor”.

Além da sua disposição a dizer qualquer coisa em benefício de seus interesses, a declaração da ministra evidencia o caráter completamente irracional do funcionamento da economia de acordo com os interesses do lucro capitalista, como defende virulentamente Bolsonaro.

Apesar de suas diferenças, todas as forças políticas ligadas ao capitalismo são incapazes de oferecer uma via alternativa. As centrais sindicais brasileiras, defendendo os “interesses estratégicos” nacionais se manifestaram na semana passada em frente ao Ministério da Economia por uma “Agenda de Retomada Econômica”, mal disfarçada com frases ocas por mais segurança.

Uma verdadeira retomada da economia só poderá ocorrer sob o controle dos trabalhadores, através da formação de comitês de segurança pela base para exigir procedimentos seguros nos locais de trabalhos e garantir o distanciamento social nos bairros, e determinar qual produção é essencial e qual será seu destino.

Essa luta é, por sua própria natureza, internacional e envolve a mobilização política independente da classe trabalhadora global para o enfrentamento direto das corporações transnacionais, a oligarquia financeira e seus governos.