Peru suspende restrições de quarentena quando infecções por coronavírus passam marca de 300.000

Por Cesar Uco
9 Julho 2020

Publicado originalmente em 8 de julho de 2020

Em 1º de julho, o presidente peruano Martin Vizcarra iniciou a terceira fase de uma "quarentena direcionada" para combater a epidemia da COVID-19. Apesar da quarentena geral ter sido suspendida, inclusive aos domingos, o toque de recolher das 22h às 5h permanece em vigor. As novas medidas são chamadas de "direcionadas" pois a quarentena continua operando em regiões consideradas de alto risco, enquanto nos bairros da classe trabalhadora de Lima são mantidas certas restrições.

Até 6 de julho, o Ministério da Saúde (Minsa) havia confirmado 302.718 casos e 10.589 mortes. O número de mortes per capita é enorme. As mortes no país equivalem à metade do número de mortes relatadas pela Índia, que tem 42 vezes a população do Peru. Também foi relatado que dos 11.302 pacientes de COVID-19 hospitalizados no Peru, 1.227 estão em terapia intensiva com uso de respiradores mecânicos.

Na América do Sul, o Peru está atrás somente do Brasil em número de óbitos, mas ocupa o primeiro lugar em termos de mortes per capita. Esta semana, o Peru saltou para o quinto lugar no ranking dos países com o maior número de casos de coronavírus.

As famílias esperam na fila por uma refeição grátis em Lima, Peru, 17 de junho de 2020. (AP Photo/Rodrigo Abd)

Vizcarra está agindo contra o conselho de muitos especialistas em saúde, que condenaram a suspensão da quarentena como prematura em condições em que cerca de 3.000 novos casos são relatadas diariamente e as mortes seguem aumentando.

Como resultado da implementação da terceira fase da "quarentena direcionada", a maioria das empresas pode agora abrir suas portas e a maioria dos peruanos pode circular livremente, com algumas exceções em regiões onde a pandemia está crescendo, tais como Arequipa, Ica, Junín, Huánuco, San Martín, Madre de Dios e Ancash.

Além disso, as pessoas com mais de 65 anos de idade estão proibidas de sair de suas casas a qualquer momento. Outra restrição é aos jovens de14 anos ou menos, que podem sair por apenas meia hora e a apenas 500 metros de distância de suas casas.

O jornal El Comercio reporta que os 19 distritos de alto risco da capital, onde é recomendado aos jovens com menos de 14 anos não sair de casa, coincidem com os mais populosos e mais pobres dos 43 distritos de Lima, com uma população estimada em mais de 6 milhões de habitantes. Em resumo, o governo está fazendo uma política dupla, que dá total liberdade aos interesses capitalistas e liberdade limitada aos bairros da classe trabalhadora.

Mais de 50% dos infectados residem em Lima. Com 10 milhões de habitantes, a capital agrega cerca de um terço da população do Peru e é composta predominantemente por trabalhadores, pobres e imigrantes que vieram de todas as regiões do país em busca de melhores condições de vida.

No domingo, o primeiro dia de "quarentena direcionada", um número recorde de pessoas ocupou as ruas, a maioria delas ignorando as regras de distanciamento social. El Correo relata que "mercados [em particular], empórios, shoppings e a praia registraram grande aglomeração de pessoas, apesar do risco de contágio e das recomendações do Minsa".

Medidas de proibição à concentração de grande número de pessoas nas ruas foram aplicadas principalmente contra os trabalhadores, que são os que mais sofrem com a pandemia, incapazes de prover alimento a suas famílias e de pagar as contas de aluguel e de serviços básicos. O governo Vizcarra executou mais de 1.000 prisões nos dois primeiros dias da terceira fase, todas elas em bairros da classe trabalhadora. Até o momento, ocorreram 52.000 prisões por violações das regras governamentais impostas para combater a propagação do coronavírus.

Em termos de estagnação econômica, o Ministério do Trabalho estima que 1,2 milhões de empregos foram perdidos entre fevereiro e maio. Mas o diário Correo fala em 3,2 milhões de pessoas que perderam seus empregos. O Banco Central peruano estimou que a economia terá uma contração de 12,5% este ano.

A implementação da "quarentena direcionada" em Lima foi caótica, com longas filas de pessoas esperando por ônibus, uma vez que a condição para retomada do transporte público é que ninguém deve viajar em pé. Na hora do rush, os ônibus geralmente estão lotados com mais pessoas em pé do que sentadas, espremidas como sardinhas.

Uma greve do transporte marcada para quinta-feira foi suspensa no último minuto por Ricardo Pareja, representante da Câmara de Transporte Urbano. Os motoristas haviam expressado desacordo com as medidas do governo. O sindicato dos transportes públicos de Lima e Callao encenou uma paralisação na semana passada, exigindo compensações econômicas.

Com o início da "quarentena direcionada", choques com as forças policiais ocorreram nos mercados populares de Mesa Redonda e La Parada. Para entrar nesses mercados, os vendedores devem apresentar uma licença atestando que cumpriram com as regras de higiene impostas pelo Minsa. Mas, em um país onde três quartos dos trabalhadores e mercados como Mesa Redonda e La Parada fazem parte do setor informal, um grande número de pequenos vendedores não tinha permissão e foi expulso à força pela polícia. Mais tarde, os mesmos vendedores buscaram outras formas de entrar no mercado, argumentando que "também temos que alimentar nossas famílias", antes de serem expulsos novamente.

Esses confrontos rapidamente deram lugar a abusos policiais. El Comercio noticiou que "um membro da Polícia Nacional peruana esbofeteou duas vezes um suposto criminoso durante seu interrogatório em uma delegacia no distrito de El Agustino". Um vídeo do interrogatório começou a circular nas redes sociais, provocando indignação com a violência policial.

Enquanto a revolta cresce na classe trabalhadora por causa do desemprego, da desigualdade social e da repressão estatal, a oligarquia capitalista dominante do Peru está insatisfeita com o ritmo da reabertura econômica. Falando em nome das grandes empresas, a economista Elena Conterno, presidente do Instituto Peruano de Ação Empresarial (IPAE), acusou o governo de dificultar a normalização da atividade econômica. Escrevendo a El Comercio, ela denunciou o "incômodo processo pelo qual as empresas têm que passar para obter autorização para ativar suas operações. Isso ocorre porque as empresas têm que apresentar um protocolo ao Ministério da Saúde e um segundo protocolo ao ministério responsável por suas atividades".

Num cenário em que muitos especialistas em saúde manifestam sua oposição à suspensão da quarentena, o IPAE expressa o desprezo da elite dominante capitalista pela vida humana, resumido na insistência de que o lucro é mais importante do que a vida dos trabalhadores.

Esta posição foi esclarecida por Ricardo Márquez, presidente da Sociedade Nacional das Indústrias (SNI), quando declarou: "Se a fábrica está em San Juan de Lurigancho [um dos maiores bairros pobres da classe trabalhadora com mais de 1 milhão de habitantes] eles lhe dizem que você não pode operar porque ela está localizada em um dos bairros com mais casos de coronavírus".

Ele defende que, estando numa zona industrial, o fato de haver uma alta concentração de exposição à COVID-19 não traz maiores consequências.

Enquanto isso, a crise no setor de saúde atingiu níveis alarmantes, com relatórios chegando de todos os cantos do país pedindo mais equipamentos e reportando altos índices de infecções e mortes entre médicos, enfermeiros e demais profissionais da saúde.

O que está sendo exposto é a falta de preparo do Estado para atender à saúde da maioria da população. Isso é resultado das políticas ditadas pelo Fundo Monetário Internacional e aplaudidas pelos governos latino-americanos que exigem cortes no orçamento da saúde pública em favor dos setores extrativos – mineração para exportação – que beneficiam o capital internacional e seus parceiros juniores na burguesia latino-americana.

Dadas as alarmantes estatísticas de novas infecções e mortes, fica claro que o Presidente Vizcarra é um fantoche da classe dominante peruana, que olha com inveja como os capitalistas de outros países estão voltando à "normalidade" às custas da vida e saúde dos trabalhadores.

Uma verdadeira luta para derrotar a pandemia, assim como os ataques da burguesia e de seu presidente, Vizcarra, só pode ser iniciada com a classe trabalhadora peruana formando comitês de base nas fábricas, minas e bairros, independentes dos sindicatos e da dita esquerda burguesa. Usando as redes sociais e a internet, estes comitês devem lutar para articular suas ações conjuntamente com os trabalhadores da região e do mundo em uma luta comum pelo socialismo.