Os fundamentos malthusianos da estratégia de “imunidade de rebanho” de Boris Johnson

Por Thomas Scripps
24 Junho 2020

Publicado originalmente em 8 de junho de 2020

O nome do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, estará para sempre associado à estratégia assassina da “imunidade de rebanho”.

Uma política agora universalmente seguida pelas classes dominantes do mundo foi defendida abertamente pelo governo Johnson em resposta à pandemia do novo coronavírus, que encontrou um representante adequado em um primeiro-ministro que encarna as tradições mais reacionárias do imperialismo britânico. As ações de Johnson revelaram a barbárie fundamental de uma ordem social baseada na acumulação de lucro por uma oligarquia super-rica, de uma forma que jamais será esquecida ou perdoada pela classe trabalhadora.

Em 13 de março, dois dias depois de a pandemia de COVID-19 ter sido declarada, o conselheiro científico chefe de Johnson, Sir Patrick Vallance, sugeriu publicamente que a população poderia “criar algum tipo de imunidade de rebanho para que mais pessoas se tornem imunes a esta doença e sua transmissão seja reduzida”. Johnson havia exposto os aspectos práticos desta política em uma entrevista na semana anterior, quando explicou: “uma das teorias é que talvez você possa aceitar os efeitos desagradáveis de uma vez e permita que a doença, por assim dizer, seja transmitida pela população.”

O conceito geral de imunidade de rebanho tem uma base científica legítima, referindo-se à imunização de uma porcentagem suficiente da população para impedir a transmissão e, portanto, conter e erradicar um vírus. Mas com doenças graves, tal imunidade só foi considerada como o resultado de programas de vacinação em massa. Confiar que indivíduos desenvolvam imunidade natural pelo contato com o vírus não só não garante a resistência efetiva à infecção através do desenvolvimento de anticorpos permanentes. Isso também pressupõe a morte de centenas de milhares de pessoas que não sobrevivem à doença. É exatamente isso que o governo britânico pretendia.

De acordo com seu plano, nenhuma medida significativa de saúde pública seria implementada, uma vez que a pandemia havia se espalhado rapidamente pela Europa e pelo mundo. Não foi implementado nenhum lockdown e grandes eventos esportivos continuaram permitidos. Em 12 de março, o governo abandonou qualquer ideia de conter o vírus através do rastreamento de contatos e de medidas de isolamento social. Perguntado na Sky News por que a vida da sociedade britânica continuava normalmente mesmo considerando que isso pudesse levar a um número sem precedentes de mortes, Vallance respondeu: “Bem, é claro que enfrentamos a perspectiva, como disse ontem o primeiro-ministro, de um número crescente de pessoas morrendo”.

O que estava sendo preparado era uma carnificina. No dia 2 de março, um relatório ao Grupo de Assessoria Científica para Emergências (SAGE) do governo advertiu que o coronavírus era altamente contagioso e já estava se espalhando pela população. Se “medidas rigorosas” não fossem implementadas, “cerca de 80% da população [53 milhões de pessoas] seriam infectadas”, levando a entre 250 mil a 500 mil mortes.

Um lockdown nacional só foi implementado três semanas depois, em 23 de março, sob enorme pressão popular e em meio à revolta e indignação generalizada diante dos pronunciamentos do governo. Desde então, o governo vem trabalhando com as grandes empresas e os sindicatos para reverter essa política, que está sendo substituída por uma política criminosa de retorno inseguro ao trabalho.

A “imunidade de rebanho” não é uma estratégia de saúde pública. É uma política para matar os vulneráveis, enquanto defende os interesses econômicos da elite dominante – uma prioridade sociopática do lucro sobre a vida. Segundo um importante conservador, essa política foi resumida pelo conselheiro de Johnson, Dominic Cummings, como “imunidade de rebanho [para] proteger a economia e, se isso significa que alguns aposentados morrerão, é uma pena”.

Os apoiadores de Johnson na imprensa de direita têm defendido abertamente a mesma agenda. No dia 13 de março, a colunista fascista Katie Hopkins tuitou: “O coronavírus é um esporte coletivo. Adquira-o. Ganhe imunidade. Sinta-se melhor. O rebanho triunfa. Não tenha medo da morte. Todos têm um fim.”

Em 31 de março, Toby Young escreveu no Sceptic que “gastar 350 bilhões de libras para prolongar a vida de algumas centenas de milhares de pessoas, em sua maioria idosos, é um uso irresponsável do dinheiro dos contribuintes”. O editor de economia do Telegraph, Russell Lynch, publicou um artigo declarando: “O custo de salvar vidas com este lockdown é muito alto”.

O resultado dessa política é que o Reino Unido possui o maior número de mortes de COVID-19 fora dos Estados Unidos, que possui uma população muito maior. O número de mortes vai explodir à medida que a população for enviada de volta ao trabalho sem as mínimas proteções de saúde pública.

Boris Johnson e a “superpopulação global”

O governo Johnson está revivendo e colocando em prática as mais bárbaras teorias sociais. Uma visão valiosa das concepções que norteiam a resposta do governo à COVID-19 pode ser encontrada em um artigo de opinião até então obscuro escrito por Johnson para o Daily Telegraphem 2007. No artigo, intitulado “Superpopulação global é o verdadeiro problema”, Johnson lamenta que “a fertilidade da raça humana” não pode mais ser discutida publicamente como uma política governamental, o que mostra de maneira “trágica” quanto o “mundo mudou”.

O artigo de Johnson no Telegraph “A superpopulação mundial é o verdadeiro

“Parece que desistimos do controle populacional, e todo tipo de explicações são oferecidas para essa renúncia. Alguns dizem que Indira Gandhi deu a má fama a tudo isso pelo seu plano demente de esterilizar os indianos em troca de um rádio.

“Alguns atribuem nossa complacência à Revolução Verde, que parecia provar que Malthus estava errado. Tornou-se senso comum que a população mundial poderia chegar a inumeráveis bilhões, à medida que a humanidade aprendia a fazer crescer várias espigas de milho onde antes havia crescido apenas uma.”

O que isso significa, disse Johnson, é que a sociedade está “se recusando a dizer qualquer coisa sensata sobre o maior desafio que a Terra enfrenta; e não, seja o que for agora convencional dizer, o maior desafio não é o aquecimento global. O principal desafio da nossa espécie é a reprodução da nossa própria espécie.”

Atribuindo essa situação à “covardia política”, acrescenta Johnson, “É hora de termos uma discussão adulta sobre a quantidade ótima de seres humanos neste país e neste planeta. ... Não é hora de os políticos deixarem de ser tão tímidos e começarem a falar sobre o verdadeiro problema número um?”.

Johnson não faz nenhum esforço real para esconder o caráter fascista de seus pontos de vista. Segundo ele, “chegamos à posição absurda em que a humanidade sangra sobre a destruição do meio ambiente, e ainda assim não há nada em nenhum comunicado de qualquer cúpula da UE, do G8 ou da ONU sobre o crescimento populacional que está causando essa destruição.

“Você pode vê-la ao sobrevoar a Cidade do México, um vasto tabuleiro de xadrez de moradias precárias que se estendem em todas as direções; e quando você olha para baixo para ver o que estamos fazendo com o planeta, você tem uma visão horripilante de habitações se multiplicando e se replicando como bacilos em uma placa de Petri.”

Mais do que qualquer investigação “tímida” da imprensa burguesa, o artigo de Johnson chega ao cerne da resposta assassina do governo britânico à pandemia do coronavírus. A desigualdade social, a pobreza, as guerras e a destruição dos serviços sociais são questões que não interessam a Johnson. Quaisquer medidas para combatê-las, inclusive as medidas para enfrentar a pandemia, seriam contraproducentes: os trabalhadores das favelas da Cidade do México (ou de qualquer outro lugar) – “replicando-se como bacilos em uma placa de Petri” – são o verdadeiro vírus.

A principal referência do artigo de Johnson é Thomas Malthus, um ideólogo capitalista do final do século XVIII e início do XIX, que argumentava que a “inevitabilidade” da superpopulação tornava a pobreza e a morte precoce indispensáveis para os pobres. Johnson defende essa afirmação declarando que a história “parecia provar que Malthus estava errado”.

Embora seja mais rude e pareça mais estúpido do que a maioria de seus colegas políticos capitalistas, Johnson foi educado na escola de Eton e na Universidade de Oxford. Ele conhece o sinal de fumaça intelectual e política que está enviando aos seus semelhantes.

Desde sua primeira formulação, o malthusianismo tem desempenhado uma função política vital e perversa para a camada social em que Johnson está profundamente inserido.

Como explicou o importante marxista alemão August Bebel em 1879, a obra de Malthus “continha uma explicação dos males existentes que expressavam os pensamentos e desejos mais íntimos das classes dominantes, e os justificavam diante do mundo”. Isso significa que enquanto os bens e as riquezas os isolam justamente das devastações da fome e das doenças, a classe trabalhadora, como pouco mais do que animais de carga para os capitalistas e os latifundiários, não deve esperar tal alívio. A elite pode viver vidas luxuosas enquanto o trabalho da sociedade puder sustentá-los, mas a morte de um trabalhador velho ou enfermo torna-se “natural” a ponto de não poder mais cumprir seu compromisso com os seus apostadores.

As principais figuras da elite dominante consideram hoje em dia as vítimas da pandemia um “controle” supostamente natural de setores da população considerados um prejuízo para os lucros. Esse é o pressuposto da “imunidade de rebanho”.

Thomas Malthus e a “teoria populacional”

Thomas Maltus

Filho de um rico proprietário de terras, Thomas Malthus (1766-1834) foi bolsista da Universidade de Cambridge, pastor da Igreja Anglicana e, mais tarde, professor na faculdade particular criada pela Companhia das Índias Orientais para educar seus administradores. Ele se tornou uma figura fundamental na política burguesa com a publicação em 1798 de seu Ensaio sobre o princípio da população e seus efeitos sobre o aperfeiçoamento futuro da sociedade.

Segundo Malthus,

O poder da população é tão superior ao poder na terra de produzir subsistência para o homem que a morte prematura deve, de uma forma ou de outra, visitar a raça humana. Os vícios da humanidade [guerras, por exemplo] são ministros ativos e capazes do despovoamento. Eles são os precursores do grande exército de destruição; e muitas vezes terminam eles mesmos o terrível trabalho. Mas, se fracassarem nessa guerra de extermínio, doenças, epidemias, pestes e pragas avançam em grande quantidade e exterminam seus milhares e dezenas de milhares. Se o sucesso ainda for incompleto, a enorme e inevitável fome persegue na retaguarda, e com um só golpe nivela a população com a comida do mundo.

Todos os problemas sociais seriam resolvidos pelo problema do permanente excesso de pessoas que, se não fossem controladas pela sociedade, seriam “naturalmente” mortas por “doenças, epidemias, pestes e pragas”.

Segundo Malthus, essas catástrofes assolariam os mais pobres caso medidas punitivas de controle populacional não fossem implementadas. Além de insistir na futilidade dos ricos em apoiar uma “população excedente”, ele exigia uma “contenção moral” que impedia que os pobres tivessem demasiados filhos, o fim do sistema legal de assistência para os necessitados e apenas a mais seletiva caridade privada.

Essa foi uma justificativa para o funcionamento sem restrições do sistema de lucro capitalista, sejam quais fossem suas consequências devastadoras para a classe trabalhadora.

A “lei da população” é um absurdo ahistórico. Karl Marx considerou-a uma “calúnia sobre a raça humana”, fazendo uma crítica feroz à “relação numérica abstrata, que [Malthus] pescou puramente do nada, e que não repousa nem sobre leis naturais nem sobre leis históricas”.

Karl Marx em 1885

Como Marx demonstraria mais tarde em O Capital, a pobreza e o desemprego contemporâneos não são consequências da “superpopulação”, mas da exploração do trabalhador pelo capitalista, que produz uma “acumulação de riqueza em um polo” e uma “acumulação de miséria, suplício do trabalho, a escravidão, a ignorância, a brutalização e a degradação mental no polo oposto”.

Malthus, explicou Marx, procurou disfarçar essa realidade com uma “apologia da pobreza das classes trabalhadoras”. Ele deu “expressão brutal ao ponto de vista brutal do capital” de que se os trabalhadores não pudessem se manter ou manter seus filhos na “luta pela existência”, para usar os termos de Malthus, eles não deveriam esperar nenhum apoio. O trabalhador “não tem trabalho, daí não tem salário, e como não tem existência como ser humano, mas apenas como trabalhador, pode ir e enterrar-se, morrer de fome, etc.”.

O capítulo final do ensaio de Malthus inclui o seguinte trecho:

Que a principal e mais permanente causa da pobreza tem pouca ou nenhuma relação direta com as formas de governo, ou a divisão desigual da propriedade; e que, como os ricos não possuem na realidade o poder de encontrar emprego e de subsistência dos pobres, os pobres não podem, na natureza das coisas, possuir o direito de exigi-las; são verdades importantes que decorrem do princípio da população...

Essa teoria macabra foi defendida em oposição à luta das massas por uma melhoria de suas condições de vida. “Uma multidão”, a burguesia acadêmica treme, “é de todos os monstros o mais fatal para a liberdade”. O ensaio de Malthus foi publicado pela primeira vez em 1798, ano da Rebelião Irlandesa, e as três edições seguintes foram publicadas nos anos que antecederam o massacre de 1819 dos trabalhadores que protestavam pela representação parlamentar em Peterloo, Manchester. A quinta edição foi publicada em 1830.

Malthus declarou-se inimigo dos argumentos do Iluminismo pela igualdade, que haviam se expressado de maneira explosiva nas Revoluções Americana e Francesa. No decorrer de seu ensaio original e em edições posteriores, ele atacou o anarquista britânico utópico William Godwin, o socialista utópico Robert Owen, o democrata radical Thomas Paine e o revolucionário francês Nicholas de Condorcet. Contra argumentos igualitários exigindo o acesso justo aos direitos sociais fundamentais, Malthus proporcionou à classe dominante um clube ideológico rude para justificar o empobrecimento e a morte prematura dos pobres como a ordem natural das coisas. Ele foi recompensado com imediata e imensa influência nos círculos dominantes.

Como Marx explicou:

A grande sensação que este panfleto causou deve-se apenas ao interesse partidário. A Revolução Francesa havia encontrado defensores apaixonados no Reino Unido; o “princípio da população”, lentamente trabalhado no século XVIII, e então, em meio a uma grande crise social, proclamado com tambores e trombetas como o antídoto infalível aos ensinamentos de Condorcet, etc., foi saudado com alegria pela oligarquia inglesa como o grande destruidor de todos os desejos de desenvolvimento humano.

Malthus consagrou teoricamente o princípio de que a classe trabalhadora não tem direito à vida, exceto como força de trabalho descartável para a classe capitalista. Ele argumentava: “Há um direito que se pensa que o homem, em geral, possui e que eu tenho certeza de que ele não possui nem pode possuir – o direito à subsistência quando seu trabalho não o adquire de forma justa... nenhuma pessoa tem direito à sociedade para a subsistência, se seu trabalho não o adquire”.

Na segunda versão de seu ensaio, Malthus expressou com tanta ousadia suas opiniões bárbaras que a seguinte passagem teve que ser retirada em edições posteriores: “Um homem que nasce em um mundo já possuído, se não pode obter a subsistência de seus pais sobre quem tem uma demanda justa, e se a sociedade não quer seu trabalho, não tem direito à menor porção de comida, e, de fato, não tem o direito de estar onde está. No poderoso banquete da natureza, não há cobertura vazia para ele.”

Friedrich Engels

Friedrich Engels submeteu o legado de Malthus a uma denúncia devastadora em seu Esboço de uma crítica da economia política, de 1843. Suas palavras ecoam hoje com força total:

Malthus ... sustenta que a população está sempre pressionando os meios de subsistência; que assim que a produção aumenta, a população aumenta na mesma proporção; e que a tendência inerente da população de se multiplicar além dos meios de subsistência disponíveis é a raiz de toda miséria e de todo vício. Pois, quando há muitas pessoas, elas têm de ser descartadas de uma forma ou de outra: ou são mortas pela violência ou morrem de fome. ... As consequências desta linha de pensamento são que, sendo justamente os pobres os excedentes, nada deve ser feito por eles, a não ser facilitar-lhes a morte por fome e convencê-los de que não pode ser ajudado e de que não há outra salvação para toda a sua classe senão manter a propagação até o mínimo absoluto. ... A caridade deve ser considerada um crime, uma vez que apoia o aumento da população excedente. De fato, será muito vantajoso declarar a pobreza como crime e transformar as casas dos pobres em prisões, como já aconteceu na Inglaterra, em consequência da nova Lei “liberal” dos Pobres...

Devo continuar a discorrer sobre essa teoria vil e infame, essa blasfêmia hedionda contra a natureza e o homem? Devo eu continuar a buscar suas consequências? Aqui finalmente temos a imoralidade do economista levado ao seu mais alto nível. ... E é justamente esta teoria a pedra fundamental do sistema liberal de livre comércio, cuja queda implica a queda de todo o edifício. Pois se aqui se provar que a competição é a causa da miséria, da pobreza e da criminalidade, quem então ainda ousará falar em seu favor?

Engels observou que em 1834, poucos meses antes da morte de Malthus, seus escritos foram utilizados para justificar uma reforma do sistema da Lei dos Pobres, que tinha o objetivo de reduzir o custo mínimo da contribuição para a manutenção dos necessitados. As contribuições assistenciais foram substituídas pelo infernal sistema das “workhouses”. Homens, mulheres e crianças foram separados e forçados a viver e trabalhar em condições semelhantes às da prisão. A assistência foi retirada das mães de filhos “ilegítimos”.

Pouco mais de uma década depois, a alegação malthusiana da inevitabilidade e do benefício do “controle” catastrófico da população, além de a incapacidade da sociedade de evitar suas consequências, justificou a resposta genocida do governo britânico à Grande Fome da Irlanda de 1845-49. Um milhão de pessoas morreram de fome e mais um milhão foram forçadas a emigrar enquanto a classe dominante britânica insistia que não se poderia interferir no livre funcionamento do mercado. Mesmo quando a colheita de batata da Irlanda foi destruída pela praga, grandes quantidades de alimentos continuaram a ser exportadas.

Charles Edward Trevelyan

O secretário adjunto do Tesouro do governo do partido Whig, Charles Trevelyan, acreditava que a fome era um “mecanismo eficaz para reduzir o excesso de população” e um “golpe direto de uma Providência bondosa e todo-poderosa” enviada para reformar os irlandeses “egoístas, perversos e agitados”. Trevelyan havia estudado com Malthus.

Mutatis Mutandis, não há nada que distinga as ações dos Whigs em meados do século XIX da dos conservadores de Johnson durante a pandemia de 2020.

Malthus, Darwinismo social e eugenia

Malthus foi fundamental para as teorias do tipo “sobrevivência do mais forte” do darwinismo social e da eugenia no final do século XIX e início do século XX.

Herbert Spencer (1820-1903), o darwinista social mais importante, refere-se em Teoria da População deduzida da Lei Geral da Fertilidade Animal a um “aumento constante de pessoas além dos meios de subsistência”, um “excesso de fertilidade que implica uma pressão constante da população sobre os meios de subsistência”. Indo além da ideia de Malthus de uma “luta pela existência”, no entanto, concluiu:

Necessariamente, as famílias e raças que essa dificuldade crescente de conseguir um sustento que o excesso de fertilidade promove, não estimulam as melhorias na produção – ou seja, um desenvolvimento em sua atividade mental – estão na via expressa da extinção; e devem finalmente ser suplantados por aqueles que por tal pressão [populacional] são estimulados. Essa verdade vimos recentemente exemplificada na Irlanda. E aqui, de fato, sem mais exemplos, veremos que a morte prematura, sob todas as suas formas e por todas as suas causas, não pode deixar de funcionar na mesma direção. Porque, como os prematuros devem, na média dos casos, ser aqueles em que o poder de autopreservação é o menor, segue-se inevitavelmente que os deixados para trás para continuar a corrida são aqueles em quem o poder de autopreservação é o maior – são os seletos de sua geração.

Esse novo passo ideológico rumo à barbárie foi uma resposta a um novo acirramento das tensões de classe. Spencer escreveu após as tempestades do movimento cartista, das revoluções europeias de 1848 e da publicação do Manifesto Comunista. Isso também aconteceu em meio ao “século imperial” britânico, fundado sobre a brutal subjugação e exploração da Índia, China e outras colônias. Diante do fortalecimento da classe trabalhadora e da emergência do movimento socialista, Spencer foi levado a escrever uma defesa entusiástica, mais uma vez citando uma suposta lei natural, da desigualdade, da opressão e da violência imperialista.

Herbert Spencer

Em seu livro Estatísticas Sociais, ele atacou as “afirmações errôneas ... do socialismo sobre o direito de um homem a uma subsistência e de seu direito de ter seu trabalho providenciado para ele”. O destacado economista contemporâneo e discípulo de Spencer, Alfred Marshall, escreveu no mesmo espírito que o bem-estar social pode levar a “alguma prisão parcial dessa influência seletiva de luta e competição... à qual mais do que qualquer outra causa única, o progresso da raça humana é devido”.

A classe dominante inundou Spencer de elogios; ele vendeu mais de um milhão de cópias de suas obras em sua própria vida. O darwinismo social “provou” à elite sua crença de que não só a classe trabalhadora não merecia apoio, mas que seu sofrimento e morte prematura era de benefício ativo para a “sociedade” e para “a raça humana” – pela qual eles entendiam suas próprias contas bancárias. Uma passagem doentia nas Estatísticas Sociais diz:

Enquanto isso, o bem-estar da humanidade existente, e o desenvolvimento dela nesta última perfeição, são ambos assegurados por essa mesma disciplina benéfica, embora severa, à qual a criação animada em geral está sujeita. ... A pobreza dos incapazes, as angústias que vêm sobre os imprudentes, a fome dos ociosos e os fracos empurrados pelos fortes, que deixam tantos “em dificuldades e misérias”, são os decretos de uma benevolência grande e distante. Parece difícil que uma imperfeição que, com todos os seus esforços, não consegue superar, acarrete fome para o artesão. Parece difícil que um operário incapacitado pela doença de competir com os seus semelhantes mais fortes, tenha de suportar as privações daí resultantes. Parece difícil que viúvas e órfãos devam ser deixados lutando pela vida ou pela morte.

No entanto, quando consideradas não separadamente, mas em conexão com os interesses da humanidade universal, essas duras fatalidades são vistas como cheias da mais alta beneficência – a mesma beneficência que traz para os primeiros túmulos os filhos de pais doentes, e destaca os de baixa espiritualidade, os intemperados e os debilitados como vítimas de uma epidemia.

No contexto do agravamento das tensões inter-imperialistas, da turbulência econômica e das lutas de classe do final do século XIX e início do século XX, o darwinismo social gerou o movimento eugenista, cujo fundador, Sir Francis Galton (1822-1911), prometeu: “O que a natureza faz cega, lenta e impiedosamente, o homem pode fazer de forma adequada, rápida e bondosa”.

A eugenia ofereceu à classe dominante outra “explicação” pseudocientífica para a pobreza da classe trabalhadora e de outras “raças” consideradas inerentemente inferiores mentalmente. As camadas mais oprimidas, consideradas um fardo para a classe capitalista e suas ambições imperialistas, poderiam ser apagadas e descartadas como uma subclasse “imprópria”.

Sir Francis Galton

Assim como seus precursores ideológicos, o movimento eugenista encontrou um público amplo e pronto nas classes média e alta hostis ao socialismo revolucionário – desde a nominalmente “esquerdista” e reformista Sociedade Fabiana até o aristocrata conservador Winston Churchill (que Johnson busca constantemente imitar).

Sob a influência dessas ideias, a Lei de Deficiência Mental de 1913 levou à segregação de até 65.000 pessoas “de mente debilitada” ou “moralmente defeituosas” em colônias internas no Reino Unido. Durante a Grande Depressão dos anos 1930, um Comitê Conjunto sobre Deficiência Mental relatou que havia cerca de 300.000 “deficientes mentais” no país e definiu os 10% mais pobres da população como um “grupo de problemas sociais”. Em 1934, o Comitê Departamental de Esterilização recomendou uma legislação para assegurar a esterilização “voluntária” de “mulheres mentalmente defeituosas”.

A eugenia, como o malthusianismo e o darwinismo social, foi um movimento mundial, justificando dezenas de milhares de esterilizações forçadas nos Estados Unidos e na Escandinávia. No entanto, foi na Alemanha nazista que atingiu sua expressão mais plena e terrível com o conceito de “vida indigna de vida”, que levou à esterilização forçada de 400.000 pessoas e ao assassinato de 300.000 pessoas consideradas deficientes mentais ou físicos, e mais tarde ao extermínio em massa de judeus, eslavos e ciganos.

Ao citar Malthus em seu artigo, Johnson está se alinhando com toda essa herança ideológica banhada em sangue.

A classe dominante e a pandemia

O renascimento pela classe dominante das tradições fascistas de seu passado recente tem sido cuidadosamente analisado pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) e pelo World Socialist Web Site (WSWS) nos últimos seis anos. Em 2014, a seção alemã do CIQI iniciou uma luta contra a minimização dos crimes do Terceiro Reich que estava sendo realizada por professores de universidades alemãs.

Ao longo desse trabalho, que teve início lutando contra os ensinamentos reacionários dos professores da Universidade de Humboldt Jörg Baberowski e Herfried Münkler, o CIQI descobriu uma conspiração mais ampla na elite dominante. Os pronunciamentos de Baberowski nos principais jornais alemães de que “Hitler não era cruel” prepararam o renascimento do militarismo alemão agora orquestrado no Bundestag e a aceitação do partido fascista Alternativa para a Alemanha (AfD) e de suas políticas no coração do governo para facilitar a supressão da oposição de esquerda.

A luta contra a reabilitação do fascismo tornou-se uma grande questão em dezenas de campi universitários alemães, e grandes manifestações antifascistas têm sido realizadas em várias cidades. A seção alemã do CIQI foi colocada na lista de vigilância extremista dos serviços de segurança do estado alemão em nome da AfD.

Tirando as lições desses eventos, e após a denúncia de uma conferência eugenista (a “London Conference on Intelligence”) na University College London em janeiro de 2018, que contou com a participação de vários acadêmicos britânicos, a seção britânica do CIQI iniciou uma luta de amplo alcance contra o renascimento da ideologia darwinista social e eugenista, especialmente em conexão com o ex-pesquisador de Oxford Noah Carl.

O WSWS e o Partido Socialista pela Igualdade explicaram em uma série de artigos e em duas reuniões públicas que o ressurgimento dessas ideias estava ligado a uma campanha internacional de revanchismo de direita nos campi universitários em resposta ao aumento da desigualdade social, ao acirramento das tensões inter-imperialistas e ao ressurgimento global da luta de classes. “O retorno da eugenia e do darwinismo social”, escrevemos, “é o produto de imensas mudanças nas forças sociais e nos poderosos interesses da classe dominante, que exigem um clima intelectual cada vez mais de direita.”

Em fevereiro deste ano, o WSWS observou que os “eugenistas dos tempos modernos encontraram um aliado no governo anti-migrante e ferozmente elitista do Partido Conservador de Johnson”.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, em uma coletiva de imprensa sobre a reposta do governo à COVID-19

Johnson disse ao Centro de Estudos de Política em 2013: “O que quer que você pense sobre o valor dos testes de QI, é certamente relevante para uma discussão sobre igualdade que até 16% das pessoas de nossa espécie tenham um QI abaixo de 85”. No mesmo ano, como o prefeito de Londres que se encontrava regularmente com bilionários, Johnson escreveu um artigo para o Telegraph dizendo que os “super-ricos” pertencem a “três categorias bastante exclusivas de seres humanos”. Eles “tendem a estar bem acima da média” em “raciocínios matemáticos, científicos ou pelo menos lógicos”.

Falando no Centro de Justiça Social em 2016, o ex-líder conservador, Iain Duncan Smith, o arquiteto da ofensiva contra a previdência social e defensor do aumento da idade de aposentadoria para 75 anos, disse que a previdência social “aprisionou indivíduos ... e criou uma subclasse crescente”.

O principal conselheiro de Johnson, Dominic Cummings, escreveu um trabalho para o Secretário de Educação, Michael Gove, defendendo que, como a inteligência era de origem predominantemente genética, financiar uma educação bem estruturada para as crianças da classe trabalhadora era inútil. Cummings foi responsável pela contratação do autodeclarado eugenista Andrew Sabisky como consultor especial do governo em fevereiro. Sabisky participou, ao lado de supremacistas brancos e fascistas, da “London Conference on Intelligence”. Vários acadêmicos britânicos e o colunista de direita Toby Young, que havia sido indicado para chefiar o órgão de supervisão estudantil do governo em janeiro de 2018, também participaram do evento.

No final de 2018, o vice-presidente do Partido Conservador para a Juventude, Ben Bradley, afirmou em um blog que o Reino Unido logo estaria “se afogando em um vasto mar de perdedores desempregados”, dizendo também às famílias mais pobres: “Desculpe, mas quantos filhos você tem é uma escolha; se você não tem dinheiro para eles, pare de tê-los! As vasectomias são grátis.”

O WSWS comentou, após a contratação de Sabisky, que em todos os casos essa ideologia “ganhou destaque na classe dominante em resposta ao acirramento da luta de classes diante de uma profunda crise capitalista”. Essa resposta possui o objetivo fundamental de ser a arma ideológica contra o marxismo e o movimento socialista – insistindo que a desigualdade social possui uma origem biológica, não social – e suas consequências são a negação, a repressão e a divisão racial da classe trabalhadora. ... Essa sujeira reacionária é o produto de uma podridão profunda nas políticas da classe dominante, que assumem cada vez mais um caráter fascista”.

Nos últimos três meses, esse processo, que começou nas profundezas da sociedade burguesa, entrou em erupção e apareceu como uma questão mundial que milhões de pessoas estão agora enfrentando.

Para a classe dominante representada por Johnson, a pandemia é uma “catástrofe malthusiana” inevitável e em grande parte benéfica; um “controle” da população que filtrará os “excedentes” e os “inaptos”. O contínuo perigo enfrentado pela classe trabalhadora, especialmente de suas seções mais mal pagas e com complicações de saúde, é a transformação de casas de repouso em campos de morte e a impossibilidade de se oferecer as necessidades essenciais aos idosos e doentes isolados em casa, o que equivalem a crimes sociais enraizados nessa abominável ideologia de classe.

Suas consequências têm sido mais evidentes e horrivelmente expostas no abandono dos idosos. Na última sexta-feira, o Guardian revelou que o governo havia rejeitado um plano da Public Health England, a agência responsável pela saúde pública inglesa, para um lockdown mais seguro das casas de repouso, e para tornar os inutilizados hospitais Nightingale do Reino Unido disponíveis para a quarentena e cuidados de seus residentes. Sua proposta foi apresentada em 28 de abril, quando ficou muito claro que o setor estava sendo dizimado pelo coronavírus.

O governo ignorou o destino de mais de 400 mil idosos porque os considera, na linguagem do Terceiro Reich, “comedores vazios”. Logo no início da crise, o editor assistente do Telegraph e colunista destacado de negócios e economia, Jeremy Warner, escreveu: “De uma perspectiva econômica totalmente desinteressada, a COVID-19 pode até se mostrar suavemente benéfica a longo prazo ao eliminar desproporcionalmente os dependentes idosos”.

Tudo isso tem sido realizado sem a oposição de qualquer setor da elite dominante, ou ainda de seus funcionários na imprensa, nos sindicatos e no Partido Trabalhista.

O mesmo está acontecendo em todo o mundo. Na Alemanha, políticos e figuras da imprensa, incluindo representantes do partido A Esquerda, que estão defendendo o retorno ao trabalho em aliança com neonazistas, estão cuspindo no direito à vida. O presidente dos EUA, Donald Trump, está realizando uma reabertura total da economia e abandonando medidas de saúde pública em aliança com o Partido Democrata. O governo socialdemocrata da Suécia e sua política de imunidade de rebanho, que resultou numa das mais altas taxas de mortalidade per capita do mundo, têm sido citados repetidamente como o modelo a ser seguido.

A pandemia do coronavírus expôs uma classe dominante em estado de decadência terminal, que perdeu qualquer direito de governar e que responde a crises com teorias assassinas “desenterradas de um cemitério medieval”, como escreveu Trotsky sobre o fascismo dos anos 1930. Uma solução racional e humana para essa catástrofe mundial e suas consequências dependem da força progressista da sociedade, a classe trabalhadora internacional, cumprindo sua missão revolucionária e colocando essas forças sociais retrógradas para descansar através de uma luta consciente pelo socialismo.