Defensores das políticas raciais têm reação hostil a protestos multirraciais contra o assassinato policial de George Floyd

Por Nick Barrickman
13 Junho 2020

Publicado originalmente em 10 de Junho de 2020

O movimento de massas contra a violência policial que irrompeu após o assassinato de George Floyd pela polícia em Minneapolis expôs o caráter reacionário e anti-operário das políticas raciais.

Os protestos nos Estados Unidos e ao redor do mundo têm sido marcados por seu caráter multirracial e multiétnico. Eles têm demonstrado o profundo compromisso da ampla massa de trabalhadores e jovens com a luta contra o racismo e em defesa dos direitos democráticos. Também evidenciaram o ódio popular, não só a Trump, mas a todo o sistema capitalista.

Entretanto, a imagem de centenas de milhares de jovens e trabalhadores, brancos e negros, marchando lado a lado para exigir o fim da violência policial e da discriminação racial, aterrorizou os dirigentes do Partido Democrata e seus aliados defensores do nacionalismo negro.

Em um comentário particularmente sórdido na The Nation, intitulado "Só há uma conclusão possível: a América branca gosta de seus policiais assassinos", Elie Mystal, o "correspondente jurídico" da revista, declarou em 27 de maio: "A polícia nunca

Manifestantes marcham na ponte do Brooklyn, em Nova Iorque, em uma das crescentes manifestações internacionais contra a violência policial, 9 de junho de 2020. (AP Photo/ Frank Franklin II)

vai parar voluntariamente de matar negros e pardos. Os assassinatos seguirão ocorrendo até que a maioria dos brancos deste país faça os assassinatos parar".

Ele acrescenta: "A polícia trabalha para os brancos, e os policiais sabem disso. Os brancos também sabem. No fundo, os brancos sabem exatamente quem a polícia deve proteger e servir, e sabem muito bem que não são pessoas negras e pardas".

Mystal culpa as "pessoas brancas" pelos assassinatos racistas da polícia. Supostamente, o apoio ativo ou velado dos brancos é o responsável pela violência mortal da polícia.

Na mesma linha, Ibram Kendi, professor da Universidade Americana e autor de How to be an anti-racist (Como ser um antirracista), declarou ontem: "Temos muitos norte-americanos entupidos de ideias racistas e as ideias racistas os impedem de perceber que estão entupidos, os impedem de saber que o poder racista está fazendo chover ideias racistas sobre suas cabeças".

Isso não é apenas uma calúnia contra a grande maioria dos trabalhadores e jovens brancos, que se opõem ao racismo e estão indignados com os assassinatos cometidos por policiais, mas também obscurece a verdadeira fonte do racismo e da violência policial em geral – o sistema capitalista e seu aparato de Estado.

A polícia não é um grupo de pessoas qualquer e não representa uma raça. A polícia é um braço do Estado capitalista, os "destacamentos especiais de homens armados" que defendem a propriedade, a riqueza e o poder da classe dominante corporativo-financeira, reprimindo a oposição da classe trabalhadora à exploração e à desigualdade social. Eles são recrutados entre as camadas mais atrasadas da sociedade e são doutrinados a desprezar os trabalhadores e pobres. O racismo, uma velha ferramenta da classe capitalista para dividir a classe trabalhadora, é disseminado entre as forças armadas que servem aos oligarcas que governam a sociedade.

As estatísticas mostram que, apesar de um número desproporcional de afro-americanos ser vítima de violência e assassinatos policiais, a maioria dos mortos pela polícia nos EUA são brancos. Segundo o agregador online killbypolice.net, das 429 pessoas baleadas e mortas pela polícia este ano, mais de 170 são brancas, uma maioria, enquanto 88 são listadas como negras.

Outros têm buscado taxar os brancos que participam dos protestos como "agitadores externos". A jornalista do New York Times Nikole Hannah-Jones, autora principal do desacreditado "Projeto 1619" lançado pelo Times no verão passado, tuitou em 30 de maio que "há pessoas nessas revoltas que estão se aproveitando do sofrimento negro para espalhar a destruição. Nós, como jornalistas, temos histórias mais profundas a contar".

Depois, Hannah-Jones especificou que as "pessoas" a que ela se referia eram brancas. "Manifestantes brancos que estão quebrando cidades negras não são aliados", escreveu ela.

O "Projeto 1619" buscava apresentar toda a história dos EUA como a luta do povo negro contra o racismo, que está incorporado "no DNA" da América "branca". No decorrer dessa falsificação histórica, Hannah-Jones retratou a Revolução Americana como uma conspiração de senhores de escravos para preservar a escravidão contra os movimentos britânicos por sua abolição, denunciou Lincoln como racista e ignorou o fato de que a escravidão foi abolida através de uma Guerra Civil na qual centenas de milhares de brancos morreram.

Em uma entrevista coletiva no final do mês passado, convocada para anunciar a imposição de um toque de recolher, o prefeito de Detroit, Mike Duggan, o chefe de polícia, James Craig, e um grupo de supostos "ativistas" denunciaram a presença de "suburbanos" (ou seja, jovens de áreas predominantemente brancas da periferia de Detroit) em protestos multirraciais realizados naquele fim de semana.

Falando do palanque, Raymond Winans, CEO do "Keeping Them Alive" (Os Mantendo Vivos), denunciou os "suburbanos" que "infiltram-se em nossa cidade" para tumultuar e saquear. Denunciando as tentativas de "destruir o sistema" e professando seu "amor" pelo departamento de polícia, declarou: "Nunca nos venderemos, mas iremos lucrar".

Em entrevista ao programa "Meet the Press" da NBC, no dia 31 de maio, a prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, denunciou a "multidão muito diversa" que compareceu à manifestação contra a brutalidade policial em sua cidade no dia anterior. "O que eu sei sobre Atlanta é que este protesto, mesmo do ponto de vista físico, não se parecia com nossos protestos normais", reclamou ela.

As autoridades do Partido Democrata e os nacionalistas negros que atacam os protestos a partir de uma perspectiva racial, muitas vezes usando a mesma linguagem do governo Trump, estão auxiliando os esforços da polícia em reprimir e pôr fim a estes protestos. Trabalhadores e jovens que apoiam a luta para acabar com a violência policial devem se perguntar: "A que interesses essas forças estão servindo?".

O surgimento de um movimento multirracial de massas contra a violência policial e o racismo representa uma ameaça a todo o sistema político dos Estados Unidos. Nos últimos 50 anos, a classe dominante, politicamente através do Partido Democrata, mas também através da mídia e da academia, tem promovido a política racial com o objetivo de dividir a classe trabalhadora e ofuscar as questões de classe mais fundamentais que dominam a sociedade capitalista.

A classe dominante elevou uma camada de negros à gestão de governos municipais e, com Obama, à Casa Branca, e cultivou um estreito setor de afro-americanos de classe média alta e burgueses em postos de poder corporativos, na polícia, no exército e em outras instituições do Estado capitalista. A política racial e identitária tornou-se um pilar ideológico e político do domínio capitalista.

Nada disso reduziu a pobreza e a opressão enfrentadas pela grande maioria da população afro-americana. Pelo contrário, a adição de mais negros aos departamentos policiais, aos corredores do Congresso e em Wall Street foi acompanhada de uma piora das condições econômicas e sociais dos trabalhadores e jovens negros.

A estratificação da riqueza entre os membros mais ricos e mais pobres da população afro-americana é uma das mais altas entre os países desenvolvidos. De acordo com estatísticas de 2017, os 10% mais ricos da população afro-americana controlam mais de 75% de toda a riqueza dos afro-americanos, enquanto os 50% mais pobres possuem riqueza negativa, ou zero. A desigualdade disparou durante a presidência de Barack Obama, quando o 1% mais rico dos afro-americanos dobrou sua parcela da riqueza, de 19,4% para 40,5%.

A desigualdade social cresce de forma explosiva entre toda a população. Os Estados Unidos são uma sociedade oligárquica e uma sociedade assim é incompatível com direitos democráticos.

Ao passo que a desigualdade e a pobreza se tornaram mais acentuadas, a brutalidade da polícia aumentou. Nas últimas décadas, a polícia tem sido sistematicamente militarizada e transformada, na prática, em esquadrões da morte ocupando as comunidades da classe trabalhadora.

O governo Obama expandiu a militarização policial através de políticas como o programa 1033 do Departamento de Defesa. Esse programa entrega o "excesso" de armamentos militares aos departamentos policiais. Até 2015, ele havia transferido mais de US$ 5,1 bilhões em armas dos militares para as forças policiais domésticas. Durante a presidência de Trump esse número só aumentou.

Os promotores da política racial expressam os interesses de uma camada rica e privilegiada que tem se beneficiado do crescimento da desigualdade social e do empobrecimento das massas trabalhadoras. Essa camada, que faz parte dos 10% mais ricos, tem interesse declarado em defender o sistema capitalista. Busca apenas uma parcela maior da riqueza monopolizada pelos cinco por cento e um por cento mais ricos para si mesma. Está aterrorizada com o desenvolvimento de um movimento de massas unificado da classe trabalhadora contra o sistema capitalista, razão pela qual se alinha, objetivamente, com o lado oposto das barricadas da classe trabalhadora, tanto negra quanto branca.