Perspectivas para a revolução americana por vir: Raça, classe e a luta pelo socialismo

Por Joseph Kishore
12 Junho 2020

Publicado originalmente em 2 de dezembro de 2019

Esta é uma versão editada da apresentação feita por Joseph Kishore, Secretário Nacional do Partido Socialista pela Igualdade, aencontros realizados em Michigan e na Califórnia tratando do “Projeto 1619” do New York Times.

Apresentação de Kishore.

O título deste encontro é “Perspectivas para a revolução americana por vir”. Ele parte da compreensão, tida por um número cada vez maior de trabalhadores e jovens de todo o mundo, de que vivemos um período revolucionário.

“A característica mais geral de uma revolução”, escreveu Trotsky em sua História da Revolução Russa, “é a intervenção direta das massas nos acontecimentos históricos. Em tempos normais, o Estado, seja ele monárquico ou democrático, se eleva sobre a nação e a história é feita por especialistas nesse ramo – reis, ministros, burocratas, parlamentares, jornalistas. Porém, nesses momentos cruciais, quando a velha ordem deixa de ser tolerável para as massas, elas rompem as barreiras que a excluem da arena política, varrem para longe seus representantes tradicionais e criam, através de sua intervenção, as bases iniciais para um novo regime.”

Estamos adentrando agora um período como esse. Num comentário recente, publicado pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, um importante centro de inteligência geoestratégica da classe dominante norte-americana, Samuel Brannen, o diretor do “Grupo de Riscos e Previsões”, define o período atual como “A era das revoluções sem liderança”. Ele aponta para os protestos e levantes de massa ocorridos nas últimas semanas no Líbano, Iraque, Chile, Espanha, Hong Kong, Equador, Honduras, Haiti, Egito e Argélia.

Brannen não o menciona, mas devemos adicionar o crescimento significativo da luta de classes aqui nos Estados Unidos, incluindo as grandes greves do mês passado dos operários da GM e dos professores de Chicago. Pesquisas mostram que existe, sobretudo entre os jovens, uma forte movimentação para a esquerda e crescente interesse no socialismo e hostilidade ao capitalismo.

“O mundo está passando”, escreveu Brannen, “pelo momento de instabilidade daquilo que o meu falecido colega, Zbigniew Brzezinski, identificou em 2008 como um 'despertar político global' – uma revolução avassaladora como nunca antes vista”. Esse “despertar” é impulsionado pela conexão da população mundial em níveis sem precedentes. “A capacidade de indivíduos unirem, inspirarem e coordenarem milhões nas ruas não tem precedentes.”

Brannen alerta: “Os riscos e implicações são imensos para governos, negócios e organizações de todos os tipos. É uma questão de quando, e não de se, a flash mob digital atingirá os que estão no poder.”

Brannen define, apesar de tudo, essas revoluções como “sem direção” e tem esperança de que “podem ser cooptadas para… o bem”, ou seja, canalizadas de forma a não ameaçar os interesses da elite dominante.

A questão da liderança é, na verdade, a questão principal. Como Trotsky afirmou em 1938, “a crise histórica da humanidade se reduz à crise da direção revolucionária”. Construir uma liderança, desenvolver na classe trabalhadora e na juventude um movimento consciente de seus objetivos, é um processo complexo. Requer uma luta prolongada contra todos aqueles que tentarão poluir a consciência, “cooptar” e desviar a revolta e a oposição social.

O “Projeto 1619” do Times

É nesse contexto que o Partido Socialista pela Igualdade e a Juventude e Estudantes Internacionais pela Igualdade Socialista decidiram organizar uma série de encontros a respeito do “Projeto 1619” do New York Times. Entender e combater as concepções lançadas por esse “projeto”, que está sendo promovido agressivamente por escolas e universidades de todo o país, é de enorme importância para a classe trabalhadora e a juventude.

O que está em jogo é uma forma de revisionismo histórico e de política contemporânea que visam estabelecer raça como a categoria social e política central – buscando, na realidade, promover conflitos raciais. No exato momento em que massas de trabalhadores e jovens ao redor do mundo inteiro entram em luta por questões de classe, existe um esforço consciente em dividir e desorientar.

É necessário afirmar desde o princípio: não existe nada de esquerda em relação a essa campanha. Ela possui mais em comum com a reação fascista de Donald Trump do que com qualquer coisa tradicionalmente associada a políticas progressistas.

O argumento do Times é que o problema central dos Estados Unidos, historicamente e na atualidade, sua “raíz”, é o “racismo que, até hoje, não fomos capazes de expurgar desta nação”, nas palavras de Nikole Hanna-Jones, a autora principal do projeto do Times. “Racismo contra os negros corre no DNA deste país”, ela escreve.

Esse “pecado original” da sociedade norte-americana é “endêmico” – isto é, é uma doença incorporada a um povo específico, que não foi e, consequentemente, jamais poderá ser eliminada. Numa reunião na Universidade de Nova Iorque, em 18 de novembro, Hannah-Jones declarou que o racismo entre as pessoas brancas é uma “psicose”, supostamente enterrada nas profundezas da mente irracional dos brancos.

Não se trata apenas da existência do racismo, mas do conflito entre raças ser a questão fundamental e mais persistente. Para o Times, a história dos Estados Unidos é uma história de luta entre raças, entre o “povo branco” – que como um todo se beneficiou da opressão do “povo negro”, primeiro pela escravidão, depois pela segregação e hoje pela “supremacia branca” – e suas vítimas negras. A história é definida em termos do conflito racial, com a existência de interesses comuns apenas entre indivíduos categorizados na mesma raça.

Não será possível analisar num só encontro todas as falsificações históricas derivadas dessa análise. Já publicamos no World Socialist Web Site respostas detalhadas às leituras do Times sobre a Revolução Americana e a Guerra Civil, dois eventos monumentais da história mundial, que iniciaram e completaram a revolução democrático-burguesa nos Estados Unidos da América. (Ver: “Escravidão e a Revolução Americana: Uma Resposta ao Projeto 1619 do New York Times” e “O 'Conflito Irrefreável': Escravidão, a Guerra Civil e a Segunda Revolução Americana”). Também publicamos três excelentes entrevistas com os especialistas na história norte-americana, James McPherson, James Oakes e Victoria Bynum discutindo esses temas. Um aspecto da atitude do Times em relação a essas revoluções é importante de ser ressaltado – nomeadamente, a hostilidade demonstrada por sua interpretação da história ao Iluminismo. O Iluminismo foi a revolução intelectual e política do pensamento derivada dos imensos avanços científicos alcançados durante os séculos XVI e XVII, que enfatizou a capacidade dos seres humanos de compreenderem o mundo através da razão e de reconstruí-lo sobre bases racionais. As duas figuras da história norte-americana mais associadas ao Iluminismo –Jefferson e Lincoln – são os dois alvos específicos da falsificação histórica do Times.

Ibram Kendi, em seu livro Stamped from the Beginning: The Definitive History of Racist Ideas in America (Marcado desde o Início: a História Definitiva das Ideias Racistas na América), que é uma grande inspiração ao Projeto 1619, denegre o Iluminismo como uma “metáfora para a europeidade e, portanto, para a branquitude… As ideias iluministas deram legitimidade à 'parcialidade' racista de longa data, de um lado a conexão entre luz, branquitude e razão e, de outro, entre escuridão, negritude e ignorância” [Stamped from the Beginning, pp. 80-81].

Essa hostilidade ao Iluminismo tem origens na extrema direita, e não na esquerda, mas se liga ao desprezo pela racionalidade e pelos princípios democráticos que caracterizam a pseudoesquerda moderna, um tema que retomarei.

Para aplicar sua narrativa da história sobre o final do século XIX e ao longo século XX, o Times foi obrigado a ignorar completamente e encobrir as profundas transformações sociais e políticas que tornaram os escravos libertos em uma seção fundamental da classe trabalhadora. É preciso varrer da história a história da luta de classes e, portanto, a história da classe trabalhadora afro-americana.

Na versão da história do Times, a classe trabalhadora simplesmente não existe. A palavra “classe” não aparece em nenhum ponto do ensaio histórico introdutório de Hannah-Jones. O termo “americanos brancos” aparece 15 vezes, “povo branco” 19 vezes, “americanos negros” 28 vezes e “povo negro”, 43 vezes. Contudo, “classe trabalhadora” não aparece uma única vez.

Se fôssemos basear um currículo educacional na versão do Times, como escolas e faculdades de todo o país têm sido pressionadas a fazer, essa nova “narrativa” da história norte-americana eliminaria qualquer referência às batalhas de classe violentas e insurrecionais que caracterizaram o capitalismo norte-americano desde que emergiu completamente nas décadas posteriores à Guerra Civil. O propósito é tanto separar trabalhadores e jovens dessas tradições da luta de classes como estabelecer uma narrativa alternativa, de um conflito racial duradouro e sem fim.

Não faz parte da versão do Times qualquer menção ao Movimento Populista no sul dos EUA que, nas décadas posteriores à Guerra Civil, buscou unir os negros libertos ao brancos pobres. O Times não pode, portanto, explicar as origens da segregação Jim Crow e do KKK, que foram a resposta consciente da classe dominante à ameaça de uma aliança entre brancos e negros. Não há menção a Tom Watson, o líder do movimento Populista, que já no início de sua carreira política dirigia seus apelos a ambas as raças:

Vocês são forçados a se odiarem porque esse ódio é a base de sustentação do despotismo financeiro que escraviza a ambos. Vocês foram iludidos e cegados para não enxergarem como esse antagonismo de raça perpetua um sistema monetário que leva ambos à miséria. [Citado em The Strange Career of Jim Crow, p. 63]

O historiador do Sul dos EUA, C. Vann Woodward, observou em sua análise fundamental das origens e desenvolvimento da segregação Jim Crow, The Strange Career of Jim Crow (A Estranha Carreira de Jim Crow), que o surgimento e desenvolvimento do movimento populista demonstrou que as políticas de segregação e racismo não foram produto dos “imutáveis costumes populares sulistas” e que “a crença de que eles são imutáveis e inalteráveis não possuem sustentação histórica”. [Ibid., p. 65]

A promoção deliberada e sistemática das divisões raciais, incluindo a utilização do KKK como o braço de combate dos reacionários sulistas do Partido Democrata, tinha raízes tanto no medo da revolta social como na emergência do imperialismo norte-americano no fim do século XIX. As aventuras militares que marcaram esse início, começando com a Guerra Hispano-Americana de 1898, explica Woodward, “trouxeram subitamente sob a jurisdição dos Estados Unidos cerca de oito milhões de pessoas de raças de cor, 'uma gama variada de raças inferiores', como a Nação as descreveu, 'que, é claro, não poderiam ser permitidas a votar'”.

No exato momento em que o imperialismo varria o país, a doutrina do racismo chegou ao ápice de aceitação e popularidade entre círculos acadêmicos e intelectuais de respeito. No país e fora dele, biólogos, sociólogos, antropólogos e historiadores, bem como jornalistas e escritores, apoiaram a doutrina das raças enquanto entidades separadas e a “anglo-saxã” ou “caucasiana” enquanto a superior entre todas. [Ibid., 73-74]

Para se referir a qualquer uma das monumentais lutas de classes que ocorreram no período posterior à Guerra Civil, começando pela Grande Greve Ferroviária de 1877 até as greves com ocupação de fábrica dos anos 1930, o Times seria obrigado a reconhecer que a luta contra a desigualdade social – e a luta contra o racismo — se centraram na luta pela unificação da classe trabalhadora contra as corporações e contra o capitalismo.

O Times não faz qualquer menção aos Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, na sigla em inglês), que foi criado em 1905 e organizou uma série de lutas e greves combativas na primeira parte do século XX. Em sua convenção de fundação, em junho de 1905, Big Bill Haywood chamou a organização do IWW, em referência à Revolução Americana, de o “Congresso Continental da classe trabalhadora”.

A "Federação Americana do Trabalho (AFL na sigla em inglês)", afirmou Haywood, “que presume ser o movimento trabalhista deste país, não é um movimento da classe trabalhadora. Ela não representa a classe trabalhadora. Existem organizações que são afiliadas, mesmo que frouxamente, à AFL que em suas constituições e regulamentos proíbem o ingresso ou a atribuição de responsabilidades a um homem de cor; que proíbem a atribuição de responsabilidades a estrangeiros. O que nós queremos estabelecer desta vez é uma organização trabalhista que abra suas portas a todo homem que ganha sua vida, seja através de seu cérebro, ou de seus músculos”. [Ver: “Convenção de inauguração do IWW”]

O Times não faz qualquer menção à fundação do Partido Socialista da América, em 1901. O líder do Partido Socialista, Eugene Debs, declarou em 1903: “Já disse uma vez e repito que, propriamente falando, não existe questão negra por fora da questão trabalhista – da luta da classe trabalhadora… Nossa posição como socialistas e como um partido é perfeitamente clara. Nós simplesmente dizemos: 'a luta de classes não tem cor'. Os capitalistas, brancos, negros, e de outros tons, estão de um lado e os trabalhadores, brancos, negros e de todas as cores, estão do outro.” [Debs, “The Negro in the Class Struggle”]

Não existe espaço, em nenhuma parte da revisão da história norte-americana feita pelo Times, para uma discussão sobre a “Grande Migração” de trabalhadores afro-americanos para o Norte, o surgimento do Congresso das Organizações Industriais (CIO, na sigla em inglês) e as monumentais batalhas de classe dos anos 1930 e 1940, que exigiram uma luta pela unificação da classe trabalhadora contra os esforços da classe dominante de dividi-la por linhagens étnicas e raciais. A respeito das mudanças na consciência dos trabalhadores forjadas por essas lutas, o grande líder socialista, James P. Cannon, o fundador do trotskismo norte-americano, escreveu:

O capitalismo norte-americano pegou centenas de milhares de negros do Sul e, explorando sua ignorância, sua pobreza, seus medos e sua impotência individual, os mandou para as fábricas de aço com o papel de fura-greves durante a greve metalúrgica de 1919. E no curto espaço de uma geração, através dos maus tratos, abusos e exploração desses ignorantes e inocentes fura-greves negros, esse mesmo capitalismo foi capaz de transformar eles e seus filhos nos destacamentos mais combativos e confiáveis da grande greve vitoriosa dos metalúrgicos de 1946.

Esse mesmo capitalismo pegou dezenas de milhares e centenas de milhares de caipiraspreconceituosos do Sul, muitos deles membros e simpatizantes do Ku Klux Klan; e pensando em usá-los, com sua ignorância e seus preconceitos, como uma barreira contra o sindicalismo, os tragou para dentro das fábricas automotivas e da indústria da borracha de Detroit, Akron e outros centros industriais. Lá os levaram à exaustão, os humilharam e os coagiram e exploraram até que finalmente os modificaram e fizeram deles novos homens. Nessa dura escola, os sulistas importados aprenderam a trocar a insígnia do KKK pelo broche sindical do CIO e a transformar a cruz de fogo dos homens do Klan numa fogueira para aquecer os piquetes no portão da fábrica. [Cannon, “The Coming American Revolution”]

E, é claro, não existe espaço para o impacto mundial da Revolução Russa, que inspirou milhões de trabalhadores a convocarem a unidade de toda a classe trabalhadora, de todas as raças e nacionalidades, na luta contra a opressão capitalista e contra a guerra imperialista. O chamado que concluía o Manifesto Comunista, “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”, foi realizado na prática pela classe trabalhadora russa, dirigida pelo Partido Bolchevique de Lenin e Trotsky. A Revolução Russa teve um impacto poderoso sobre a consciência de trabalhadores de todas as raças nos Estados Unidos.

Do Movimento dos Direitos Civis às Ações Afirmativas

Nada disso pode ser mencionado pois destrói completamente a alegação de que os Estados Unidos estão atravessados por antagonismos raciais irreconciliáveis e de que os trabalhadores brancos são irremediavelmente racistas.

Para compreender as origens e a função política das concepções promovidas pelo Times é necessário entender a forma como a classe dominante e, em particular, o Partido Democrata, respondeu à ameaça da revolução social que surgiu no século XX. Nos anos 1930, com o exemplo da Revolução Russa fresco em suas mentes e em meio a um levante crescente da classe trabalhadora nos EUA, o liberalismo americano, sob a gestão de Franklin Roosevelt, criou o New Deal, uma agenda reformista que impôs restrições ao poder do grande capital.

Como Trotsky explicou na época, “a riqueza dos Estados Unidos permite a Roosevelt fazer seus experimentos”.

No entanto, já em meados dos anos 1940, sob o impacto da Segunda Guerra Mundial, o liberalismo tinha começado a mudar. Alan Brinkley, em seu livro The End of Reform (O Fim da Reforma), observa que, em 1945, as políticas do Partido Democrata começavam a se deslocar “de uma preocupação com a 'reforma' (com um conjunto de questões essencialmente de classe, centradas em confrontar o problema do monopólio e da desordem econômica) a uma preocupação com 'direitos' (um compromisso com as liberdades e direitos individuais e, portanto, com a libertação de pessoas e grupos oprimidos). O liberalismo 'baseado em direitos' foi, em alguns aspectos, parte de um recuo de uma ampla gama de questões econômicas envolvendo a estrutura da economia industrial e a distribuição de riqueza e poder no seu interior". [The End of Reform, p. 170]

Contudo, as políticas da classe dominante após a Segunda Guerra Mundial ainda mantiveram medidas significativas de redistribuição, incluindo altos impostos sobre os ricos. Sob os governos Truman e Eisenhower, a taxa marginal de imposto mais alta sobre o setor mais rico dos norte-americanos era de 90 por cento. Em 1964, Lyndon B. Johnson anunciou que o combate à pobreza seria “a prova do sucesso do nosso sistema”, isto é do capitalismo, o que foi seguido pela introdução do Medicare, Medicaid e vales-alimentação.

Esse foi, no final das contas, o último suspiro do liberalismo norte-americano. Ao fim dos anos 1960, o boom do pós-guerra começava a desmoronar e as políticas do Partido Democrata e da classe dominante como um todo deram uma nova guinada à direita. A “Grande Sociedade” e a “Guerra à Pobreza” naufragaram com a Guerra do Vietnam e com o prolongado declínio da posição global do capitalismo norte-americano. O período de reformas sociais significativas revelou-se curto demais.

A guinada a uma política de contrarrevolução social coincidiu com uma estratégia deliberada de alçar setores da classe média pertencentes às minorias sociais às instituições de dominação de classe.

Em relação a este ponto, é crucial entender a importância da transformação ocorrida nos anos 1960 e 1970, do movimento dos Direitos Civis às políticas identitárias. O movimento dos Direitos Civis foi parte de uma onda mais ampla de agitação social nos Estados Unidos dos anos 1960, incluindo um forte movimento grevista da classe trabalhadora, um movimento de protestos contra a Guerra do Vietnam e levantes nos guetos das grandes cidades norte-americanas.

É um fato gritante que, num ensaio supostamente dedicado à história das relações raciais nos Estados Unidos, Hannah-Jones praticamente não mencione o movimento dos Direitos Civis. O nome de Martin Luther King Jr. não aparece e nem o de Malcom X.

Isso ocorre por uma boa razão. Os escritos de King desse período, por si só, refutam a narrativa racialista do Times que coloca todos os “brancos norte-americanos” e o “povo branco” do lado da reação racista e da intolerância, se beneficiando e apoiando o linchamento de negros.

Em um discurso perante a convenção da AFL-CIO em 1961, King atacou aqueles que insistiam nas “diferenças intrínsecas” entre as raças. “Não existe diferença intrínseca, como tentei demonstrar. As diferenças foram forjadas por pessoas de fora, que tentam impor a desunião, dividindo irmãos por suas peles terem tons de cor diferentes”. [Discurso perante a Quarta Convenção Constitucional da Federação Americana do Trabalho-Congresso das Organizações Industriais, Bal Harbour, Florida, 11 de dezembro de 1961]

Escrevendo em 1964, King observou que a maioria dos brancos ao redor dos EUA apoiava os direitos ao voto, moradia e escolas e restaurantes integrados em todo o país. Ele propôs, nesse mesmo ano, uma “Carta de Direitos aos Desfavorecidos”. Ele argumentou: “A justificativa moral para medidas especiais aos negros tem suas raízes nos roubos inerentes à instituição da escravidão. Muitos brancos pobres, contudo, foram vítimas derivadas da escravidão [novamente, o contrário do que diz o Times]. Enquanto o valor da mão-de-obra foi barateado pela servidão involuntária do negro, a liberdade da mão-de-obra branca, especialmente no Sul, não passou de um mito… Até hoje, o branco pobre continua sofrendo a privação e humilhação decorrentes da pobreza, se não da cor. Eles estão acorrentados ao peso da discriminação, apesar de não serem marcados por seu selo degradante.” [Why We Can't Wait, pp. 128-29]

A Campanha dos Pobres de 1968 tentou envolver especificamente os trabalhadores brancos do Sul e de Appalachia. Ao mesmo tempo, King se pronunciou de forma mais agressiva contra a Guerra do Vietnam. Ele foi assassinado em 4 de abril de 1968.

King era um social democrata, não um marxista. Ele expressava o ponto de vista de que, por meio de reformas capitalistas, seria possível garantir emprego e direitos sociais básicos a todos os trabalhadores, independente da raça, na “nação mais rica do planeta”. Ao fim dos anos 1960, contudo, a posição relativa do capitalismo norte-americano já começava seu prolongado declínio.

Três anos após o assassinato de King, o governo Nixon acabou com a convertibilidade entre dólar e ouro, a pedra angular do sistema monetário de Bretton Woods criado ao fim da Segunda Guerra Mundial.

À medida que a classe dominante passou à ofensiva, iniciando a destruição de todos as conquistas obtidas pelos trabalhadores num período anterior, ela adotou de forma consciente uma política de integração e elevação de um setor privilegiado da classe média-alta a posições de poder.

A política foi anunciada por ninguém menos que Richard Nixon, que declarou em resposta às rebeliões urbanas do final dos anos 60 que “os americanos negros – tanto quanto os americanos brancos — não querem novos programas governamentais... Eles querem o orgulho, o respeito próprio e a dignidade que só podem vir se tiverem uma chance igual de possuírem suas casas, seus próprios negócios, de serem gerentes e executivos, assim como trabalhadores, de terem uma parte da ação nos empreendimentos emocionantes da iniciativa privada.” [Discurso ao aceitar a nomeação do Partido Republicano, 8 de agosto de 1968]

O New York Times, expressando o consenso que se formava no interior da classe dominante, declarou que a proposta de Nixon “em relação à necessidade de se desenvolver o capitalismo negro e a propriedade nos guetos pode se provar mais construtiva do que qualquer outra coisa já dita por outros candidatos presidenciais sobre a crise urbana”.

Assim começaram as políticas de Ação Afirmativa e cotas raciais, de promoção de uma camada de empresários e políticos negros para presidir um gigantesco aumento da desigualdade social. Nixon expressou a opinião de que “mais cedo ou mais tarde precisamos trazer aqueles que ameaçam [a paz interna] de volta ao sistema”. Ele criou, através de uma ordem executiva, o Gabinete de Empreendimentos Comerciais das Minorias para este fim. Nos anos seguintes, uma camada da classe média negra foi apontada a posições de poder político, incluindo Coleman Young, que se tornou prefeito de Detroit e, nos vinte anos seguintes, supervisionou uma enorme desindustrialização da cidade.

Uma década após a eleição de Nixon em 1968, a Suprema Corte sustentou pela primeira vez as políticas de Ação Afirmativa no caso Califórniavs.Bakke, em 1978. O Ministro da Suprema Corte, Thurgood Marshall, argumentou que, em sua opinião, “É devido a um legado de tratamento desigual que agora devemos permitir que as instituições desta sociedade levem o critério de raça em consideração na tomada de decisões sobre quem ocupará cargos de influência, afluência e prestígio nos Estados Unidos.”

Ou seja, não a igualdade social, mas a distribuição igualitária de posições de poder e “afluência” entre raças e grupos minoritários. Não programas para a ascensão de toda a população pobre, ou para melhorar as condições de toda a classe trabalhadora, mas a ascensão seletiva de uma pequena minoria para presidir a desindustrialização e a destruição das condições de vida da grande maioria.

Esse foi um fenômeno internacional. Em uma análise das medidas de Ação Afirmativa nos EUA, Índia e África do Sul, o economista da Universidade de Michigan, Thomas Weisskopf, observou: “A finalidade mais importante que pode ser alcançada por meio da [discriminação positiva] com base étnica para o ingresso às [instituições de ensino superior] não é a redistribuição das oportunidades educacionais dos ricos para os pobres. É, ao contrário, a redução de diferenciais identitários no acesso a estratos superiores da sociedade, ou seja, integração à elite social.” [“Rethinking Affirmative Action in Admissions to Higher Educational Institutions,citado em For Discrimination: Race, Affirmative Action, and the Law, Randall Kennedy, p. 86]

Já no final da década de 1970, o impacto dessas e outras medidas adotadas pela classe dominante havia produzido um crescimento significativo da desigualdade social entre os afro-americanos.

O sociólogo negro William Julius Wilson observou, já em 1978, no mesmo ano da decisão de Bakke e uma década depois do assassinato de King, o desenvolvimento de “uma cisão econômica cada vez mais profunda... na comunidade negra, com os negros pobres despencando cada vez mais abaixo dos negros de renda média e alta... A classe tornou-se mais importante do que a raça na determinação das oportunidades de vida dos negros”. [“TheDecliningSignificanceofRace:BlacksandChangingAmerican Institutions”, citado em OneNationDivisible:Class,RaceandEthnicityinthe UnitedStatesSince1938, p. 273]

Tais concepções continuam no centro da política do Partido Democrata hoje. O candidato do Partido Democrata, Cory Booker, afirmou isso abertamente em uma entrevista ao “Democracy Now” na semana passada, quando criticou “muitas pessoas [que] querem falar com você sobre a disparidade de renda, a disparidade de renda, a disparidade de renda. Veja, há muitas pessoas na minha comunidade que querem ser empreendedoras, que querem ser milionárias. Então eu falo sempre da disparidade de renda, sim, mas o que precisamos mesmo falar é da disparidade de oportunidades e garantir que todos tenham oportunidades iguais de iniciar um negócio, ser inovadores, participar do novo boom de empregos do futuro e dos novos negócios do futuro.”

As origens políticas e teóricas da política racialista

A mudança na política da classe dominante, da reforma à contrarrevolução social, coincidiu e foi parte de um movimento à direita dentro de setores da classe média-alta de todas as raças. A promoção de uma política baseada na identidade de raça e gênero tornou-se a marca distintiva dos intelectuais pseudoesquerdistas e ex-marxistas que responderam à onda de agitação social e luta de classes entre 1968 e 1975 com o repúdio a qualquer associação com políticas da classe trabalhadora.

Aqui têm sua origem a “teoria da interseccionalidade”, “teoria racial crítica”, “política identitária”, “estudos da branquitude” e escolas associadas. O fundamento teórico dessas tendências tem suas raízes na rejeição idealista do marxismo.

O grande avanço alcançado pelo marxismo foi a concepção materialista da história, a compreensão de que a sociedade se baseia em modos de produção definidos e, às fases do desenvolvimento desses modos de produção, correspondem relações sociais definidas, isto é, relações de classe. Particularmente, a sociedade capitalista moderna se caracteriza pela propriedade privada dos meios de produção, que estão nas mãos, sobretudo, dos proprietários dos bancos e gigantescas corporações.

A classe trabalhadora se unifica enquanto classe a partir de sua relação com tal processo de produção. É essa classe de pessoas, hoje a maioria da população mundial, que é obrigada a vender sua força de trabalho no mercado por um salário. A unidade fundamental da classe trabalhadora através das nacionalidades, raças, etnias, gêneros ou qualquer outra categoria, é definida por essa relação.

As políticas de raça e identidade não partem do processo produtivo e dos interesses objetivos determinados, independentemente do pensamento, por esse processo de produção. Elas partem das divisões raciais. E qual é a origem do próprio racismo? É “endêmico”, é o “pecado original”, está incorporado ao “DNA” dos brancos, segundo o Times. A história não é a transição de uma forma de organização social a outra – da escravidão ao feudalismo, depois ao capitalismo e, finalmente, ao socialismo – mas simplesmente formas diferentes da persistência eterna dos antagonismos raciais.

Um documento importante, que marca o repúdio dos grupos de classe média ao marxismo e à orientação à classe trabalhadora, é a declaração do chamado Coletivo Combahee River, uma organização feminista lésbica negra formada em 1974 e liderada por Barbara Smith, Demita Frazier e Beverly Smith. Publicada em abril de 1977, um ano antes da decisão de Bakke, a declaração alegava ser uma extensão da teoria marxista, mas, na realidade, era um repúdio direto a todas suas concepções fundamentais.

Até hoje, a declaração do Combahee, que utilizou pela primeira vez o termo “política identitária”, é constantemente citada por organizações da pseudoesquerda como um importante ponto de viragem. Ela foi publicada como a peça central de um livro de 2017 (HowWeGetFree ­– Como nos libertarmos) de Keeanga-Yamahtta Taylor, um professor titular da Universidade de Princeton e, na época, um dos principais membros da Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês), que se dissolveu no Partido Democrata no início deste ano. Os vários parlamentares dos Socialistas Democráticos da América que se focam nas questões de raça e gênero citam essa declaração como um documento essencial.

O objetivo do coletivo, disseram as autoras, era desenvolver uma “análise e prática integradas, com base no fato de que os principais sistemas de opressão estão interligados”. Porém, as “opressões” mais significativas seriam aquelas baseadas na raça e gênero. “A relação extremamente negativa das mulheres negras com o sistema político norte-americano (um sistema de dominação masculina branca) esteve desde sempre determinada pelo nosso pertencimento a duas castas, raciais e sexuais, oprimidas… As mulheres negras sempre incorporaram, ao menos na sua manifestação física, uma posição adversária à dominação do homem branco.”

Demonstrando o caráter auto-obcecado da nova política da classe média-alta, as autoras escreveram: “O enfoque em nossa própria opressão é parte do conceito da política identitária. Acreditamos que a política mais profunda e potencialmente mais radical parte diretamente de nossa própria identidade, em oposição ao trabalho para acabar com a opressão de outra pessoa.”

O objetivo não era a igualdade social e libertação de toda a humanidade, mas o meu próprio avanço pessoal, alavancando várias categorias identitárias para atingir posições de poder e privilégio. Ocorre uma analogia com as motivações sociais por trás da ascensão da burocracia stalinista e seus ataques ao programa e à perspectiva da revolução permanente.

“Nem tudo para a revolução mundial”, disse Trotsky em relação ao pensamento do funcionário estatal soviético, “eu também mereço um pouco”.

A declaração do Combahee conclui com o seguinte, que resume sua atitude não apenas em relação aos trabalhadores brancos, mas à classe trabalhadora como um todo: “Em sua introdução a Sisterhood is Powerful (A Sororidade é Poderosa),Robin Morgan escreve: 'Não tenho a mínima ideia do papel revolucionário que os homens brancos heterossexuais poderiam desempenhar, uma vez que eles são a própria personificação do poder dos interesses-reacionários-estabelecidos.”

Os pobres brancos, e particularmente homens brancos, foram classificados sob a ampla categoria de “dominação do homem branco”. O “povo branco”, irremediavelmente racista, é a “personificação do poder dos interesses-reacionários-estabelecidos”.

Considerem o período em que isso foi escrito. O coletivo Combahee foi formado em 1974, o ano do maior movimento grevista nos Estados Unidos desde a década de 1950, incluindo uma greve de 28 dias dos mineiros de carvão na Virgínia Ocidental e outros estados. A declaração foi escrita menos de um ano antes da greve dos mineiros de carvão de 1977-78, que desafiou a implementação da lei antissindical Taft-Hartley pelo governo de Jimmy Carter, do Partido Democrata. Os trabalhadores envolvidos nessas lutas e muitas outras eram em sua maioria homens brancos. Eles não eram, nessas ocasiões, parte do “poder dos interesses-reacionários-estabelecidos”? Seu esforço para manter seus empregos e condições de vida eram uma expressão de um anseio por “privilégio branco”?

A rejeição à política baseada em classe, e com isso uma oposição cada vez mais frontal de setores da dita “esquerda” às concepções teóricas do marxismo, foi um fenômeno internacional. A proeminência adquirida por figuras como Michel Foucault na França, um grande inspirador da interseccionalidade e da teoria racial crítica, foi parte de um afastamento mais amplo do marxismo.

Foucault, um discípulo do stalinista Louis Althusser e ex-membro do Partido Comunista Francês, desenvolveu nos anos 1960 e 1970 um enfoque teórico que rejeitava a primazia do conflito de classes em favor da “multiplicidade de relações de força imanentes da esfera em que operam” [As Palavras e as Coisas, 1966]. Foucault rejeitou a noção de uma verdade objetiva, existente fora da linguagem e do “discurso”. Verdade e poder se constroem através da linguagem, através de ideias, ao invés de existirem nas relações materiais de produção.

“Relações de força” baseadas em raça ou outras categorias, condicionadas pelo pensamento, não são menos fundamentais – na verdade são mais fundamentais – do que a exploração inerente ao sistema capitalista, que em todo caso não se pode afirmar que exista fora da linguagem e do “discurso”. Ele considerou inválido falar dos interesses objetivos de uma classe, uma vez que não existem “relações de força” existentes fora da construção que fazemos delas por meio da linguagem.

Essas concepções foram parte de uma rejeição mais ampla de políticas enraizadas nas relações de classe. O “socialismo”, na medida em que a palavra mantinha algum significado, deveria estar separado da luta de classes, dos interesses da classe trabalhadora. Ernest Laclau e Chantal Mouffe em seu influente livro, HegemoniaeEstragiaSocialista,de 1985, escreveram: “O que está agora em crise é toda uma concepção de socialismo que se baseia na centralidade ontológica da classe trabalhadora, no papel da Revolução, com 'r' maiúsculo, como o momento fundador da transição de um tipo de sociedade a outro...”. [Hegemony and Socialist Strategy, p. 2]

As bases sociais da política identitária da pseudoesquerda

As concepções teóricas desenvolvidas pelos novos proponentes das políticas raciais e de gênero se ancoraram em interesses sociais definidos, o interesse de uma camada privilegiada da classe média-alta, incluindo, mas não de forma exclusiva, os professores titulares que povoam os departamentos de humanas das grandes universidades, onde o anti-marxismo se tornou uma exigência da profissão.

As últimas quatro décadas presenciaram uma redistribuição maciça da riqueza da classe trabalhadora de todas as raças para os ricos. Desde 1980, a parcela da renda nacional norte-americana destinada aos 50% mais pobres da população caiu de 20% para 12%, enquanto a parcela da renda do 1% mais rico aumentou de 12% a 20%.

Contudo, o crescimento constante das bolsas de valores e a intensificação da exploração da classe trabalhadora beneficiaram mais do que os super-ricos. Uma camada da classe média-alta, os “9% seguintes”, ou seja, os 10% mais ricos excluindo o 1% do topo, também foi beneficiada. Essa camada, com renda superior a US$ 150.000 por ano, viu sua participação na renda nacional crescer, de 23% em 1970, a quase 28% hoje. [Piketty e Saez, 2017]

O crescimento da desigualdade entre as minorias sociais é particularmente significativo. Os 10% mais ricos dos afro-americanos possuem 75,3% da riqueza de todos os afro-americanos, e o 1% mais rico possui 40,5%. Os 60% mais pobres juntos possuem patrimônio líquido zero. Esse número cresceu massivamente desde o início da década de 1990, quando a parcela da riqueza que ia para o 1% mais rico dos afro-americanos era menor que 25%.

No final de seu ensaio, Hannah-Jones declara que, ao longo do último meio século, “os negros norte-americanos fizeram progressos surpreendentes, não apenas para nós mesmos, mas também para todos os norte-americanos”. A grande maioria dos “negros americanos”, assim como a grande maioria da classe trabalhadora em geral, sofreu, na realidade, um retrocesso histórico de seus padrões de vida. Uma pequena parcela, no entanto, teve um “progresso” significativo.

Em 1957, o sociólogo E. Franklin Frazier escreveu sobre a “burguesia negra”, uma análise inicial sobre a camada emergente de negros de classe média e média-alta. As condições de vida da elite negra se elevaram a níveis que superam imensamente aqueles prevalecentes na época de Frazier. As perspectivas dessa “burguesia negra” é expressa por indivíduos como Ta-Nehisi Coates, cujo livro We Were Eight Years in Power (Estivemos Oito Anos no Poder)é uma celebração da gestão Obama, que supervisionou a maior transferência de riqueza da classe trabalhadora aos ricos de toda a história dos EUA.

A política de raça, gênero e outras formas de identidade é a política da classe média-alta, de todas as raças e gêneros. É um mecanismo para dividir a classe trabalhadora, subordinando-a à política de direita e pró-guerra do Partido Democrata e é um mecanismo para promover disputas encarniçadas entre os 10% mais ricos por cargos na academia, nas salas de reunião das grandes corporações e no Estado.

No período posterior à dissolução da União Soviética, essa camada da classe média-alta foi mais à direita, repudiando abertamente qualquer ligação com o socialismo e com a oposição ao imperialismo. A reformulação do Times da história norte-americana com base em diretrizes raciais é inteiramente compatível com seu apoio total aos militares e à CIA no atual conflito interno no aparelho de Estado. Não só o apoio ao imperialismo dos EUA é congruente com a promoção agressiva da política racialista da pseudoesquerda de reescrita da história americana, como ambos estão ligados umbilicalmente.

O caráter direitista da política racialista

As concepções teóricas e políticas promovidas por essa camada não têm absolutamente nada em comum com uma política de “esquerda”. Na verdade, a perspectiva irracionalista, anti-iluminista, antimarxista e antioperária cultivada ao longo dos últimos cinquenta anos alinhou a pseudoesquerda cada vez mais às concepções e políticas da extrema-direita. A obsessão pela raça, a interpretação da história a partir dos conflitos raciais, a categorização da sociedade em “América branca” e “América negra”, “povo branco” e “povo negro” – essa não é a linguagem da esquerda, da reforma social progressista e, muito menos, da revolução socialista.

Foi o aristocrata francês, Artur de Gobineau, um grande influenciador de Hitler e dos ideólogos nazistas, que desenvolveu da forma mais consistente, em meados do século XIX, a teoria racialista da história. O historiador Richard Wolin, em um livro que analisa o “romance intelectual” dos pós-modernistas com fascismo, observa que “a estratégia engenhosa de Gobineau era restabelecer uma visão de mundo contra-iluminista com base em fundamentos pseudocientíficos, empregando o conceito de raça como eixo universal do desenvolvimento histórico. Taxonomias dos tipos humanos com base racial já eram amplamente utilizadas por antropólogos e historiadores naturais. Mas Gobineau foi o primeiro a aplicar a raça de forma sistemática ao estudo da história, enquanto uma espécie de código secreto”. [Richard Wolin, TheSeductionofUnreason, pp. 289-90]

E o que é o Projeto 1619 do Timessenão um esforço em “aplicar sistematicamente a raça ao estudo da história”? Wolin também nota que os teóricos da "Nova Direita" se adaptaram à linguagem e ao estilo da pseudoesquerda. A Nova Direita na França, escreve ele, “mudou sua ênfase do conceito de 'raça' para o de 'cultura'”. Abandonando argumentos obsoletos do racismo biológico, ela se moveu na direção do que pode se chamar de racismo cultural...

Soando como um liberal, de Benoist [teórico da Nova Direita] abraçou o que poderia ser melhor descrito como um “racismo diferencialista”, não hierárquico. Nenhuma cultura seria intrinsecamente melhor do que qualquer outra. Mas todas seriam “diferentes” e essas diferenças deveriam ser respeitadas e preservadas. Em termos práticos, isso significava que o lugar onde os argelinos deveriam gozar de liberdades civis era a Argélia. “A França para os franceses” – um velho slogan racista usado no caso Dreyfus (e ressuscitado nos anos 1930) – Europa para os europeus, e assim por diante. Como explicou de Benoist no início dos anos 1980, “A verdade é que as pessoas devem preservar e cultivar suas diferenças... A imigração merece ser condenada pois ataca a identidade da cultura anfitriã assim como a identidade dos imigrantes.” [Ibid, p. 268]

O que separa tal concepção da posição de Stacey Abrams, uma estrela em ascensão no Partido Democrata, que escreveu numa defesa das políticas identitárias, publicada na Foreign Affairs, no início deste ano, que os grupos raciais possuem “diferenças intrínsecas”? Isso não quer dizer que o Partido Democrata seja uma organização fascista. No entanto, as ideias têm consequências, ou melhor, as ideias políticas refletem o movimento de forças sociais. E as forças sociais por trás da política de divisão racial são forças de direita.

A insistência num abismo intransponível entre negros e brancos não reflete a realidade. Embora o racismo exista, as atitudes em relação à raça transformaram-se enormemente ao longo do último meio século. A globalização integrou a classe trabalhadora de todo o mundo num único processo de produção. As massas de trabalhadores e jovens que estão sendo levadas à luta ao redor do mundo não se motivam por questões centradas em raça, gênero, idade, orientação sexual ou qualquer outra identidade, mas por questões de classe. O foco obsessivo do Times e do Partido Democrata em raça e divisões raciais só pode beneficiar Trump e seus auxiliares fascistas.

A situação mundial está repleta de imensos perigos, mas também de imensas possibilidades. O governo Trump é parte da ascensão de forças de extrema-direita e fascistas em todo o mundo. Diante da crescente agitação social, as elites dominantes recorrem cada vez mais abertamente a métodos autoritários de governo, ressuscitando toda a sujeira política do século XX. Os antagonismos geopolíticos estão aumentando e as elites dominantes de todos os principais países capitalistas estão se remilitarizando em preparação para a guerra mundial.

Uma outra força social, no entanto, está emergindo – a classe trabalhadora. Na luta contra a desigualdade social, a guerra e o autoritarismo, a classe trabalhadora e a juventude não podem se deixar subordinar a nenhuma facção da elite dominante. A classe trabalhadora não pode permitir ser dividida por segmentos nacionais ou raciais. Ela precisa rejeitar o chauvinismo de Trump bem como a política racial dos Democratas.

A luta pelo direito ao emprego, à saúde, à educação pública, a uma renda suficiente, a uma aposentadoria segura; a luta contra a guerra e o autoritarismo; a luta contra o retorno do fascismo são lutas contra o capitalismo e pelo socialismo. Elas demandam um ataque frontal à riqueza e aos privilégios da elite corporativa e financeira, uma redistribuição maciça da riqueza e a transformação dos gigantescos bancos e corporações em utilidades de controle público, geridos com base na necessidade social e não no lucro privado.

Contra os proponentes do conflito e divisão racial, a classe trabalhadora deve responder com os métodos da guerra de classes e da revolução socialista.