A luta dos trabalhadores contra a GM, Ford e Chrysler requer uma estratégia global

14 Setembro 2019

Publicado originalmente em 11 de Setembro de 2019

Em 14 de setembro, vencerá o contrato de trabalho de quatro anos de 158.000 trabalhadores da General Motors (GM), Ford e Fiat Chrysler nos EUA.

Os trabalhadores da indústria automotiva estão dispostos a lutar contra os baixos salários, a proliferação do trabalho temporário mal pago e o ataque aos empregos e benefícios. No início deste mês, 96% dos trabalhadores votaram para iniciar o que poderá ser a primeira grande greve nacional de trabalhadores automotivos desde 1976.

A poucos dias do vencimento do contrato, os trabalhadores enfrentam uma situação extraordinária. Nos últimos meses, uma investigação federal revelou um amplo esquema de corrupção envolvendo o Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (UAW, na sigla em inglês) e as empresas automotivas. Os principais dirigentes sindicais, incluindo o presidente do UAW, enfrentam a possibilidade de sofrerem acusações criminais.

Enquanto os trabalhadores dos EUA se preparam para essa batalha, 10.000 trabalhadores da GM na Coreia do Sul estão participando da primeira grande greve no país em 22 anos. A paralisação de três dias afetou as fábricas da GM em Incheon, a oeste de Seul, e Changwon, a cerda de 400 km da capital, bem como o centro técnico da GM. A GM tem realizado repetidas ameaças dizendo que as fábricas fecharão porque a mão de obra é muito cara.

Trabalhadores automotivos em greve na Coreia do Sul (AP Photo – Ahn Young-joon)

Como parte de seu plano de reestruturação global, a GM fechou sua linha de montagem na cidade de Gunsan em maio de 2018, eliminando 2.000 empregos na produção e milhares mais em indústrias relacionadas. Com o apoio do Sindicato dos Metalúrgicos da Coreia do Sul (KMWU), a GM congelou salários e bônus e aumentou as cotas de produção para aumentar a lucratividade.

Nas negociações atuais, a GM está exigindo uma extensão do congelamento salarial. Em uma visita à Coreia do Sul no mês passado, o vice-presidente de operações internacionais da GM disse que a empresa estava “extremamente decepcionada” com a greve planejada e mudaria a produção de veículos para suas fábricas em outros países para compensar a paralisação dos trabalhadores. Ele também ameaçou os trabalhadores dizendo que a GM iria reconsiderar levar a produção de futuros modelos para suas plantas na Coreia do Sul.

Na América do Norte, trabalhadores da GM no gigantesco complexo industrial de Silao, no centro do México, informaram na segunda-feira que a administração da empresa está acelerando a produção e punindo os trabalhadores militantes que resistem. Os trabalhadores dizem que a aceleração faz parte da estratégia internacional da GM de aumentar a produção das picapes altamente lucrativas da empresa antes de uma possível greve nos EUA.

Os trabalhadores mexicanos estão sendo punidos porque se recusam a quebrar as greves para a GM. Um dos trabalhadores demitidos, Israel Cervantes, disse ao World Socialist Web Site que “esperamos apoiar as pessoas nos EUA e obter apoio de lá”. Um colega de trabalho acrescentou que uma luta conjunta com trabalhadores dos EUA “seria uma ótima estratégia”.

As lutas dos trabalhadores automotivos estão ocorrendo em meio a um crescimento significativo dos conflitos sociais e da luta de classes em todo o mundo, desde os protestos em massa em Porto Rico e Hong Kong até a greve desta semana de 4.000 pilotos da British Airways.

Os trabalhadores estão começando a se dar conta que não é possível combater as corporações globais nos limites de seus próprios países. No início deste ano, 70.000 trabalhadores que produzem autopeças e eletrônicos em fábricas maquiladoras na cidade de Matamoros, no México, revoltaram-se contra os sindicatos, criaram comitês de greve e realizaram greves selvagens. Apelando à solidariedade dos trabalhadores dos EUA, os grevistas marcharam para a fronteira dos EUA perto da cidade de Brownsville, no Texas, cantando: “Gringos, acordem!”.

O objetivo dos trabalhadores de unificar e coordenar suas lutas através das fronteiras nacionais é o antídoto mais poderoso contra o nacionalismo e a xenofobia nocivos promovidos pelos governos capitalistas, desde Trump nos EUA e os governos de extrema direita na Europa até o governo Modi na Índia e o Congresso Nacional Africano na África do Sul.

A raiva dos trabalhadores está fervendo. Mas a luta que virá deve ser guiada por uma estratégia internacional e socialista consciente.

As montadoras e os ricos investidores certamente possuem uma estratégia global. Eles decidem alocar a produção onde os sindicatos oferecem uma mão de obra mais barata e utilizam suas operações globais para minar o impacto de uma greve em qualquer país. A GM, Ford, VW e Nissan estão realizando uma ampla reestruturação de suas operações, fechando fábricas e demitindo dezenas de milhares de trabalhadores para vencerem a brutal competição das concorrentes e dominarem tanto os mercados em declínio quanto os de novas tecnologias, como de veículos elétricos e autônomos.

A expansão das montadoras na China, Índia e outros “mercados emergentes” já está secando devido aos crescentes conflitos comerciais e à recessão global. Centenas de milhares de trabalhadores automotivos na China e na Índia já perderam seus empregos.

A GM registrou lucros de US$ 11,8 bilhões em 2018 e canalizou mais de US$ 25 bilhões para os acionistas através da recompra de ações e do pagamento de dividendos nos últimos seis anos. Mas isso não é o suficiente. Na segunda-feira, a Moody’s rebaixou a nota de crédito da Ford para a categoria “lixo”, deixando claro que Wall Street quer que as montadoras continuem reduzindo os custos trabalhistas. Isso inclui a expansão da mão de obra temporária e o corte dos benefícios de saúde dos trabalhadores automotivos, que a Forbes recentemente denunciou como “o último vestígio do quase-socialismo que dominou a indústria automotiva dos EUA por 100 anos”.

Os trabalhadores automotivos em todo o mundo estão conectados por um processo global de produção. Não existe um veículo “feito nos EUA”, assim como não existe um veículo mexicano ou chinês. O icônico Ford Mustang é montado em Flat Rock, no estado de Michigan, com peças da China, França, Reino Unido e México. Entre 8 e 9 milhões de trabalhadores estão ligados em uma cadeia global de suprimentos e produção altamente complexa, espalhada por pelo menos 62 países.

A integração internacional do trabalho de milhões de trabalhadores em todo o mundo oferece aos trabalhadores uma imensa vantagem, se entenderem como utilizá-la.

Os trabalhadores automotivos nos EUA e ao redor do mundo devem romper o domínio dos sindicatos corporativistas e nacionalistas, construindo novas organizações de luta, os comitês de base nas fábricas controlados democraticamente pelos trabalhadores.

A corrupção em massa do UAW não é simplesmente o produto das ações de dirigentes sindicais individuais. É a expressão mais grotesca da transformação dos sindicatos em instrumentos de gestão das empresas. Enraizados em uma perspectiva nacionalista e pró-capitalista, os sindicatos responderam à globalização da produção colaborando com as empresas na redução das condições de vida da classe trabalhadora.

Por décadas, o UAW vendeu a mentira de que trabalhadores estrangeiros estão “roubando empregos nos EUA”, enquanto conspiram com as empresas para reduzir os custos trabalhistas e transformar os trabalhadores estadunidenses em uma força de trabalho descartável e barata. Em troca, as empresas subornaram os dirigentes do UAW em milhões de dólares para que eles assinassem e impusessem acordos que beneficiassem as empresas.

Em todos os países, os trabalhadores da indústria automotiva enfrentam a sabotagem dos sindicatos, que se baseiam em uma perspectiva nacional obsoleta e defendem o sistema de lucro capitalista. Ao invés de unir os trabalhadores que lutam contra as corporações transnacionais através das fronteiras, o UAW, o Unifor no Canadá, o IG Metall na Alemanha, o KMWU na Coreia do Sul e o resto dos sindicatos fazem o possível para dividir os trabalhadores em diferentes nacionalidades.

Os trabalhadores nos EUA só podem estabelecer ligações com os trabalhadores no Canadá, México, Coréia do Sul e lutar contra as empresas transnacionais se livrarem-se dos sindicatos. Nessa luta, o Comitê Internacional da Quarta Internacional fará o possível para ajudar os trabalhadores a coordenarem suas lutas e armar-lhes com a perspectiva política e a liderança revolucionária necessárias para abolir a exploração capitalista de uma vez por todas.

Jerry White