A Convenção dos Socialistas Democráticos dos EUA: um truque de marketing para o Partido Democrata

Por Joseph Kishore
7 Setembro 2019

Publicado originalmente em 30 de Agosto de 2019

Os Socialistas Democráticos dos EUA (DSA, na sigla em inglês) realizaram sua convenção bianual entre 2 e 4 de agosto em Atlanta, na Geórgia. A convenção, realizada por uma organização aparentemente “socialista”, não passou de um truque de marketing para o Partido Democrata e sua política de direita.

Os DSA estão divididos por conflitos entre frações em torno da distribuição de recursos da organização, a relativa prioridade de campanhas eleitorais nacionais, por um lado, e as operações políticas locais, por outro, e outras questões táticas. A revista Jacobin, afiliada aos DSA, comentou que o nível de tensão era tão alto antes da convenção que “muitos membros dos DSA estavam ansiosos para saber se a organização ainda existiria após o final de semana”.

Os conflitos internos estão ligados ao fato de os DSA terem se tornado um grupo abrangente para uma ampla gama de organizações que orbitam dentro e ao redor do Partido Democrata, incluindo a Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês), que se dissolveu no início deste ano. Há batalhas intensas sobre quem recebe o quê. No entanto, não há diferenças políticas fundamentais em relação à orientação básica e à função política dos DSA.

O que foi mais impressionante no evento foi o nível abissalmente baixo de discussão e a complacência que prevaleceu durante seus três dias. Não houve uma análise séria da situação política nos Estados Unidos e no mundo, nem a apresentação de uma plataforma política ou um programa para os próprios DSA. De fato, no início deste ano, a direção dos DSA decidiu adiar a elaboração de uma plataforma política, e a convenção de agosto votou pela apresentação dessa plataforma para a próxima convenção – em 2021.

As considerações iniciais da organizadora nacional Maria Svart felicitaram os ganhos organizacionais e eleitorais dos DSA, incluindo a eleição de Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib para o Congresso dos EUA, ambas membras da organização. Svart não disse nada sobre as circunstâncias políticas em que a convenção estava sendo realizada – incluindo a ascensão de movimentos de extrema direita e fascistas em todo o mundo, o significado e o caráter do governo Trump, o perigo da guerra mundial, a perseguição a Julian Assange e o ataque aos direitos democráticos ou as crescentes lutas da classe trabalhadora ao redor do mundo.

O verdadeiro papel do Partido Democrata como facilitador político do governo Trump, obviamente, não foi mencionado, nem foi objeto de discussão em nenhum momento da convenção.

Os três dias da convenção foram dedicados à revisão de dezenas de resoluções apresentadas pelas várias frações da organização. As resoluções mais significativas adotadas estavam relacionadas ao modo como os DSA estão desenvolvendo suas relações políticas dentro do Partido Democrata. Em particular, a estratégia que prevaleceu foi a apoiada pela fração Bread & Roses (Pão e Rosas) dos DSA, que é ligada à revista Jacobin (publicada por Bhaskar Sunkara).

A resolução de “eleição de luta de classes” dessa fração chama o apoio a candidatos (do Partido Democrata) que “se identificam abertamente como socialistas”. Segundo ela, os DSA “estão comprometidos em construir uma organização política independente do Partido Democrata e seus doadores capitalistas”, o que, no entanto, “não descarta o apoio dos DSA a candidatos que concorrem taticamente pelo Partido Democrata”. Será necessário um partido independente, mas isso só acontecerá em algum momento no futuro distante.

A revista Jacobin e Sunkara batizaram essa fraude política com um termo apropriadamente banal, a “ruptura suja”. O objetivo é tentar manter a credibilidade política dos DSA entre a juventude que está desiludida com o Partido Democrata e, ao mesmo tempo, dirigi-la aos democratas.

Na verdade, os DSA não têm a intenção de romper com o Partido Democrata, de maneira suja ou não. De fato, a mesma resolução chama a “construção de um DSA forte para a campanha de Bernie [Sanders]”, e a revista Jacobin se transformou em grande medida em um órgão de sua campanha eleitoral.

O objetivo explícito de Sanders, como ele afirmou muitas vezes, é incentivar os trabalhadores e a juventude a apoiarem o Partido Democrata. Ele disse o seguinte em abril:

Vamos esclarecer as coisas. Sou membro da liderança democrata do Senado dos Estados Unidos. Tenho sido membro do comitê democrata no Senado nos últimos 13 anos, fui do comitê democrata da Câmara por 16 anos e ganhei a indicação democrata no meu estado. Mas em Vermont eu escolhi concorrer como candidato independente, o que aconteceu há muito, muito tempo ...

[A] verdade é que mais e mais pessoas estão desencantadas com os programas republicano e democrata. E especialmente os jovens. Eles estão se registrando como independentes ou como não afiliados. E acho que, como alguém que era independente, podemos trazê-los para o Partido Democrata.

Sanders é um elemento-chave da liderança do Partido Democrata, que nos últimos três anos trabalhou para desviar a oposição em massa a Donald Trump por trás da agenda militarista de extrema-direita dos democratas. O apoio total dos DSA a Sanders – incluindo três cargos de tempo integral dedicados ao trabalho da campanha eleitoral – é apenas um esforço de retaguarda para ajudar Sanders nessa operação política.

Outra resolução promete que os DSA não apoiarão oficialmente outro candidato do Partido Democrata que não seja Sanders, a quem a organização já declarou apoio no início deste ano. No entanto, isso é politicamente sem sentido. O próprio Sunkara disse em maio que, no caso de Sanders perder nas primárias, “a mentalidade deve ser chamar as pessoas a votarem em Joe Biden, especialmente em estados decisivos” e “evitar um terceiro candidato”.

Uma terceira resolução na mesma linha exige uma petição para exortar Sanders a adotar uma “Plataforma de Política Externa do Povo”, que não alterará em nada suas posições. O aspecto mais significativo da resolução é que ela não diz nada sobre a campanha anti-Rússia do Partido Democrata ou sobre as medidas de guerra comercial do governo Trump contra a China, ambas apoiadas por Sanders. Ela também não menciona acabar com as guerras no Iraque e no Afeganistão, ou o fim da operação de mudança de regime na Síria, que é liderada pelos democratas.

A guerra e a política externa foram quase completamente excluídas da discussão ao longo dos três dias da convenção, o que ajudou a evitar referências desagradáveis ao fato de as membras dos DSA, Ocasio-Cortez e Tlaib, terem recentemente votado a favor de um orçamento recorde de US$ 738 bilhões para as forças armadas dos EUA.

Mesmo em comparação com outras organizações políticas que serviram para direcionar a oposição por trás do Partido Democrata, os DSA são caracterizados por impulsionar descaradamente esse partido capitalista burguês.

A segunda categoria de resoluções está relacionada às operações dos DSA dentro e em apoio aos sindicatos. A “estratégia de base”, apoiada pela fração Bread & Roses, novamente venceu, embora por uma pequena minoria. No entanto, não houve diferenças significativas entre nenhuma das resoluções, pois todas elas têm como premissa apoiar os sindicatos, que têm sido instrumentais na supressão da luta de classes há décadas.

A resolução associa os DSA a uma estratégia há muito tempo promovida pela Labour Notes, da qual fazem parte sindicalistas associados a frações “dissidentes” dentro dos sindicatos, como o Teamsters for a Democratic Union (TDU). O fundador do TDU, Dan La Botz, membro de longa data do Solidariedade, agora é membro dos DSA.

A estratégia de “base” chama os membros dos DSA a trabalharem em indústrias com sindicatos e tornarem-se dirigentes e organizadores dessas organizações, ou que ajudem a estabelecer afiliados dos sindicatos existentes onde não estão presentes.

Sob o disfarce de “transformar o movimento dos trabalhadores” e construir uma “classe trabalhadora organizada”, o objetivo dessa estratégia é expandir a base financeira para os executivos corruptos e anti-classe trabalhadora que controlam os sindicatos ou elevar membros dos DSA a cargos executivos.

Entre os palestrantes em destaque na convenção dos DSA estava Sara Nelson, presidente da Associação de Comissários de Bordo (salário anual: US$ 164.000). Nelson, uma importante defensora de Hillary Clinton em 2016, foi apresentada como candidata substituta de Richard Trumka à presidência da AFL-CIO. Seu discurso convocou todos os presentes a se “juntarem aos sindicatos, participarem dos sindicatos”.

O foco principal dos DSA e da Jacobin têm sido as lutas dos professores, onde os DSA estão promovendo o Núcleo de Educadores de Base (CORE, na sigla em inglês), que inclui a atual direção do Sindicato dos Professores de Chicago (CTU, na sigla em inglês). O presidente do CTU é Jesse Sharkey, ex-membro da ISO. Em 2012, o CTU e a ISO foram fundamentais para acabar com a greve dos professores de Chicago a partir de um acordo apoiado pelo então prefeito Rahm Emanuel, que levou rapidamente ao fechamento de dezenas de escolas.

Ao longo do último ano, os DSA têm tido um papel cada vez mais importante em ajudar os sindicatos combatendo a oposição da classe trabalhadora, principalmente entre os professores. Na Virgínia Ocidental, quando os professores se rebelaram contra o sindicato e iniciaram uma greve selvagem em fevereiro do ano passado, os DSA e a Jacobin correram para reforçar a credibilidade da Associação dos Professores da Virgínia Ocidental. Em janeiro deste ano, o Sindicato dos Professores de Los Angeles, liderado por uma fração apoiada pelos DSA, celebrou um acordo traiçoeiro elaborado pelos principais democratas do estado da Califórnia, dando aos professores apenas algumas horas para lerem o contrato antes de colocá-lo em votação.

Nenhuma resolução mencionou o escândalo de corrupção envolvendo o Sindicato dos Trabalhadores Automotivos (UAW, na sigla em inglês), que nas últimas semanas alcançou seu presidente, Gary Jones.

Para terminar, uma palavra deve ser acrescentada sobre a forma da convenção, que foi permeada pelas políticas de identidade. Esse aspecto da convenção se tornou o foco de grande parte da cobertura da mídia, que foi atacado pela direita por ver os absurdos envolvidos como uma oportunidade de denunciar o socialismo.

A oposição inflexível ao uso da palavra “homens” e outras “linguagens de gênero”, as objeções a um homem que questionou uma moção relacionada ao abuso de profissionais do sexo, a exigência de que todo orador dê o pronome com o qual prefere ser identificado – isso tudo reflete um ambiente de classe média no qual tudo gira em torno de raça e gênero.

Essa política é agora um componente instrumental da política do Partido Democrata. Isso não tem nada a ver com a oposição ao governo Trump, ou com o combate ao racismo e outras formas de desigualdade. É, antes de tudo, um instrumento para suprimir as questões de classe básicas envolvidas, dividir os trabalhadores entre si e desenvolver uma base na classe média alta para políticas de direita e militaristas.

Essa é a função básica dos DSA. Uma vez que há trabalhadores e jovens que são atraídos pelos DSA a partir da crença equivocada que a organização tem algo a ver com o socialismo, o papel deles é transformar esses trabalhadores e jovens em eleitores do Partido Democrata ou em organizadores não remunerados dos dirigentes sindicais. Nesse processo, os líderes dos DSA esperam ser alavancados a posições de poder e privilégio.

Isso está tão longe do socialismo quanto o homem da Lua.