Conferência “Socialismo 2019”: uma operação do Partido Democrata

Por Alexander Fangmann
13 Julho 2019

Publicado originalmente em 4 de Julho de 2019

A Conferência “Socialismo” deste ano será realizada novamente em Chicago entre 4 e 7 de julho. Ao contrário dos anos anteriores, a Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês) não é mais uma patrocinadora oficial do evento, tendo decidido se dissolver em março. A conferência está sendo supervisionada pelos Socialistas Democráticos dos EUA (DSA, na sigla em inglês), pela revista Jacobin, ligada aos DSA, que havia sido anteriormente uma co-patrocinadora do evento, e pela Haymarket Books, a antiga editora da ISO.

Como o WSWS explicou em abril, a decisão da ISO de se dissolver tinha como objetivo remover quaisquer barreiras organizacionais para se integrar à política do Partido Democrata. A ISO sempre funcionou como uma fração externa do Partido Democrata. Após a dissolução extremamente rápida, no entanto, os principais membros aproveitaram a oportunidade para ingressar nos DSA, principalmente com o objetivo de fazer valer os interesses da política externa do Departamento de Estado e o estrangulamento dos sindicatos dentro da organização.

Os DSA estão agora desempenhando um papel crítico ao fornecer uma cobertura de “esquerda” para o Partido Democrata, mesmo quando todo o establishment político se move para a direita. Existe um ódio generalizado e justificável das políticas fascistas da administração Trump, mas a cada passo essas políticas têm sido facilitadas pelos democratas, incluindo os DSA.

No mês passado, Alexandria Ocasio-Cortez desempenhou um papel crítico em garantir a aprovação de bilhões de dólares para financiar os campos de concentração de Trump, votando para levar ao plenário da Câmara uma versão do projeto de lei que possuía inexpressivas restrições, antes que os democratas cedessem e aprovassem uma lei no Senado que as removeram.

O Partido Democrata tem levado adiante, de uma forma ou de outra, essa estratégia por décadas, com Barack Obama, o presidente da “esperança e mudança”, abrindo caminho para a continuação das guerras no Oriente Médio, a expansão dos assassinatos por drones e o massivo resgate de bancos. Apesar de Bernie Sanders invocar ocasionalmente o “socialismo”, em 2016 ele trabalhou para canalizar a oposição generalizada por trás da campanha de Hillary Clinton, a candidata de Wall Street e dos militares. Sanders está repetindo mais uma vez esse papel nas eleições de 2020.

Em meio ao crescente interesse pelo socialismo entre os jovens e à erupção da luta de classes internacionalmente, os DSA, a ex-ISO e outras organizações parecidas estão se unindo para bloquear as genuínas políticas socialistas.

A política do Partido Democrata será expressa de diferentes maneiras durante a conferência “Socialismo” deste final de semana. Bhaskar Sunkara, fundador e editor da revista Jacobin, participará de um painel para discutir seu livro recentemente publicado, Um Manifesto Socialista. A especialidade de Sunkara e da Jacobin é reformular o termo “socialismo”, igualando-o ao reformismo socialdemocrata do pós-guerra, um sonho utópico que não representa uma ameaça real à política militarista de direita do Partido Democrata.

O papel de Sunkara foi recentemente resumido pela colunista do New York Times, Michelle Goldberg, uma apoiadora de Hillary Clinton. “Os líderes desse nascente movimento socialista estão tentando canalizar as pessoas para longe [da política radical]”, disse ela após uma entrevista com Sunkara. “As pessoas nos DSA, Bhaskar, são muito responsáveis em não incentivar esse tipo de coisa.”

O encerramento da conferência no domingo contará com a participação de Naomi Klein e Astra Taylor, que participarão da plenária final “Cuidado e reparação: o poder revolucionário e democrático de um novo acordo verde global”. O “New Deal Verde” foi adotado por grandes setores do Partido Democrata como uma maneira de separar a luta contra a mudança climática de qualquer oposição ao sistema de lucro capitalista.

As questões de política externa serão abordadas por Ashley Smith, a ex-integrante da ISO que tem sido uma principal apoiadora da operação de mudança de regime apoiada pelos EUA na Síria. Smith falará sobre a “China e os EUA: Rivalidade Interimperial ou Luta de Classes e Solidariedade?”. Anand Gopal, membro do Programa de Segurança Internacional da Fundação New America (NAF, na sigla em inglês), um think tank de Washington, DC com íntimos laços com o estado e empresas, oferecerá “Uma visão socialista da Primavera Árabe”.

Os interesses do aparato sindical serão expressos mais diretamente por Jesse Sharkey, o antigo membro da ISO e atual presidente do Sindicato dos Professores de Chicago (CTU, na sigla em inglês). Sharkey presidirá a sessão plenária principal de sexta-feira, “Bem-vindo a Chicago Vermelha”, que contará com a participação de vários vereadores de Chicago do Partido Democrata que são membros dos DSA.

Em 2012, Sharkey ajudou a acabar e trair a greve dos professores de Chicago quando era vice-presidente do CTU. A Federação de Professores dos EUA, da qual o CTU é filiando, tem, juntamente com a Associação Nacional de Educação, desempenhado o papel decisivo em isolar e acabar com a onda de greves de professores ao longo do ultimo ano.

O CTU sob Sharkey está profundamente integrado ao establishment do Partido Democrata em Chicago. Depois de apoiar o presidente do Conselho do Condado de Cook, Toni Preckwinkle, nas recentes eleições para prefeito de Chicago, o CTU agora está trabalhando de perto com o opositor de Preckwinkle e o atual prefeito, Lori Lightfoot.

O painel de Sharkey contará com a participação de três dos seis vereadores de Chicago filiados aos DSA: Carlos Ramirez-Rosa, Rossana Rodríguez-Sánchez e Jeanette Taylor. Os vereadores, que estão sendo apresentados como parte de uma “onda radical” pronta para “atacar o poder corporativo”, não são nada disso.

Ramirez-Rosa começou a trabalhar no escritório do deputado democrata de longa data Luis Gutiérrez. Ele só se declarou membro dos DSA em março de 2017, depois que a campanha presidencial de Bernie Sanders evidenciou que havia oportunidades de combinar a ocasional fraseologia socialista com o oportunismo carreirista. Ramirez-Rosa foi até endossado pelo Partido Democrata para sua campanha de reeleição. Rodríguez-Sánchez e Taylor começaram como ativistas e “organizadores comunitários” no Partido Democrata.

Tão significativo quanto o que será discutido na conferência “Socialismo” é o que não será. Nenhum dos painéis fará qualquer referência à perseguição a Julian Assange e Chelsea Manning, que é apoiada pelo Partido Democrata. O ataque ao WikiLeaks tem sido uma característica central da campanha anti-russa dos democratas desde a posse de Trump.

Assange está atualmente preso no Reino Unido, ameaçado de ser extraditado para os Estados Unidos, onde poderá enfrentar até 175 anos de prisão, ou acontecer uma coisa ainda pior, pelo “crime” de revelar os crimes do imperialismo estadunidense. O silêncio dos DSA e da ex-ISO sobre o ataque a Assange diz tudo sobre sua política pró-capitalista e pró-imperialista.

As forças políticas por trás da conferência “Socialismo” falam não pela classe trabalhadora, mas por setores privilegiados da classe média alta, que são ligados ao Partido Democrata e ao aparato sindical. Qualquer um que for ao evento em busca de uma verdadeira política socialista ficará extremamente decepcionado.

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