Provocação entre frações, histeria de classe média e o colapso da Organização Socialista Internacional

Por Comitê Político do Partido Socialista pela Igualdade (EUA)
13 Julho 2019

Publicado originalmente em 2 de Abril de 2019

A Organização Socialista Internacional (ISO, na sigla em inglês) está colapsando pouco mais de um mês após sua convenção nacional por causa de denúncias provocadas por uma fração interna de agressão sexual e encobrimento.

Em meio a um expurgo perverso de líderes de longa data, os membros da ISO foram obrigados a aprovar uma resolução, proposta pela atual liderança, “para construir um novo modelo de socialismo revolucionário” que começa com “o desenvolvimento de um processo para a dissolver a ISO”. Os membros da organização também votaram pelo fim, nas próximas duas semanas, da principal publicação da organização, o site SocialistWorker.org. Essas decisões efetivamente liquidam a Organização Socialista Internacional.

O colapso da ISO ocorreu a uma velocidade extraordinária. A cronologia da crise não deixa dúvidas de que o colapso foi instigado por uma conspiração de uma fração interna formada por uma seção da liderança, que foi implementada em duas etapas.

A operação começou há apenas um mês. No final de fevereiro, a ISO realizou sua convenção anual. Uma declaração publicada em 15 de março no SocialistWorker.org descreveu o evento como o “mais doloroso” da história da organização. A convenção, de acordo com a declaração, se “dedicou a avaliar os impactos danosos de nossas práticas passadas e da cultura política interna”.

A convenção aprovou uma mudança drástica na composição do Comitê Nacional e do Comitê Dirigente (SC, na sigla em inglês) da ISO. O SC funciona como a liderança do dia-a-dia da organização. Selecionados a partir de um sistema de cotas raciais, dois terços do SC eram novos na liderança. Metade desses membros politicamente inexperientes e facilmente manipulados eram “camaradas de cor”.

Na segunda-feira, 11 de março, começou a segunda etapa da operação de uma das frações. Um documento, escrito por um ex-membro (identificado apenas como FM), chegou por e-mail aos escritórios da ISO. De acordo com a declaração de 15 de março, o documento de FM também foi enviado para “aliados fora da ISO com quem colaboramos no ativismo socialista-feminista e queer”. O momento do documento e os eventos imediatamente após ele ter sido recebido não deixam dúvidas de que foi solicitado, se não inteiramente escrito, por uma fração dentro da liderança da ISO.

O documento de FM reviveu uma acusação de agressão sexual em 2013 contra um membro da ISO, que havia sido eleito para o novo SC. De acordo com a declaração da ISO de 15 de março, FM foi membro do Comitê Disciplinar Nacional (NDC, na sigla em inglês), que ouviu o caso de 2013.

O documento de FM, que não continha nenhuma nova informação ou evidência apoiando as acusações feitas em 2013, foi imediatamente aproveitado como pretexto para um expurgo em massa de antigos membros da liderança da ISO. Em meio a histeria desenfreada, o SC suspendeu, expulsou e forçou a renúncia de importantes membros.

A cronologia dos eventos expõe a natureza sem princípios, antidemocrática e sórdida dos procedimentos.

Na noite de terça-feira, 12 de março, apenas 24 horas após o documento de FM ter sido recebido, o SC da ISO realizou uma reunião de emergência na qual “pediu ao respondente [i.e., o acusado] que se identificasse e renunciasse”, segundo o comunicado de 15 de março. O indivíduo renunciou ao seu cargo no SC e “disse que tiraria uma licença”. O SC “decidiu suspendê-lo e estipulou que uma decisão seria tomada sobre sua condição de membro mais tarde”.

Dois dias depois, na quinta-feira 14 de março, uma “reunião conjunta do Comitê Nacional, do SC e de outros membros concordou unanimemente em expulsar o acusado de acordo com a decisão original do Comitê Disciplinar Nacional”. Essa reunião decidiu, também sem o devido processo ou investigação, “Suspender a filiação de três membros do SC de 2013 diretamente envolvidos no resultado do caso, enquanto uma investigação completa do que aconteceu em 2013 é realizada”.

Além disso, a ISO votou a favor de “suspender de qualquer posição em qualquer órgão de liderança qualquer membro do SC de 2013, juntamente com um recém-eleito membro do Comitê Nacional, que minou o trabalho do Comitê Disciplinar Nacional durante a investigação”.

Entre os suspensos estava Joel Geier, de 80 anos, um dos membros fundadores dos Socialistas Independentes, o antecessor da ISO. Geier renunciou desde então. Oito ex-líderes da ISO também anunciaram sua renúncia, entre eles Sharon Smith, a antiga organizadora nacional, Paul D’Amato, Lance Selfa e Ahmed Shawki.

A denúncia de agressão sexual de 2013

O Comitê Dirigente da ISO não publicou o documento de FM, nem disponibilizou as provas específicas que corroboraram as acusações de agressão sexual de 2013. No entanto, a carta de demissão de Joel Geier, datada de 21 de março, fornece informações que refutam a alegação de que houve um encobrimento.

Geier escreve que esteve envolvido na elaboração de diretrizes para um novo Comitê Disciplinar Nacional, estabelecido pela ISO em 2013, e que ele defendeu que o comitê incorporasse direitos democráticos elementares para o acusado.

O caso em questão envolvia uma não-membra alegando que ela havia sido estuprada por um membro. O Comitê Disciplinar Nacional votou pela expulsão do acusado. O Comitê Dirigente anulou a decisão, por razões explicadas por Geier.

“Foi enfatizado a eles”, escreve Geier, “que eles chegaram a sua conclusão sem a oportunidade do Respondente apresentar sua própria defesa em uma audiência, sem sua capacidade de questionar as provas e testemunhas contra ele, sem a oportunidade dele fazer perguntas ao reclamante, mesmo através de um advogado.”

Além disso, a pessoa que fez a acusação recusou-se a participar nos procedimentos internos da ISO.

Após a intervenção do SC da ISO, que procurou preservar alguma aparência de devido processo, o Comitê Disciplinar Nacional reverteu sua decisão. Posteriormente, um Comitê de Apelações decidiu que havia “evidência insuficiente para tomar uma decisão” no caso. Nenhuma ação disciplinar foi recomendada.

Na convenção da ISO de 2014, os procedimentos e os resultados do caso foram relatados aos membros.

Em declarações não contestadas que apoiam o expurgo da liderança, postadas no SocialistWorker.org durante as últimas duas semanas, a reversão da decisão do Comitê Disciplinar de 2013 é denunciada utilizando o argumento de que qualquer homem acusado de agressão sexual deve ser considerado culpado. Não há necessidade de qualquer processo de apuração dos fatos nem de qualquer apresentação de prova que corrobore a acusação. Deve-se acreditar no acusador.

Um texto de 20 de março de Elizabeth Wrigley-Field, intitulado “O que os socialistas podem aprender com o #MeToo”, revela a psicologia histérica, como a de uma multidão de linchadores, que predomina entre membros da ISO recrutados a partir das políticas de identidade de classe média. Ela escreve que “porque acredito na acusação e estou escrevendo a partir de minha própria perspectiva, eu vou usar uma linguagem direta em vez de legalista: estupro ao invés de suposto estupro, sobrevivente ao invés de reclamante, estuprador ao invés de respondente”.

Embora Wrigley-Field admita que ela “nunca leu” nenhum documento relacionado à acusação de 2013, ela reclama que a investigação “estava obcecada com procedimentos e não com a verdade e com a atenuação do dano”. Para Wrigley-Field, “verdade” é determinada e igual àquilo que o acusador afirma. Nenhuma norma processual, que exija a apresentação e o exame de provas, deveria questionar, muito menos contestar diretamente, a “verdade” do acusador. Resumindo a filosofia do caçador de bruxas, Wrigley-Field declara: “Quando acreditamos honestamente que nossas normas são uma barreira para descobrir a verdade, então fodam-se as normas”.

As questões políticas ocultas

Nas declarações da ISO, não há referência explícita ou discussão sobre as diferenças políticas entre a liderança da organização por trás da crise que surgiu durante a semana de 11 de março de 2019. Espera-se que os leitores acreditem que uma suposta questão mal resolvida de acusação de agressão sexual, ocorrida há seis anos, causou o colapso político da Organização Socialista Internacional.

Isso é absurdo, que só os irremediavelmente ingênuos ou estúpidos acreditarão. A detonação de um escândalo sexual em uma organização política tem o objetivo de invariavelmente gerar histeria, esmagar os membros e impedir uma discussão aberta e racional de programa, perspectiva, estratégia e interesses das frações internas e forças sociais em conflito. Apenas após o massacre da organização, à medida que a fumaça começa a baixar, os interesses e objetivos políticos que causaram a crise começam a aparecer.

A partir das declarações que foram publicadas no SocialistWorker.org, bem como no exame da posição de vários indivíduos-chave, é evidente que a crise foi causada por um movimento extremamente agudo para a direita.

Questão 1: A ISO e o Partido Democrata

A liquidação da ISO removeu de fato uma barreira organizacional para a integração de sua fração dominante na órbita política do Partido Democrata.

Antes da convenção de fevereiro, a ISO estava envolvida em uma longa discussão interna sobre as implicações políticas da eleição de Alexandria Ocasio-Cortez para o Congresso dos EUA. Os Socialistas Democráticos dos EUA (DSA, na sigla em inglês), a organização política da qual Ocasio-Cortez faz parte, estão sendo elevados a importantes posições de poder dentro do Partido Democrata. Com a aproximação da eleição de 2020, o Partido Democrata está exercendo uma imensa pressão para desarmar e integrar organizacionalmente a oposição potencial de esquerda.

Os DSA, que são uma fração do Partido Democrata alinhada com a campanha presidencial do senador Bernie Sanders, tem procurado trazer a ISO para o seu lado político. De maneira significativa, a declaração de 15 de março do Comitê Dirigente afirma que a ISO (ou, provavelmente, seus remanescentes) “estudará como a ISO pode se relacionar com campanhas socialistas realizadas pelos democratas”.

Questão 2: A ISO e os sindicatos

Nos últimos anos, os principais membros da ISO adquiriram posições influentes e pessoalmente lucrativas na AFL-CIO. Um exemplo disso aconteceu com a ascensão no ano passado de Jesse Sharkey à presidência do Sindicato dos Professores de Chicago (CTU, na sigla em inglês). A declaração do dia 15 de março denuncia a liderança da ISO antes do expurgo pela criação de condições nas quais “camaradas com décadas de experiência sindical foram olhados com desconfiança por medo de que poderiam se afastar muito do curso estabelecido pelo Comitê Dirigente”.

Sharkey, que apoiou o expurgo da ISO, representa um estrato de burocratas sindicais filiados à ISO que não querem mais ficar limitados pela disciplina partidária. A vontade de se libertar do controle da ISO foi intensificada pelo fato de que Sharkey, como presidente do CTU, agora desempenha um papel de liderança no Partido Democrata de Chicago. Nas recentes eleições municipais, os candidatos ligados ao CTU ou aos DSA ganharam quase uma dúzia de cadeiras no Conselho de Vereadores, dando à pseudo-esquerda o papel de sócio minoritário do próximo prefeito de Chicago.

Além disso, o CTU, sob Sharkey, apoiou Toni Preckwinkle, uma figura de longa data do Partido Democrata, no segundo turno da eleição municipal em Chicago, que foi realizado em 2 de abril.

Questão 3: A ISO e os recursos financeiros

Um fator importante por trás dos conflitos dentro da ISO é o controle sobre os recursos financeiros. A ISO possuí milhões de dólares em ativos.

A organização sem fins lucrativos 501(c)(3) da ISO chama-se Centro de Pesquisa Econômica e Mudança Social (CERSC, na sigla em inglês), cujos projetos ativos incluem a editora Haymarket Books. Em sua declaração fiscal de 2017, o último ano disponível publicamente, o CERSC divulgou um lucro líquido ajustado de US$ 3.177.938, com receita de US$ 3,6 milhões em vendas de livros e mais de US$ 1 milhão em contribuições e doações de fundações.

Entre os principais ativos do CERSC estão quase US$ 200 mil em ações da Oracle, a corporação estadunidense de tecnologia de computadores, e uma quantia similar na CTO (Consolidated-Tomoka Land Co.), uma empresa imobiliária sediada na Flórida. Em 2017, o CERSC pagou quase US$ 900.000 em salários e benefícios.

O CERSC é um grande beneficiário de doações de fundações. Em 2017, foram doados ao CERSC US$ 225.000 pela Fundação Tides (criada por uma herdeira da companhia de tabaco R. J. Reynolds e financiada mais recentemente pelo bilionário George Soros) e US$ 240.000 pela Fundação Lannan, que mantém um relacionamento próximo com a ISO e seus membros.

A Fundação Lannan ofereceu bolsas a vários membros da ISO para escreverem livros, incluindo Keeanga-Yamahtta Taylor, um professor titular em Princeton, especializado na promoção das políticas de identidade. Ela também ofereceu ao CERSC um auxílio financeiro para comprar um prédio de US$ 2,3 milhões em Buena Park, Chicago, para abrigar a editora Haymarket Books.

Notavelmente, a Haymarket Books publicou uma declaração no Facebook solidarizando-se com o expurgo interno. Chamando a Haymarket de “o projeto principal” do CERSC, a declaração diz que “nós nos apoiamos e acreditamos nos sobreviventes”. Ela ainda diz que:

“Quando chegaram a nós preocupações sobre ações fora do CERSC de alguns membros do conselho do CERSC, tomamos medidas imediatas. Desde então, um conselho inteiramente novo foi constituído por indivíduos que têm nosso total apoio e confiança”.

Entre os seis executivos ou diretores do CERSC, que aparecem na última declaração fiscal da organização, estão quatro pessoas que foram expurgados da ISO: Sharon Smith, Ahmed Shawki, Lance Selfa e Paul D’Amato.

Entre os signatários da declaração da Haymarket Books está Anthony Arnove, editor da editora e um dos diretores remanescentes do CERSC. A declaração também foi assinada por Julie Fain, editora-chefe da Haymarket Books e esposa de Jesse Sharkey, presidente do CTU.

Por tudo o que se fala sobre abertura e transparência, é de se esperar que a resolução dos conflitos relacionados à distribuição de ativos entre as frações da liderança ocorrerá em negociações secretas a portas fechadas. Fundações e organizações sem fins lucrativos estão sujeitas a restrições legais. Aqueles que atualmente possuem o controle sobre a renda e os ativos ficarão ansiosos para evitar ações judiciais por parte dos ex-líderes e acionistas da fundação que foram obrigados a deixar seus cargos.

Conclusões Políticas

Se a dissolução completa da Organização Socialista Internacional foi ou não o resultado pretendido da conspiração política organizada por uma seção da liderança, não está claro. No entanto, ela é o resultado lógico da política de direita, de classe média e completamente oportunista da ISO, na qual todas as várias frações envolvidas participaram.

A ISO era claramente suscetível a uma operação no estilo #MeToo. Os membros da ISO foram recrutados a partir da política de identidade de classe média. Aqueles que se juntaram à organização não receberam nenhuma educação em teoria marxista, muito menos as experiências históricas centrais da Quarta Internacional. Operando perpetuamente em um ambiente de frações sem princípios, oportunismo desenfreado, cinismo político e subjetivismo extremo, os membros são condicionados a deixar de lado questões de programa e princípio político. A única paixão permanente deles é o ódio ao Comitê Internacional da Quarta Internacional e ao World Socialist Web Site. Nossa luta pela independência política da classe trabalhadora, a partir do programa trotskista da Revolução Permanente, é condenada como “sectarismo”.

Nenhuma avaliação séria das causas políticas da ruptura da ISO surgirá de seu ambiente oportunista. Ao invés disso, foram postados comentários no SocialistWorker.org atribuindo a responsabilidade final pelo colapso da organização a uma adesão equivocada à “ortodoxia leninista” e, ainda pior, às aspirações revolucionárias irrealistas. Deixando de lado o fato de que a política da ISO não teve nada a ver, desde sua fundação, com a revolução socialista, muito menos com o leninismo, a desmoralização política que permeia sua liderança é resumida por Paul LeBlanc. Ruminando sobre suas seis décadas de atividade política oportunista, ele opina que, se as organizações “desejarem fazer mais do que podem fazer [ou seja, procurar mobilizar a classe trabalhadora para a derrubada revolucionária do capitalismo], resultados profundamente debilitantes são inevitáveis”. [“Reflexões sobre coerência e camaradagem”, postado no SocialistWorker.org, em 27 de março de 2019]

Alguns estão alardeando que, dos destroços da ISO, um “novo modelo de socialismo revolucionário” surgirá. Eles estão assobiando ao passar pelo cemitério. Sua busca por um “novo modelo” está levando-os diretamente ao Partido Democrata.

Em última instância, a ruptura da ISO reflete o impacto da intensificação da crise social, e as manifestações iniciais da luta de classes, nas organizações politicamente falidas da pseudo-esquerda. A ISO não será a última vítima deste processo. Como uma vez disse Trotsky sobre as organizações oportunistas de sua época: “Os grandes acontecimentos que vive a humanidade não deixarão pedra sobre pedra destas organizações que ainda sobrevivem”. Esse provou ser o destino da ISO.