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Ernest Mandel, 1923-1995: Uma avaliação crítica de seu papel na história da Quarta Internacional

Quarta Parte: O racha na Quarta Internacional

Por David North
25 de outubro de 2008

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Este texto foi publicado no WSWS.org, originalmente em inglês, em 23 de outubro de 1995. Trata-se da quarta e última parte de artigo sobre a vida de Ernest Mandel, dirigente de longa data do Secretariado Unificado, que morreu em 20 de julho de 1995. Com sua morte, saiu de cena um homem que cumpriu um papel de destaque na história da IV Internacional durante o pós-guerra.

A mudança na posição de Ernest Mandel

Ao compararmos o que Mandel escreveu durante os primeiros anos após a guerra com o que ele produziu após 1949, é natural sermos surpreendidos pela mudança gritante de sua orientação política. Será a tarefa de um biógrafo muito talentoso a de encobrir as condições e influências que produziram essa notável mudança. O próprio Cannon ficou perplexo com a evolução de Mandel e, logo após o racha, pensou que Mandel se separaria de Pablo. Ouvi dizer daqueles que atuaram nas disputas da época que as novas formulações de Pablo foram inicialmente opostas por Mandel e que ocorriam sérios confrontos entre os dois homens. Não sei se era o caso. Mas é improvável que Mandel tenha revisto suas opiniões simplesmente sob a pressão de um aliado político.

É preciso considerar que Mandel, apesar de sua defesa anterior de concepções históricas, ficou perplexo com a força aparente do movimento stalinista. Não somente a posição mundial da URSS havia se fortalecido, mas os partidos comunistas encabeçavam poderosos movimentos de massas ao redor do mundo. A vitória do Partido Comunista Chinês apareceu como mais um exemplo do potencial revolucionário do stalinismo que a Quarta Internacional falhara em reconhecer.

Na realidade, o Programa de Transição, o documento de fundação da Quarta Internacional, havia reconhecido que "é impossível negar categorica e antecipadamente a possibilidade teórica de que, sob a influência de uma combinação de circunstâncias excepcionais (guerra, derrota, quebra financeira, ofensiva revolucionária das massas etc.), os partidos pequeno-burgueses, incluídos aí os stalinistas, possam ir mais longe do que queiram no caminho da ruptura com a burguesia." Mas alertava que "se mesmo esta variante pouco provável se realizasse um dia em algum lugar (....) ela somente representaria um curto episódio em direção à ditadura do proletariado." (Leon Trotsky, The Transitional Program for Socialist Revolution [New York: Pathfinder Press, 1974], p. 95).

Não há dúvidas de que Mandel, abençoado com uma memória fotográfica e um conhecimento enciclopédico dos escritos publicados de Trotsky, conhecia essa passagem. Mas posições políticas não derivam meramente de livros. Shachtman não conhecia menos os escritos de Trotsky, com quem ele até mantera uma relação pessoal. Na verdade, ninguém conhecia mais as nuances sutis da escrita de Trotsky do que Max Eastman, seu tradutor e biógrafo. Mas tanto Eastman quanto Shachtman, desencorajados pelo poder e pelos crimes de Stalin, romperam politicamente com Trotsky. A posição dominante do stalinismo no movimento internacional dos trabalhadores havia destruído qualquer confiança que algum dia tiveram no papel revolucionário da classe trabalhadora. Em suas cabeças, isso elevara a burocracia stalinista ao nível de uma grande e independente força histórica. Uma vez que não consideravam mais a classe trabalhadora capaz de superar a dominação da burocracia stalinista, Eastman e, um pouco mais tarde, Shachtman confiaram tal tarefa ao imperialismo americano.

É claro, Pablo e Mandel possuíam objetivos políticos muito diferentes dos de Eastman e Schachtman. Mas as posições para que caminharam ao final dos anos 40 e 50 também procediam de um enorme exagero da força e papel histórico da burocracia e, inextricavelmente ligado a esse erro, uma subestimação da força e potencial revolucionários da classe trabalhadora.

Sob a influência dos sucessos políticos dos stalinistas e de sua dominação contínua sobre o movimento internacional dos trabalhadores, Mandel e Pablo se convenceram cada vez mais de que a realização do socialismo dependeria, em última análise, das ações da União Soviética e das burocracias stalinistas, e não apenas da classe trabalhadora dirigida pela Quarta Internacional.

No centro do criativo trabalho teórico e político de todos os grandes marxistas encontrava-se a convicção científica do papel histórico do proletariado como o coveiro do capitalismo. O socialismo havia deixado de ser uma utopia quando foi demonstrado, sobre as bases da concepção materialista da história, a existência, dentro do modo de produção capitalista, de uma força objetiva que representava a negação das formas existentes de propriedade e um princípio mais avançado de organização social. Se considerávamos ou não a perspectiva da revolução social viável dependia da avaliação que se fizesse do papel histórico e das habilidades da classe trabalhadora.

Duas conclusões diametralmente opostas poderiam ser tiradas dos eventos da primeira metade do século XX. Uma conclusão foi que a Revolução de Outubro de 1917 havia demonstrado que a classe trabalhadora poderia derrubar o capitalismo e lançar as bases para o estabelecimento de uma nova sociedade socialista. A outra foi que a degeneração do Estado Soviético e as várias derrotas da classe trabalhadora nas décadas de 1920 e 1930 haviam provado que a classe trabalhadora não possuía as qualidades históricas que o marxismo lhe atribuíra. As diferentes escolhas levavam a prognósticos históricos bem diferentes.

"Se tomamos como verdade", escreveu Trotsky em 1939, "que a causa das derrotas está enraizada nas características sociais do próprio proletariado, então a sociedade moderna terá que ser vista sem esperança. Sob condições do capitalismo decadente o proletariado não cresce numérica nem culturalmente. Não há bases, portanto, para esperar que ele irá em algum momento levantar-se ao nível das tarefas revolucionárias. O caso se apresenta de forma completamente diferente para aquele que têm esclarecido em sua mente o profundo antagonismo entre o desejo orgânico e profundo das massas trabalhadoras a se libertarem do maldito caos capitalista, e o caráter conservador, patriótico, extremamente burguês da direção trabalhista sobrevivente. Devemos escolher entre uma dessas concepções irreconciliáveis."(Leon Trotsky, In Defense of Marxism [London: New Park Publications, 1971], p.15).

Mas Pablo e Mandel buscaram fugir dessa escolha especulando sobre uma terceira alternativa: mesmo na ausência de um movimento consciente e politicamente independente da classe trabalhadora, a revolução socialista poderia realizar-se, de uma maneira não vislumbrada por Lênin ou Trotsky, por meio de uma burocracia (ou, como Pablo e Mandel viriam sugerir quando sua teoria se tornou mais elaborada, outras forças não-proletárias). O aspecto mais significativo da revisão do marxismo de Pablo e Mandel era sua tentativa de basear a perspectiva socialista em um roteiro no qual a classe trabalhadora fazia um papel secundário e meramente de apoio.

A base teórica dessa perspectiva encontrou sua maior expressão em um documento escrito por Pablo em 1951 intitulado "Aonde vamos?", que declarava: "Para nosso movimento, a realidade social objetiva consiste essencialmente no regime capitalista e no mundo stalinista. Mais ainda, quer gostemos ou não, esses dois elementos constituem de longe a realidade social objetiva, uma vez que a maioria absoluta das forças que opõem o capitalismo encontram-se agora mesmo sob a liderança ou influência da burocracia soviética." (National Education Department, Socialist Workers Party, Towards a History of the Fourth International, part 4, 1974, p. 5).

Aonde, de fato, iriam Mandel e Pablo? Certamente, não na direção traçada por Trotsky nos documentos programáticos sobre os quais a fundação da Quarta Internacional baseava-se. Realmente, a estrutura da realidade social apresentada por Pablo tinha muito pouco em comum com a concepção geral de história traçada por Marx e Engels. Se, como diziam Pablo e Mandel, a "realidade social objetiva" consistia no "regime capitalista" e no "mundo stalinista", o que acontecera com a classe trabalhadora? Nesse novo esquema, a classe trabalhadora deixava de existir como o instrumento independente, quanto mais o decisivo, de mudança revolucionária. Ao invés disso, ela existia apenas como um elemento subordinado dentro de uma nova realidade definida pela luta entre o "regime capitalista" e o "mundo stalinista". O destino do socialismo dependia do resultado dessa luta.

A teoria da "guerra-revolução"

As conseqüências dessa eliminação teórica da classe trabalhadora como força revolucionária básica encontrava sua expressão mais clara na maneira com que Pablo e Mandel descreviam o desenvolvimento da revolução socialista. Esta iria advir, especulavam eles, não do desenvolvimento dos conflitos entre as classes, mas através da erupção de um conflito militar nuclear entre o "regime capitalista", representado acima de tudo pelos Estados Unidos e o "mundo stalinista", cujo eixo era a União Soviética. Eles chamaram esta situação de "Guerra-revolução".

Quando alguém fala sobre isso hoje, soa tão estranho quanto um plano alienígena. Mas, na verdade, isso era o reflexo peculiar das condições políticas da Guerra Fria nas mentes dos teóricos radicais desorientados que não incluíam mais em seus cálculos a possibilidade da luta revolucionária pela classe trabalhadora e o impacto da atividade política da Quarta Internacional.

Realmente, se alguém aceitasse sua premissa subjacente — que a classe trabalhadora soviética e do leste europeu estava hipnotizada pelo stalinismo e a classe trabalhadora americana anestesiada pelo anticomunismo macartista — suas conclusões não eram tão estranhas como pareciam de primeira. Havia, afinal, um conflito real entre a União Soviética e o imperialismo americano. Havia a possibilidade de guerra entre esses dois poderes antagônicos, e seu conflito baseava-se certamente nas diferentes bases sociais dos regimes. Pablo e Mandel tiravam desse conflito o impulso essencial pela revolução socialista.

Nessas circunstâncias, a erupção da guerra entre a União Soviética e os Estados Unidos se transformaria, inevitavelmente, em um conflito revolucionário calamitoso entre dois sistemas sociais. O mundo stalinista, carregando, mesmo que de forma degenerada, o princípio socialista, seria compelido, sob pressão das massas que representava, a conduzir a luta contra o regime capitalista sobre bases revolucionárias. Portanto, de acordo com Pablo, revolução e guerra estavam "aproximando-se mais e tornando-se tão interligadas, ao ponto de ficarem quase indistinguíveis sob certas circunstâncias e em certos momentos". A explosão da guerra, mesmo se assumisse dimensões nucleares, seria avidamente aguardada como a trombeta do socialismo. A guerra-revolução, proclamou Pablo, era a concepção "sobre a qual as perspectivas e orientação dos marxistas revolucionários de nossa época deveriam apoiar-se." (ibid., p. 7).

Se o "mundo stalinista" prevalecesse nessa "guerra-revolução", de suas cinzas surgiriam Estados operários deformados que durariam por séculos. Pablo varreu o pudor dos mais sensíveis. Reconheceu que a nova perspectiva "chocará talvez os amantes de declamações e sonhos pacifistas, ou aqueles que já lamentam o fim mundial apocalíptico que prevêem após uma guerra atômica ou após a expansão mundial do stalinismo. Mas essas almas sensíveis não conseguem encontrar lugar entre os militantes e menos ainda entre os quadros marxistas revolucionários desta época terrível, em que a agudeza da luta de classes é levada até o fim. É a realidade objetiva que empurra a dialética da Guerra-revolução à frente, destruindo implacavelmente sonhos pacifistas e não permitindo nenhuma pausa no gigantesco uso de forças da revolução e da guerra, nem em sua luta de morte." (ibid.).

Pode ter sido uma surpresa para muitos dos admiradores tardios de Mandel que ele poderia ter assinado tamanho prognóstico irracional, para não dizer grosseiro. De fato, ele o fez.

"Não se exclui", escreve ele, "que a ampla devastação produzida pela Terceira Guerra Mundial provocará uma destruição enorme nas maquinarias de produção em grandes partes do mundo, o que então facilitaria deformações burocráticas das novas revoluções vitoriosas... [Mas] Nossa convicção na vitória da revolução americana, que dará ao mundo socialista uma capacidade produtiva extraordinária mesmo após uma guerra devastadora, nos permitirá encarar as perspectivas da democracia operária após uma Terceira Guerra com confiança." (National Education Department Socialist Workers Party, Towards a History of the Fourth International, June 1973, part 4, vol. 1, p. 5).

Ernest Mandel não havia enlouquecido; ele apenas adotara uma perspectiva louca que expressava o desespero político produzido pela perda total de confiança no potencial revolucionário da classe trabalhadora. Ou, para expressarmos o mesmo problema de uma forma um pouco diferente, ele não acreditava que era possível que a Quarta Internacional conquistasse a classe trabalhadora para seu programa revolucionário. Afinal, a luta contra a guerra imperialista havia ocupado o lugar central do programa marxista do século XX. A possibilidade de prevenir a guerra dependia do desenvolvimento da consciência revolucionária da classe trabalhadora internacional.

A perspectiva de Mandel provinha da concepção de que a classe trabalhadora, principalmente nos Estados Unidos, não poderia ser mobilizada contra sua classe dominante e de que a guerra era inevitável. Eles tentaram racionalizar seu pessimismo ao fazer do holocausto nuclear o pré-requisito para o socialismo.

Se os documentos preparados por Pablo e Mandel em 1951 e1953 tivessem sido meramente uma avaliação falsa e desorientada da situação objetiva, poder-se-ia concluir que estes representavam nada mais do que um lapso vergonhoso de avaliação e um episódio lamentável em suas vidas políticas. Mas esse "episódio" provou ser a experiência definitiva nas vidas de ambos os homens, assim como, de maneira muito mais importante, o início de uma tendência historicamente significativa dentro, ou, mais corretamente, oposta, à Quarta Internacional.

Isso fica claro quando revemos as conclusões práticas tiradas por Pablo e Mandel de sua análise política. Ao partir da premissa não-declarada, porém implícita, de que não era possível conquistar a classe trabalhadora para o programa independente da Quarta Internacional, Pablo e Mandel concluíram que a única alternativa viável que restava aos infortunados trotskistas era a de entrar e enterrar-se em quaisquer organizações de massas existentes nos países onde militavam. Essa tática foi chamada de "entrismo sui generis". Nos países onde os stalinistas reinavam absolutos, os trotskistas tinham que juntar-se a partidos comunistas e militar dentro deles, com o objetivo de os influenciarem e conduzi-los à esquerda.

Essa tática foi justificada sobre as bases de que organizações stalinistas poderiam, sob pressão dos eventos, "dar", como disse Mandel, "os primeiros passos no caminho da regeneração". O poder dos acontecimentos revolucionários tenderia a arrastar as organizações stalinistas à esquerda, e esse processo poderia ser facilitado pela influência dos trotskistas engajados no "entrismo sui generis".

A tarefa da Quarta Internacional, insistiam Pablo e Mandel, era a de aceitar a "necessidade de subordinação de todas os planos organizativos, de independência formal ou não, à integração real ao movimento de massas onde quer que este se expresse em cada país, ou então à integração em alguma corrente importante deste movimento que possa ser influenciada." (Michel Pablo, "Main Report to the Congress: World Trotskyism Rearms", Fourth International, vol. 12, no. 6, November-December 1951, p. 172).

O conteúdo essencial das inovações táticas propostas por Pablo e Mandel era que a tarefa estratégica central que havia sido colocada por Trotsky — a resolução da crise da direção revolucionária através da construção da Quarta Internacional — não era mais viável. Realmente, a perspectiva de conquistar a classe trabalhadora para um novo partido revolucionário era inútil. Como escreveu Pablo em 1953:

"Nas condições históricas atuais, a variante cada vez menos provável é aquela em que as massas, desiludidas pelos reformistas e stalinistas, romperão com suas organizações de massas para aglutinarem-se em torno de nossos núcleos atuais, com esses atuando única e exclusivamente de uma maneira independente, de fora" (Socialist Workers Party, Towards a History of the Fourth International, part 4, vol. 3, March 1974, p. 141).

No outono de 1953 havia ficado claro que a perspectiva de Pablo e Mandel colocava em questão a própria razão de ser da Quarta Internacional. Ao atuar sob esta perspectiva, Pablo, com o apoio de Mandel, buscou explorar sua posição de secretário internacional para forçar seções nacionais inteiras a liquidarem-se como organizações independentes e entrarem nas fileiras dos partidos stalinistas. Quando a seção francesa resistiu, ela foi arbitrariamente expulsa.

Os trotskistas na China receberam instruções semelhantes: "Para que realizemos a orientação de defesa incondicional da República Popular da China e o apoio crítico ao governo de Mao, os militantes chineses da Quarta Internacional devem integrar-se completamente ao movimento de massas de seu país, como decidido no Terceiro congresso da Quarta Internacional". (Fourth International, July-August 1952, p.. 118).

Os trotskistas chineses, trabalhando sob condições extremamente difíceis, haviam buscado defender os interesses independentes da classe trabalhadora e levantar a perspectiva de hegemonia da classe trabalhadora na revolução socialista. Haviam recusado por décadas seguir a orientação pequeno-burguesa dos maoístas, que haviam essencialmente abandonado a classe trabalhadora e baseado seu movimento no campesinato. Agora eram ridicularizados por Pablo e Mandel como se tivessem "abandonado" a revolução chinesa. Assim, eram ordenados a integrarem-se à organização maoísta. Antes dos trotskistas chineses conseguirem compreender as implicações políticas desse conselho brilhante, sua organização foi despedaçada por uma série de detenções. Muitos dos dirigentes trotskistas capturados no final de 1952 permaneceram na prisão pelos próximos 20 a 30 anos.

Consequentemente, a resistência política às perspectivas de Mandel e Pablo levaram a um racha na Quarta Internacional. O Comitê Internacional da Quarta Internacional foi formado em novembro de 1953 para opor-se aos revisionismos de Pablo e Mandel. Esta não é a situação ideal para contarmos em detalhes os eventos que levaram ao racha. No entanto, deve ser reforçado, justiça seja feita tanto a Mandel quanto a Pablo, que o racha não foi, na análise final, apenas um produto de suas maquinações. O próprio fato de sua perspectiva encontrar amplo apoio dentro da Quarta Internacional refletiu as condições políticas e relações sociais do período pós-guerra. Pablo e Mandel articularam o ceticismo político que havia sido produzido pela habilidade das burocracias social-democratas em manterem seu controle sobre a classe trabalhadora após a Segunda Guerra e bloquearam a erupção da revolução socialista.

Tanto Pablo quanto Mandel negaram furiosamente que suas posições representavam um rompimento com o trotskismo, ou que eles estavam colocando em dúvida a necessidade da Quarta Internacional. Mas o conteúdo real de seus revisionismos era expresso de forma mais clara, mesmo que de forma mais crua, na posição de seus apoiadores americanos, Cochran e Clarke:

"Listemos simplesmente algumas das conclusões da presente realidade: Vemos um mundo onde nossa perspectiva do stalinismo ser destruído durante a Segunda Guerra se mostrou errônea. Vemos um mundo onde o stalinismo é dominante na porção leste da Europa, onde os partidos comunistas são a direção da revolução colonial na Ásia, onde integram as organizações mais fortes da classe trabalhadora na Itália e França. No restante do ocidente, a Social-democracia foi ressuscitada e nos Estados Unidos, onde os trabalhistas ainda não avançaram para uma existência política independente, a burocracia reformista trabalhista permanece dominante...

"Porém, os seguidores de Cannon ainda mantêm a perspectiva já ultrapassada de que os pequenos núcleos irão, no futuro, tornar-se partidos revolucionários desafiando a todos inimigos e destruindo-os em batalha...

"O fato de ninguém poder vislumbrar de forma realista um racha nos velhos movimentos de trabalhadores antes dos próximos acontecimentos revolucionários é o sinal mais claro de que a velha análise trotskista tornou-se antiquada. Assim como antes da guerra, a vanguarda busca dar-se conta de suas aspirações revolucionárias dentro de partidos velhos, não deixando nenhum espaço para uma nova organização de massas...

"A própria formulação da resolução internacional deve levar-nos à conclusão de que os partidos revolucionários de amanhã não serão trotskistas, no sentido de aceitarem necessariamente a tradição de nosso movimento, nossa estima pela posição de Trotsky na hierarquia revolucionária ou todas suas análises e palavras de ordem específicas...

"Mas a última coisa no mundo que devemos tentar fazer é inculcar nas fileiras a necessidade de adotarem nossa tradição específica e imprimir sobre elas a verdade sobre nossas avaliações específicas trazidas por Trotsky desde 1923...

"Dissemos anteriormente que somente integrando-nos aos movimentos já existentes nossos quadros poderiam sobreviver e cumprir sua missão. Agora adicionaremos a essa proposição esta adicional: Somente abandonando todas as noções sectárias de impor nossa tradição específica sobre os movimentos de massa que desenvolveram-se em diferentes circunstâncias e sobre diferentes influências é que nossa abordagem poderá obter sucesso e garantir o futuro de nossos preciosos quadros...

"Apesar da situação nos Estados Unidos ser única, uma vez que a classe trabalhadora ainda não está organizada em seu próprio partido político, a orientação discutida aqui opera com força total. É preciso habitar a terra de ninguém de Cannon para difundir seriamente a teoria de que a classe trabalhadora americana, que ainda não atingiu a consciência de partido trabalhista, passará, na próxima luta, à bandeira da revolução de Cannon, ou que, o que constitui aproximadamente a mesma coisa, ela irá, de forma acelerada, mergulhar dentro e fora de um partido trabalhista para então juntar-se com Cannon e seus representantes para lançarem-se às barricadas...

"Baseando-nos nessa análise, nós nos orientamos na direção do movimento trabalhista organizado, principalmente os sindicatos de produção em massa do CIO... Isso não significa que estamos absolutamente certos de que um partido trabalhista será formado. A análise baseia-se, na verdade, na certeza de que o inevitável reagrupamento político passará pelos canais existentes do movimento trabalhista organizado e terá um caráter político capaz de unificar as massas num mínimo nível."

As teorias de Pablo e Mandel expressavam uma adaptação à posição dominante da burocracia e, finalmente, uma apologia a ela. Nos próximos anos, o trabalho de Mandel se concentraria na interpretação, sob o ponto de vista mais favorável, das atividades das burocracias. Tanto suas ações como os conflitos dentro de suas fileiras seriam invariavelmente interpretados por ele como a manifestação de amplas forças objetivas dentro das quais operariam, de forma misteriosa, processos revolucionários.

Após o racha, Mandel foi afligido pela acusação de ter se tornado um revisionista. Como poderia tal acusação ser lançada sobre ele, Ernest Germaine, o produtor de tantos artigos brilhantes? Como escreveu a George Breitman: "Você realmente acredita que estamos capitulando diante de Stalin, nós que nos ocupamos na construção do movimento trotskista, não sem sucesso, por todo o mundo?

A resposta de Cannon a Mandel

Uma resposta a Germaine-Mandel foi providenciada por James P. Cannon em uma análise perceptiva escrita em 1954:

"Nosso objetivo é fundamentalmente diferente daquele de Germaine. Em último caso, ele remete a uma teoria diferente do papel da vanguarda revolucionária e sua relação com outras tendências no movimento trabalhista. Germaine pensa que ele é ortodoxo nessa questão — chegou até a escrever um artigo sobre isso na Quatrième Internationale — mas, na prática, ele compromete a teoria. Apenas nós somos adeptos incondicionais da teoria leninista-trotskista do partido da vanguarda consciente e de seu papel como direção na luta revolucionária. Essa teoria adquire veemente atualidade e prevalece sobre todas as outras em nossa época presente".

"O problema da direção agora não se limita a manifestações espontâneas da luta de classes em um processo a longo prazo, nem mesmo à conquista do poder neste ou naquele país onde o capitalismo está especificamente fraco. É uma questão do desenvolvimento da revolução internacional e da transformação socialista da sociedade. Admitir que isso possa acontecer automaticamente é, de fato, abandonar o marxismo por completo. Não, isso só pode ser um ato consciente e requer necessariamente a direção de um partido marxista que represente o elemento consciente no processo histórico. Nenhum outro partido o fará. Nenhuma outra tendência no movimento trabalhista pode ser reconhecida como um substituto eficiente. Por essa razão, nossa atitude diante de todos os outros partidos é inconciliavelmente hostil".

"Se a correlação de forças requer uma adaptação dos quadros da vanguarda a organizações dominadas no momento por tais tendências hostis — stalinistas, social-democratas, centristas — então tal adaptação deve sempre ser vista como uma adaptação tática, para facilitar a luta contra estas e nunca para efetivar uma reconciliação com elas, nunca para atribuir-lhes um papel histórico decisivo, deixando os marxistas encarregados da tarefa menor de dar-lhes conselhos de amigo e fazer-lhes críticas 'leais' à moda dos comentários pablistas sobre a greve geral francesa." (Trotskyism Versus Revisionism, vol.. 2 [London: New Park, 1974], p. 65).

Artigo concluído.