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O colapso capitalista e a perspectiva da Quarta Internacional

Parte 1

Por Nick Beams
28 de outubro de 2008

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Publicamos abaixo a primeira parte de um relato feito em 28 de setembro por Nick Beams a um encontro realizado em Sydney sobre o 70o aniversário da Quarta Internacional. Beams é membro do comitê editorial internacional do WSWS e secretário nacional do Partido da Igualdade Socialista da Austrália. Publicaremos este relato em 4 partes.

A significância histórica da fundação da Quarta Internacional em 1938 e a luta de 70 anos em defesa do programa do trotskismo, liderada desde 1953 pelo Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI), é agora ressaltada pelos eventos tumultuosos que se desenrolam na arena da economia mundial.

Cada dia que passa traz uma nova notícia de desastre e crise no sistema financeiro. Torna-se praticamente impossível acompanhar as centenas de bilhões de dólares, que agora já chegam aos trilhões, injetados de diferentes formas por bancos centrais e autoridades financeiras para tentarem manter o sistema financeiro mundial em operação.

Nas últimas duas semanas assistimos à falência do Lehman Brothers, instituição financeira de 158 anos, a aquisição do banco de investimentos e corretora Merrill Lynch e a mudança do status da Goldman Sachs e do Morgan Stanley para "bancos de investimentos", para que assim possam receber proteção contra falência. Durante o mesmo período, os quatro bancos de investimento restantes de Wall Street, após a transferência do Bear Sterns em março, desabaram inevitavelmente. Além do mais, a gigante de seguros AIG teve que ser resgatada com US$ 85 bilhões. Na última quinta, com US$ 307 bilhões em ativos, US$ 188 em depósitos e mais de 220 filiais, o Washington Mutual quebrou — esta a maior quebra bancária da história.

O governo Bush, com apoio estratégico dos Democratas, está colocando em prática uma operação de resgate a Wall Street de US$ 700 bilhões, comprando os ativos desvalorizados que esta possui em seus livros.

Já se tornou lugar-comum os comentadores e especialistas em economia dizer que o sistema capitalista mundial entrou na maior crise financeira desde os acontecimentos de 1929 que levaram à Grande Depressão.

Pessoas no mundo todo começam a recordar o que se seguiu à crise: a chegada ao poder dos nazistas na Alemanha em 1933, desemprego em massa, a divisão do mundo em dois blocos e impérios rivais, e, uma década após a quebra de Wall Street, o irrompimento da Segunda Guerra Mundial.

Especialistas e jornalistas, assim como politicos, reasseguram-nos de que o mundo não acabou e que a crise de 1930 não se repetirrá porque os governos e autoridades financeiras estão conscientes dos problemas e possuem os meios de detê-los.

Tais afirmações poderiam até ter relevância, caso não fossem pronunciadas pelas mesmas pessoas que, ontem mesmo, enalteciam as virtudes do novo sistema financeiro.

Para o movimento marxista, esta crise não surgiu do nada. Ela é decorrente das profundas contradições que, como explicou nosso movimento, levam invariavelmente à crise do sistema capitalista.

Quando falamos de uma "crise", não estamos apenas nos referindo a um único acontecimento, um ponto no qual o capitalismo congela-se de repente e pára de funcionar, mas a um processo histórico. As amplas mudanças nas estruturas do capitalismo mundial — a implosão do sistema financeiro, o colapso dos créditos e mercados financeiros e a falência dos grandes bancos e dos bancos de investimento — são o resultado das mudanças que vêm ocorrendo por baixo da superfície econômica por anos e até mesmo décadas.

Um colapso não significa que o capitalismo chega a parar. Significa a abertura de um novo período histórico, no qual velhas estruturas, tanto econômicas como políticas, assim como ideologias e formas de pensamento, cedem lugar ao desenvolvimento de novas formas de luta política, em nome das quais o próprio destino da sociedade é posto em questão.

Marx referiu-se à luta de classes "ora aberta, ora encoberta". Neste último período ela esteve um tanto encoberta, no sentido de que a classe trabalhadora têm sido incapaz de desenvolver uma resposta aos intermináveis ataques a seu nível de vida e às condições sociais. Mas agora, nos Estados Unidos, ela emerge à superfície através de uma grande explosão de raiva contra o plano de resgate de Wall Street. Essa raiva significa o início de uma nova era política.

A desintegração do mundo capitalista em desvelamento significa que a classe trabalhadora será confrontada com a necessidade da tomada do poder político e a necessidade de reorganizar a sociedade sobre novas bases sociais, econômicas, políticas e também morais. Como demonstra a história sangrenta do século XX, o que depende dessa tarefa não é nada mais do que o futuro da própria humanidade.

O resgate de Wall Street

A necessidade de uma reorganização fundamental da sociedade emerge da crise atual de forma bem independente das reivindicações ou agitações dos socialistas. Ela é colocada bem objetivamente.

A oligarquia financeira americana e seus representantes políticos de ambos partidos do grande negócio possuem um plano econômico que trabalham para impor: os recursos sociais, advindos do trabalho de milhões de trabalhadores, devem ser mobilizados para manter a riqueza dos ricos e milionários. Essa camada vem lucrando com as operações financeiras especulativas e altamente duvidosas que, sob a bandeira do "livre mercado", provocaram uma enorme redistribuição de riquezas que fez aumentar a escala de renda dos últimos 25 anos.

Não bastando a confusão política persistente criada por todos os ramos da mídia de massas, este plano está sendo reconhecido pelo que ele realmente é: o resgate de Wall Street, da mínuscula camada mais rica da sociedade a custo da maioria avassaladora.

As eleições presidenciais de 2008 já perderam seu sentido antes mesmo de acontecerem, uma vez que qualquer esperança de algum programa social foi agora engavetada. Pelo contrário, um total equivalente a US$ 2.300 de cada homem, mulher e criança dos EUA será transferido aos mais ricos. Uma das primeiras perguntas feitas pelo mediador do debate presidencial foi: qual programa de governo você advoga que seja cortado em vista do plano de resgate? Todos concordaram que deveria haver cortes, isto foi tomado como dado.

A classe dominante americana não tem como cumprir seu programa democraticamente e vemos, por isso, nas medidas propostas pelo secretário do tesouro Henry Paulson, potenciais de uma ditadura.

O primeiro texto enviado ao congresso, supostamente o órgão legislativo que teria controle sobre os gastos, mal possuía três páginas — menos papelada, como disse um comentador do New York Times, do que o requerido em uma hipoteca subprime!

De acordo com o texto inicial, dentre os poderes dispostos ao secretário do tesouro, "sem limitações", será o de "apontar as instituições financeiras e agentes financeiros do governo" capazes de cumprir com "todas as responsabilidades razoáveis relacionadas a esta lei". Isso significa que as mesmas instituições que estiveram envolvidas com as atividades especulativas e, em alguns casos, abertamente criminais, que levaram à crise, serão convocadas a ajudar o tesouro a organizar o resgate. Como dizia um artigo recente do WSWS, o termo "conflito de interesses" nem sequer começa a cobrir o que está acontecendo.

Além disso, o plano garante imunidade legal ao tesouro. "Decisões do secretário em conformidade com a autoridade não podem ser examinadas... nenhum tribunal ou agência governamental poderá examinar as decisões do secretário".

Como apontou com as seguintes palavras um artigo do New York Times de 23 de setembro: "O secretário do tesouro — quem quer que o seja nos próximos meses — seria investido dos poderes mais inacreditáveis já antes concedidos a uma pessoa em relação à vida econômica e financeira dos Estados Unidos. É o equivalente financeiro do Patriot Act (‘Lei Patriota'), depois do 11 de setembro". O Times descreveu a legislação proposta por Paulson como "o mais incrível rapto de poder da história da economia americana".

Um velho axioma de economia e política diz que, em uma crise, as verdadeiras relações são colocadas a nu, enquanto despe-se o acidental e supérfluo. Este é o caso nesta crise. Não um governo do povo, pelo povo e para o povo; não o "livre mercado" no qual as decisões de milhões de pessoas determinam os resultados econômicos; mas um governo dos, pelos e para os ricos. Não uma democracia e uma terra de leis, mas uma ditadura do capital financeiro.

As guerras de pilhagem lançadas pelo imperialismo americano no Afeganistão e Iraque, cujo objetivo é controlar o petróleo e outros recursos do interesse do capital financeiro americano, estão sendo agora abertamente travadas no front natal. Elas serão acompanhadas de um aprofundamento no ataque aos direitos democráticos, iniciados com a assim chamada "guerra ao terror".

A concluir