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Sombras de 1929: as implicações globais do colapso bancário americano

Parte 1

Por Nick Beams
6 de maio de 2008

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O texto seguinte é a primeira parte de palestras de Nick Beams, secretário nacional do Socialist Equality Party (SEP) na Austrália e membro do comte editorial internacional do World Socialist Web Site, realizadas em encontros públicos em Sydney e Melbourne nos dias 9 e 15 de abril.

O SEP e o International Students for Social Equality chamaram os encontros públicos para discutir o significado para o mundo do aprofundamento da crise que arruína o sistema financeiro e bancário dos EUA. Em ambos os encontros foi alto o comparecimento, com a audiência incluindo trabalhadores e estudantes universitários, alguns do exterior. Após o relato de Beams, houve discussões importantes cobrindo uma ampla gama de questões sobre as causas e implicações do caos financeiro.

O dia 14 de março, 2008—o dia em que se tornou público o conhecimento de que o Bear Stearns, o quinto maior banco de investimentos dos EUA e uma das maiores instituições financeiras do mundo, havia quebrado—já tomou seu lugar como uma das datas determinantes na história do capitalismo global.

Naquele dia, o mundo se transformou de uma forma fundamental. As panacéias entregues dia a dia pelos vários comentadores, líderes políticos e economistas da academia sobre as maravilhas e virtudes do “livre mercado” — que ele representaria a mais alta, de fato a única forma possível de organização econômica e sócial— foram provadas completamente inúteis.

De repente, não era apenas cada vez mais possível uma quebra na escala da Grande Depressão: a quebra estava prestes a acontecer.

Comentários e testemunhos por alguns dos principais envolvidos na operação de resgate ao Bear Stearns deixam isso claro.

Por três dias o Federal Reserve Board dos EUA (Banco Central dos EUA), com a ajuda do Departamento de Tesouro, trabalhou intensivamente para elaborar um pacote de resgate. A rapidez era primordial, o medo sendo de que se um pacote não estivesse pronto antes da abertura dos mercados asiáticos na segunda, 17 de março, o sistema financeiro mundial entraria num caos que tomaria Wall Street.

O componente principal do plano de resgate, que eventualmente viu o Bear Stearns tomado pelo JP Morgan, era a garantia de que o Federal Reserve Board assumiria responsabilidade por 30 bilhões de dólares em títulos de dívida controlados pelo banco falido—uma decisão sem precedentes nos anais do banco central dos EUA.

Conforme o economista de Wall Street Ed Yardeni comentou em nota aos seus clientes: “O Governo do Last Resort (“Último Recurso”) está trabalhando com o Credor do Last Resort para levantar os mercados de moradia e crédito e evitar a Grande Depressão II.”

Em seu testemunho ao congresso dos EUA, o presidente do Fed Ben Bernanke usou uma linguagem mais contida, mas a mensagem era essencialmente a mesma.

“Em 13 de março,” ele disse ao congresso,” o Bear Stearns advertiu o Federal Reserve e outras agências governamentais de que sua posição de liquidez havia se deteriorado significativamente e que decretaria falência no dia seguinte a não ser que fontes alternativas de fundos se tornassem disponíveis”.

“Essas notícias levantaram questões difíceis de política pública. Normalmente, o mercado determina que companhias sobrevivem e quais quebram, e isso é como deveria ser. Porém, as questões levantadas aqui se estendem para muito além do destino de uma companhia. Nosso sistema financeiro é extremamente complexo e interconectado, e o Bear Stearns participou extensivamente em uma gama de mercados críticos. A repentina falência de Bear Stearns provavelmente haveria levado a um caótico zigue-zague de posições nesses mercados e poderia ter abalado severamente a confiança. A falência da companhia poderia também ter projetado dúvida sobre a posição financeira de algumas das milhares de contrapartes do Bear Stearns e talvez de companhias com negócios similares. Dadas às excepcionais pressões sobre a economia global e sistema financeiro, o dano causado pela eventual inadimplência do Bear Stearns poderia ter sido severo e extremamente difícil de conter. Além do mais, o impacto adverso da inadimplência não haveria estado limitado ao sistema financeiro mas teria sido amplamente sentido na economia real através dos seus efeitos nos valores de bens e disponibilidade de crédito.”

Em outras palavras, havia uma real possibilidade de colapso global.

A extensão das interconexões entre Bear Stearns e o sistema financeiro global, e o impacto que seu colapso poderia ter causado, é indicada por relatos de que o banco controlava contratos de um excepcional valor de 2,5 trilhões de dólares com firmas ao redor do mundo. Isto é, contratos cujo valor era equivalente a cerca de um sexto do PIB dos Estados Unidos e um vigésimo do PIB total global estavam em risco. Conforme um participante das discussões sobre o resgate colocou: “Era muito pior do que qualquer um pensava; os mercados estavam no precipício de uma verdadeira crise” (“Leveraged Planet”, Andrew Ross Sorkin, New York Times, 2 de abril, 2008).

Um mês desde que a crise veio à tona, alguma estabilização se deu nos mercados financeiros como resultado do resgate e contínuos cortes na taxa de juros operados pelo Fed. Mas ninguém acredita que a crise acabou. Em vez disso, a questão pendente sobre os mercados financeiros é: quando irão os outros sapatos cair? As conseqüências da crise do crédito ainda estão para ser totalmente sentidas.

Em seu Relatório de Estabilidade Financeira Global publicado em 9 de abril, o Fundo Monetário Internacional estimou que o total de perdas nos EUA seria quase de 1 trilhão de dólares, uma soma equivalente a 7% do PIB.

O relatório avisou que “efeitos de feedback na macro-economia” eram de crescente relevância já que a incerteza financeira viria provavelmente “incidir pesadamente sobre os empréstimos familiares, investimentos em negócios, e preços de bens, em contrapartida refletindo nos empregos, crescimento de saída e relatórios de condição financeira.”

Estas tendências de recessão já estão aparentes. Um relatório de 4 de abril revelou que a economia dos EUA triturou 80 mil empregos em março, o terceiro mês consecutivo em que o número de empregos decaiu, algo que não acontecia há 5 anos. A taxa de desemprego subiu de 4,8% para 5,1% enquanto cortes de emprego foram relatados em uma gama de indústrias. No crucial setor da construção, cerca de 51 mil trabalhadores perderam seus empregos, totalizando nos últimos 12 meses 350 mil desempregados. Indústrias manufatureiras têm eliminado empregos através dos últimos 21 meses.

O Instituto de Economia Política apontou que “pelo quinto mês consecutivo, menos de metade das indústrias criou empregos, demonstrando a natureza dominante da perda de empregos.” Também observou que esta era a primeira vez em que se tinha registro da renda da família média não ter recuperado o patamar perdido na última recessão.

Crescente perplexidade

Entre os escritores mais perceptivos da imprensa financeira há reconhecimento de algumas das implicações históricas de longo prazo desta crise. O editor-chefe de economia do Financial Times, Martin Wolf, começou suas observações em um encontro recente com o seguinte:

“Por três décadas estivemos promovendo as alegrias de um sistema financeiro liberalizado e o que este sistema trouxe para nós? ‘Uma crise financeira massiva atrás da outra’ é a resposta. Isto não é pra dizer que a economia liberalizada não carrega quaisquer benefícios. Ela com certeza fez um número substancial de pessoas extraordinariamente ricas.”

Ele apontou que desde o fim da década de 1970 houve nada menos que 117 crises bancárias sistêmicas em 93 países, metade do mundo, e em 27 desses os custos fiscais do resgate foi 10% do PIB, algumas vezes mais. Mas a crise de 2007-2008, ele continuou, é “de longe a mais significativa de todas as crises das últimas três décadas.”

“O que faz desta crise tão significativa? Ela testa o mais evoluído sistema financeiro que temos. Ela emana do núcleo do mais avançado sistema financeiro do mundo e de transações conduzidas pelas mais sofisticadas instituições financeiras, que usam dos mais inteligentes meios de securitização e confiam no mais sofisticado controle de risco. Mesmo assim, o sistema financeiro explodiu: os papéis comerciais e o mercado inter-bancos congelaram por meses; os papéis securitizados se mostraram radioativos e as avaliações emitidas por agências de avaliação se mostraram fantasias; bancos centrais tiveram de bombear vastas quantidades de liquidez; e o Federal Reserve tomado pelo pânico foi forçado a fazer cortes sem precedentes nas taxas de juros.”

Quais serão as eventuais conseqüências? De acordo com Nouriel Roubini, da Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, o baque no sistema financeiro pode ser de até 3 trilhões de dólares, o equivalente a cerca de 20% do PIB.

Wolf tornou evidente a perplexidade que afeta aqueles que estão supostamente no controle do sistema financeiro.

“Eu não mais sei o que costumava pensar que sabia. Mas eu também não sei o que penso agora.”

Enfatizando a necessidade de se aprender da história, ele continuou: “Uma lição fundamental diz respeito à maneira como o sistema financeiro funciona. Os de fora sabiam que ele havia se tornado uma gigantesca caixa preta. Mas eles estavam preparados para assumir que os de dentro ao menos sabiam o que estava acontecendo. Isto dificilmente pode ser verdade agora” (Martin Wolf, Financial Globalisation, Growth and Asset Prices, ensaio preparado para o Colóquio Internacional do Banco da França sobre Globalização, Inflação e Política Monetária, Paris, 7 de março, 2008).

Trata-se de uma confissão bastante estarrecedora, vinda não de um oponente da ordem capitalista e do livre mercado, mas de um dos mais conhecidos de seus defensores públicos internacionais.

O mesmo cenário emerge de um relatório publicado no início de maio, logo antes da crise da Bear Stearns, pelo Grupo de Trabalho do Presidente sobre Mercados Financeiros, um corpo que consiste em representantes do Departamento de Tesouro, da Comissão de Tutores do Sistema do Fed (Board of Governors of the Federal Reserve System), da Comissão de Seguridades e Câmbio (Securities and Exchange Commission, SEC) e da Comissão de Negócios com Commodities Futuras (Commodities Futures Trading Commission).

De acordo com o relatório as razões para o abalo nos mercados financeiros foram:

“Uma quebra em padrões de subscritores para hipotecas subprime.”

“Uma significativa erosão de disciplina de mercado por aqueles envolvidos no processo de securitização, incluindo originadores, subscritores, agências de avaliação de crédito e investidores globais, relacionada em parte à falhas em prover ou obter informações (risk disclosures) adequadas sobre as operações de risco;

“Falhas nas interpretações das agências de avaliação de crédito sobre o subprime apoiado nas hipotecas residenciais (RMBS) e outros produtos estruturalmente complexos do crédito, especialmente obrigações de débito colateralizadas (CDOs) que seguraram RMBS e outras seguridades apoiadas em bens;

“Fraquezas no controle de riscos em algumas grandes instituições financeiras da Europa e dos EUA; e políticas regulatórias, incluindo requisitos para capital e fornecimento de informações aos investidores que falharam em mitigar as fraquezas do controle de riscos.”

Em suma, todos estavam envolvidos... tanto aqueles que emitiram as hipotecas em primeiro lugar, passando pelas instituições que as fatiaram e cortaram, agências de avaliação de crédito que avaliaram com nota máxima os pacotes resultantes, instituições financeiras da Europa e EUA que não avaliaram adequadamente o risco, até os que estavam encarregados das políticas regulatórias.

Houve um elemento considerável que só pode ser descrito como criminal—decorrente não das características particulares dos indivíduos envolvidos, mas da natureza do sistema capitalista em si.

Quando o mercado estava em alta, quando havia dinheiro a ser realizado das hipotecas subprime, através dos chamados “empréstimos mentirosos” (liar loans) com provocantes taxas para atrair os desavisados, se dinheiro podia ser feito vendendo pacotes desses empréstimos; ou dando a estes pacotes a avaliação máxima de crédito, então quem quer saber da inviabilidade de longo-prazo de todo o processo. Não havia lucro a ser feito nisso, e como um investidor recentemente colocou, enquanto a música está tocando você precisa dançar.

O economista britânico John Maynard Keynes, que sabia uma coisa ou outra sobre especulação, uma vez escreveu: “Um bom banqueiro não é um que prevê o perigo e o evita, mas um que, quando está arruinado, está arruinado de uma forma convencional e ortodoxa junto de seus companheiros, de maneira que ninguém pode realmente culpá-lo.E quando a crise de fato emerge, ele pode sempre clamar por um pacote de resgate do governo”.

Eu chamo atenção para estas questões por conta de sua significação política. Uma das mais poderosas forças ideológicas geradas pela sociedade capitalista é a concepção de que a classe trabalhadora não poderia de jeito nenhum tomar a organização e controle da sociedade, e, acima de tudo, de sua economia, porque ela não possui o conhecimento necessário. O socialismo estaria portanto, fora de questão e a organização econômica da sociedade precisaria ser responsabilidade do mercado e dos que supervisionam suas operações.

Na primeira metade do século vinte, milhões de pessoas em todo o mundo entraram na luta pelo socialismo baseadas em seu entendimento, nascido das experiências de guerra, fascismo, depressão econômica e desemprego em massa, de que as operações do livre mercado e do sistema capitalista levavam à barbárie.

Nos 60 anos passados uma das mais essenciais propagandas ideológicas da ordem capitalista tem sido a concepção, assiduamente promovida nas escolas, universidades, grande mídia e a partir da plataforma política, de que as condições supracitadas não poderiam retornar. Aqueles no poder—onde quer que estejam—aprenderam as lições dos desastres passados e sabem como prevenir sua recorrência.

Afinal, nos dizem repetidamente, como Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve Board dos EUA, que fez seu nome no mundo acadêmico através de um estudo das causas da Depressão de 1930 que estariam determinados a não deixar que aconteça novamente. Então, apesar de alguns problemas, tudo é realmente pelo melhor do melhor de todos os mundos possíveis.

Se os eventos das últimas semanas não fizeram nada mais do que fizeram, estes fatos, com certeza, despedaçaram esse mito. Conforme relatórios oficiais reconhecem abertamente, todos os mecanismos de controle que deveriam prevenir uma crise financeira falharam. E mais que isso, os que estão no poder não podem sequer explicar o motivo.

O Bear Stearns operou nos limites regulatórios impostos pela Comissão de Seguridades e Câmbio dos EUA. Mas, como seu presidente Christopher Cox escreveu durante o despertar do colapso bancário: “A todo momento a firma possuía um excedente de capital bem acima do necessário para adequar-se aos padrões da supervisão.” O Bear Stearns, de acordo com Cox, estava, dentro das regras da comissão, “bem capitalizado”. Em outras palavras, conforme disse um cirurgião, a operação foi um sucesso, mas infelizmente o paciente morreu sobre a mesa.

Enquanto os representantes da economia capitalista expressam sua confusão sobre o que se deu, os eventos das semanas passadas servem como a mais poderosa confirmação da análise de Marx do modo de produção capitalista, revelando que seu movimento é governado por leis objetivas que afirmam a si mesmas do mesmo modo que a lei da gravidade quando uma casa cai ao alcance dos nossos ouvidos.

E como o colapso da casa é o culminar de processos que se esticam desde um longo período, o ruir do sistema financeiro, e suas implicações políticas, só podem ser compreendidos através de uma análise histórica da economia capitalista.

Continua