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Mudanças climáticas são consideradas uma "ameaça à segurança" pelo Conselho de Segurança da ONU e por militares norte-americanos

Por Naomi Spencer
28 Abril 2007

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 24 de abril de 2007.

No dia 17 de abril, o Conselho de Segurança das Nações Unidas realizou a sua primeira discussão acerca das mudanças climáticas. O Conselho considerou as alterações no clima sérias ameaças à segurança e à estabilidade política. Além dos 15 membros do Conselho presentes, outros 38 membros das Nações Unidas enviaram representantes para se pronunciar. Apesar de nenhuma ação ter sido proposta no final dessa reunião, a sua convocação revela um crescente desconforto entre as potências mundiais em relação à instabilidade social que poderia ocorrer em função das conseqüências do aquecimento global.

A secretária do exterior britânica, Margaret Beckett, presidente do Conselho de Segurança, introduziu o tema com a seguinte declaração: "o Conselho de Segurança é o fórum que discute questões que ameaçam a paz e a segurança da comunidade internacional. O que dá início a uma guerra? Lutas pela água. Mudanças de padrões das chuvas. Lutas pela produção de alimentos, pelo uso da terra", disse ela. "Existem algumas grandes ameaças potenciais à nossa economia... mas também à paz e à segurança".

Citando as descobertas do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC) da ONU, Beckett salientou os riscos do aumento da fome, das enchentes e de explosões de epidemias, que deverão ocasionar migrações em massa; aumento da competição por alimento, terras cultiváveis, água e energia; e profundas crises econômicas.

As projeções científicas, que são amplamente aceitas, são muito graves. As populações mais pobres sofrerão mais cedo e de forma mais intensa. Muitas já estão enfrentando climas extremos e recebendo, aliás, pouco apoio do governo. As populações do subcontinente indiano, da China e da região andina na América do Sul são extremamente vulneráveis ao derretimento das geleiras, que servem como suprimento de água. O derretimento provocará o aumento das inundações e, finalmente, a extrema escassez de água. A baixa colheita das safras no já quente e seco continente africano pode deixar milhões de pessoas sem condições de produzir alimento. Populações litorâneas ao longo do sudeste asiático, do Caribe e do Pacífico, assim como em grandes cidades, como New York, Londres, Cairo e Tókio, correrão, a partir de meados deste século, riscos permanentes de serem desalojadas de uma hora para outra.

Sem se aprofundar nessas potenciais catástrofes humanas, Beckett citou o Relatório de Pesquisa sobre a Mudança Climática, realizada pelo Tesouro Britânico, que adverte que as alterações no clima devem causar, muito provavelmente, convulsões econômicas "numa escala semelhante àquelas relacionadas às grandes guerras e à depressão econômica da primeira metade do século XX". "Isso terá inevitavelmente um impacto sobre a segurança de todos nós — tanto de países desenvolvidos quanto de países em desenvolvimento", disse ela. A maioria dos países membros da ONU concordaram que isso representa significativos riscos à estabilidade política e econômica.

Todavia, essa avaliação também encontrou resistência, que era, aliás, previsível. O embaixador russo, Vitaly Churkin, insistiu que o assunto da mudança do clima não cabia ao Conselho de Segurança. O embaixador paquistanês, Farakuh Amil, representando o grupo de 77 nações em desenvolvimento, declarou que discutir a questão da mudança climática não somente "infringe" a autoridade da ONU, mas ainda "compromete os direitos dos membros gerais das Nações Unidas".

O embaixador venezuelano, Pui Leong, concordou, ressaltando que "o assunto da energia é uma questão que cabe apenas à soberania dos estados, como parte de suas políticas de desenvolvimento nacional... todo país, sobre a base de sua soberania, tem autoridade para decidir a respeito do uso de seus recursos naturais e estabelecer as suas próprias políticas ambientais e energéticas".

O embaixador norte-americano, Alejandro Wolff, reforçou este ponto de vista falando sobre a política energética adotada pelo governo Bush, que inclui uma despesa de US$5 bilhões em incentivos e de US$ 1,65 bilhão em crédito, cujo suposto objetivo é reduzir as emissões de gases estufa. Um quarto das emissões mundiais que provocam o aquecimento é produzido somente pelos EUA.

De acordo com o resumo da discussão da ONU, Wolff disse que a estratégia administrativa mais eficiente para permitir que os estados se preparem contra as ameaças à "segurança e à estabilidade" é promover métodos que "estimulem a educação, o cumprimento das leis, a liberdade humana e a oportunidade econômica". Em outras palavras, a resposta do governo dos EUA à mudança climática é a de implementar isenções de impostos para grandes empresas nos EUA, enquanto apóia o desenvolvimento capitalista de outros países. Isso criaria, de alguma forma, os recursos necessários para dedicar-se às alterações climáticas.

Wolff declarou que os EUA têm uma "longa história de ajuda, buscando sempre criar as condições para que as pessoas possam viver em sociedades democráticas, com economias robustas e governos fortes e estáveis". Presume-se que essa "ajuda" inclua a invasão norte-americana do Iraque, que tem, na verdade, o objetivo de garantir o controle sobre as reservas petrolíferas do país.

O debate que vem ocorrendo na ONU sobre a mudança climática e a administração do aquecimento global é uma luta entre os governos nacionais para atender seus próprios interesses no cenário internacional. Enquanto há a preocupação de que a mudança climática pode ter conseqüências políticas e econômicas jamais vistas, esses estados capitalistas concorrentes não têm meios para responder seriamente a essa questão, a não ser se preparar para as crises e os levantes sociais.

Os EUA, por sua vez, defendem os interesses a curto prazo de sua elite, assumindo o controle de recursos naturais e energéticos por meio da privatização e da guerra, e recusando-se permanentemente a assinar os protocolos internacionais. As tensões entre as nações cresceram pelo fato dos EUA e de outros grandes poluidores não aceitarem os tratados internacionais sobre o clima, baseados na publicação da Pesquisa Independente sobre a Mudança Climática.

Enquanto o governo Bush fez de tudo para impedir qualquer discussão séria sobre o aquecimento global, setores das instituições políticas e militares estão se preparando para as conseqüências desse aquecimento, por meio do desenvolvimento de estratégias militares. Em artigo publicado um dia depois do encontro do Conselho de Segurança, militares norte-americanos descreveram a terrível situação, enfrentando os poderes mundiais.

Falando sobre estudos climáticos já realizados, o artigo adverte que em três ou quatro décadas a mudança climática gerará guerras pela água, haverá o crescimento da fome e das epidemias, a inundação de grandes cidades costeiras e migrações humanas em massa. "O resultado caótico disso pode ser a incubadora para disputas civis, genocídios e o crescimento do terrorismo", declaram, pedindo a preparação militar dos EUA.

O artigo Segurança Nacional e a Ameaça da Mudança Climática foi elaborado pelo grupo ligado à segurança nacional do governo, pelo Centro de Análises Navais (CNA), com a co-autoria do comitê consultivo, que inclui altos militares aposentados, entre eles seis almirantes da marinha e cinco generais.

Enquanto não são convocados pelo governo Bush ou pelo Pentágono, alguns dos autores, que têm estreitos laços com membros do Departamento de Defesa, afirmaram que diversas divisões do exército estão examinando o problema da mudança climática.

O tom sóbrio e urgente da publicação é notável. Alguns estrategistas consideram que o atraso das companhias petrolíferas em se interessar pelos documentos do clima é uma demonstração de extrema negligência e imprudência. Os mais amplos setores das instituições políticas reconhecem que os lucros à curto prazo conquistados por meio da política atual estão sendo realizados à custa dos lucros a longo prazo e da hegemonia norte-americana.

Em particular, os representantes militares estão preocupados com o fato de que a dimensão da possível catástrofe poderia estimular uma revolução e um levante político. "Diversas nações em desenvolvimento não têm infra-estrutura governamental e social para enfrentar o tipo de pressão que a mudança do clima global trará", afirma o artigo. "Quando um governo não é mais capaz de garantir os serviços à sua população, assegurar a ordem interna e proteger as fronteiras da nação contra invasões, as condições se tornam perfeitas para que a desordem, o extremismo e o terrorismo ocupem o vazio de poder".

Enquanto nações em desenvolvimento com grandes populações são vistas como extremamente vulneráveis para tais levantes sociais, o artigo observa ainda que todas as regiões do mundo deverão experimentar profundas desestabilizações, incluindo os países desenvolvidos da Europa. O artigo defende o fortalecimento das bases militares dos EUA e dos governos aliados em regiões instáveis do mundo.

Assim como os estudos científicos que têm sido publicados recentemente, o artigo prevê que as doenças, a seca e as inundações tornarão regiões já afetadas por crises, como o Oriente Médio, a Ásia e a África, ainda mais instáveis. A migração em massa das regiões costeiras e dos países pobres para os ricos é vistas como algo muito provável, exacerbando conflitos sociais. Tal desenvolvimento pode fazer com que apelos governamentais reacionários estimulem o nacionalismo e a xenofobia, levando a ardentes conflitos na Europa e na América do Norte.

Transcrições da reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a mudança climática podem ser encontradas aqui: http://www.un.org/Depts/dhl/resguide/scact2007.htm

A reportagem completa do CNA pode ser baixada em PDF no seguinte endereço: http://securityandclimate.cna.org/report/