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As relações entre os governos dos EUA e do Iraque estão a ponto de romperem-se

Por James Cogan and Peter Symonds
7 November 2006

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Este artigo foi publicado no WSWS, originalmente em inglês, no dia 2 November 2006.

As tensões entre os governos dos EUA e do Iraque se intensificaram esta semana. Numa ação sem precedentes o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, lançou um anúncio para a imprensa na tarde de terça-feira declarando que ele “ordenou” que o exército americano desfizesse o cordão de isolamento que mantinha há sete dias em torno da cidade de Sadr, com a justificativa de procurar um soldado norte-americano que teria sido seqüestrado por militantes xiitas. A cidade de Sadr, um subúrbio de Bagdá, é a fortaleza do movimento xiita liderado pelo clérigo Moqtada al-Sadr e sua milícia Exército Mahdi.

Parece haver poucas dúvidas que Maliki lançou a declaração sem ter previamente notificado as forças de ocupação norte-americanas. O New York Times divulgou que os oficiais norte-americanos mantiveram “silêncio sobre o assunto” durante várias horas, declarando posteriormente que a ordem era uma decisão conjunta entre Maliki, o embaixador dos EUA, Zalmay Khalizad, e o general George Casey. Todavia, anteriormente, um porta-voz do exército norte-americano não conseguia ocultar sua surpresa quando questionado pelo Times. Ele disse que os comandantes norte-americanos fariam uma declaração à imprensa e que eles estavam “pensando a melhor forma para responder a essa questão”.

Maliki declarou que a ordem era necessária para “abrir caminhos e facilitar o tráfego”. A razão real é o extremo nível de tensão que está existente entre a população xiita iraquiana. Nos últimos meses, o governo Bush tem feito constantes exigências ao governo de Maliki, que é dominado pela Aliança dos Iraquianos Unidos [UIA], uma coalizão de partidos xiitas. Bush exige que Maliki ordene um sangrento ataque à cidade de Sadr para “desarmar” o Exército de Mahdi. Maliki se recusou diversas vezes a fazê-lo.

Juntamente com a UIA, o movimento Sadrista é a maior facção do governo. Um ataque contra ela poderia destruir a coalizão e fragilizar seriamente o governo. Além disso, o Exército Mahdi tem o apoio popular das massas xiitas, que, depois de longas décadas de repressão nas mãos do regime Baathista, considera essencial manterem forças armadas independentes de qualquer governo de Bagdá. Na cidade de Sadr, a milícia é vista como o único meio confiável para a defesa contra os extremistas sunitas as forças de ocupação norte-americanas, cuja presença é duramente rejeitada pela população do distrito, predominantemente pobre e pertencente à classe trabalhadora.

Como conseqüência da recusa de Maliki em atacar os Sadristas, as imprensas norte-americana e iraquiana estão especulando a respeito de um possível plano do governo Bush de preparar um golpe para instalar uma espécie de junta militar, que pudesse dar o farol verde para uma ofensiva contra a milícia xiita. Nas ruas da cidade de Sadr e outras grandes cidades xiitas, como Njaf, Kuf, Karmala, Amarah e Basra, as ações norte-americanas provocaram uma feroz oposição.

Os bloqueios e postos rodoviários impostos pelos EUA nas maiores vias de acesso à cidade de Sadr, causou grandes tensões na semana passada. Na segunda-feira, refletindo as pressões populares no sentido de resistir às ações do exército norte-americano, Moqtada al-Sadr ameaçou: “se este cerco continuar por muito tempo, nós recorreremos a ações que eu não poderei escolher, mas apenas realizar”. Ele denunciou membros do parlamento iraquiano por seu silêncio.

Na terça-feira, o sétimo dia do “cerco”, o movimento Sadrista decretou uma greve geral por tempo indeterminado. Todo o subúrbio de dois milhões e meio de pessoas entrou em greve, com homens da milícia patrulhando abertamente as ruas. A intervenção de Maliki expressa uma profunda preocupação do governo quanto à possibilidade do rápido crescimento do movimento, o que expressaria a indignação dos iraquianos em relação à ocupação e às terríveis condições sociais. Um porta-voz dos sadristas, Jalil Nouri, disse à imprensa: “se eles não tivessem levantado o cerco, nossa greve poderia ter se espalhado pelo resto de Bagdá amanhã e para todo o Iraque no dia seguinte”.

As ações de Maliki estimulam o debate em Washington em relação ao futuro de seu governo. Há um crescente consenso no governo Bush, na imprensa e entre Democratas e Republicanos, de que o governo dominado pelos xiitas não é uma meio viável para realizar os interesses dos EUA no Iraque. Todo o falatório vazio a respeito da “democracia” no Iraque foi adiado em meio à grande frustração ocasionada pela recusa de Maliki em seguir as ordens norte-americanas de reconciliação com a elite sunita e de rompimento com a milícia xiita.

Na terça-feira, a senadora democrata Hillary Clinton denunciou o governo de Maliki num discurso para o Conselho de Relações Internacionais, por falhar em criar as condições para a colonização política. Ela disse que “a credibilidade norte-americana se tornou refém do governo iraquiano, que não cumprirá a sua promessa de procurar uma solução política para os direitos e papéis da minoria sunita e de determinar como o rendimento do petróleo é distribuído”, disse ela.

O pensamento generalizado em Washington é de que o governo iraquiano é incapaz de implementar o tipo de “política de colonização” proposto pelos EUA. Para alcançar uma “reconciliação” com a “minoria sunita”, o governo teria que devolver às elites baathistas parte do poder que possuíam sob o regime de Saddam Hussein. Depois de tudo, isso significaria desenvolver uma significativa autonomia regional para os curdos no norte e os xiitas no sul, áreas que contém grandes reservas de petróleo.

Para os partidos xiitas, esses planos representam uma excomunhão. Mesmo se os líderes xiitas conquistem parte do poder, com uma contrapartida sunita, e que isso conduza ao fim da rebelião, não existe garantia de que a classe trabalhadora aceitará tal acordo. A reinstalação dos generais, da polícia e da burocracia baathista no poder, que tentarão reprimir a oposição à ocupação norte-americana, inevitavelmente geraria grande insatisfação e hostilidade popular. Esse é o motivo pelo qual as propostas de “reconciliação” caminham de mãos dadas com as exigências norte-americanas de um acerto de contas sangrento com o exército Mahdi e com a classe trabalhadora baseada em Sadr.

O governo Maliki ainda cria dificuldades para os planos de Washington no Oriente Médio. Todos os partidos da classe dominante sunita têm relações muito próximas com o Irã, para o qual os E.U.A. desejam “mudança de regime”. Qualquer agressão norte-americana contra Teerã poderia provocar a oposição das massas xiitas no Iraque, e aprofundar as possíveis instabilidades e confrontos com a ocupação liderada pelos EUA. O então secretario de estado James Baker, que dirige o alto Grupo de Estudos do Iraque procurando opções para o país, propôs buscar o apoio iraniano por uma intervenção no Iraque. Mas não existem garantias de que o governo Bush poderia ou se esforçaria por tal acordo.

Os comentários de Clinton refletem o acordo bipartidário que o regime em Bagdá deve seguir. Como ela disse ao Conselho de Assuntos Estrangeiros: “em termos políticos, nós finalmente alcançamos o absurdo completo. O governo [norte-americano] anuncia que irá propor tabelas de tempo e medidas, e o primeiro-ministro iraquiano os denuncia”. Esta declaração se soma a uma promessa de avanço do apoio democrata a qualquer movimento para derrubar Maliki.

Não seria a primeira vez que o imperialismo norte-americano removeria um de seus próprios bonecos. Ontem foi o 43º aniversário do golpe apoiado pelos EUA contra o presidente sul-vietnamita Ngo Dinh Diem. Enquanto foi completamente leal a Washington, os métodos autocráticos de Diem provocaram a oposição e abalaram a intenção norte-americana de apoiar o exército do Vietnã do sul na guerra civil contra o Front de Libertação Nacional.

No dia primeiro de novembro de 1963, unidades rebeldes do exército marcharam ao palácio presidencial em Saigon. Diem, que escapou, ligou ao embaixador Henry Cabot Lodge, e se assegurou de que os EUA não tinham responsabilidade pelo golpe. Algumas horas depois, Diem capitulou, sendo morto junto com seu irmão Ngo Dinh Nhu e substituído por uma junta.

Agora existe uma crescente discussão pública nos círculos dominantes sobre o tipo de regime exigido em Bagdá. Dispensar o governo eleito Maliki e voltar-se aos setores da elite baathista só pode significar uma coisa: o estabelecimento de uma junta apoiada pelos EUA e formada pelas forças de segurança e pela burocracia estatal. Tal formação não seria diferente da ditadura de Saddam, da qual os EUA diziam estar “libertando” a população iraquiana

Considerando as opções norte-americanas no Iraque, Eliot Cohen escreveu Wall Street Journal, em 20 de outubro, que o “mais plausível” seria “um golpe que apoiamos silenciosamente”. Cohen é associado com o American Enterprise Institue, a organização de direita que promoveu a invasão do Iraque como o primeiro passo para a “democracia” no Oriente Médio. Ele agora concluiu que “uma junta de modernizadores militares deve ser a única esperança de um país cuja cultura democrática é fraca, cujos políticos são ou corruptos ou incapazes”.

Apesar de Bush assegurar seu apoio a Maliki, as abertas divergências existentes entre o governo dos EUA e do governo iraquiano se tornou evidente há semanas. Diante disso, o conselheiro de segurança nacional americano, Stephen Hadley, chegou a Bagdá sem avisar a fim de discutir com Maliki. Hadley claramente entregou uma mensagem ao primeiro-ministro de que mudanças seriam pedidas. Mas o fato do conselheiro de segurança nacional servir como mensageiro levanta questões sobre com quem mais ele conversou e que planos foram discutidos.

Em Bagdá, a discussão de “mudança de regime”, é ainda mais aberta. Num artigo na terça-feira, o The New York Times comentou: “jornais iraquianos adotaram o tema de uma troca de governo, especulando sobre as possibilidades da composição de um ‘governo de salvação nacional’, apoiado pelos EUA, que arrancaria o poder da aliança xiita que escolheu Maliki como primeiro-ministro. Oficiais iraquianos disseram que Maliki tem sido profundamente abalado por rumores que ele pode ser forçado a deixar o cargo antes do final do ano”.

O corolário de um golpe contra Maliki seria uma ruptura sangrenta com a oposição anti-EUA, particularmente as massas xiitas de Sadr.